Rede Feminista de Juristas lança a campanha ‘Pra Não Rimar Amor e Dor’

Rede Feminista de Juristas lança a campanha ‘Pra Não Rimar Amor e Dor’
Campanha 'Pra Não Rimar Amor e Dor', da Rede Feminista de Juristas, quer alertar sobre violência em relacionamentos (Rerodução)

 

Fundada em março de 2016, a Rede Feminista de Juristas – deFEMde é uma articulação de juristas composta por mulheres cis, mulheres trans e homens cis, com atuação predominante na cidade de São Paulo. Com mais de 150 participantes diretas e inúmeras parceiras indiretas, a deFEMde se organiza para garantir e expandir os direitos das mulheres e o Estado democrático de direito, seja por meio de orientações a vítimas de violência, atuação em casos judiciais pelas advogadas que compõem a organização, seja pela disputa incansável das narrativas dos mitos e estereótipos de gênero e ainda em frentes de atuação feminista na pesquisa, no judiciário e no Ministério Público, na política e junto às autoridade de saúde e segurança pública. A deFEMde é pautada pelo feminismo interseccional.

Depois de dois anos de atuação, os dados apontam que 26,3% dos pedidos de ajuda recebidos em nosso inbox são de mulheres vítimas de violência doméstica – e 18,6% são de violência sexual. As estatísticas já revelam que a maior parte da violência sexual contra mulheres é cometida por membros da família ou agregados.

Esses dados estampam, portanto, o que já imaginávamos: o lugar mais violento para uma mulher é dentro de casa! E, na maior parte dos casos, a violência é cometida pelo namorado, pelo marido, pelo companheiro, pelo pai dos filhos.

A dor é naturalizada na vida das mulheres, é cultural e socialmente tratada como uma condição inerente do ser mulher, ou melhor, da narrativa masculina do que é ser mulher. Crescemos ouvindo que “ser mãe é padecer no paraíso”, ou que “para ficar bonita tem que sofrer” (depilação, intervenções estéticas, salto alto e roupas desconfortáveis) e que “homens são assim mesmo”; que se um menino implica com uma menina na escola é porque na verdade ele gosta dela e que somos histéricas e emocionalmente descontroladas. Como escreve a crítica de mídia Lili Loofbourow, “vivemos em uma cultura que vê a dor feminina como normal e o prazer masculino como um direito”.

Os estereótipos de gênero são a base do controle e da violência contra a mulher. E está na hora de todos enfrentarmos, sem pudor e sem tabu, que a violência doméstica não é cometida por um monstro de comportamento desviante, mas sim pelos nossos pais, nossos amigos, nossos avós, nossos tios, nossos vizinhos. E, mais do que isso, compreender que a violência psicológica e moral contra as mulheres é real e extremamente danosa.

A violência dentro de um relacionamento, em regra, não começa na agressão física, mas sim com humilhações verbais, torturas psicológicas (quantas mulheres já se viram absolutamente ansiosas com os longos silêncios ofertados pelos seus companheiros depois de se sentirem contrariados?), chantagens emocionais, ciúmes e controle. E uma das maiores perversidades a que estamos submetidas, dentro da lógica de que a dor faz parte de ser mulher, é de que esses atos cometidos pelos nossos companheiros são atos de amor.

Mas como pode ser amor se nós nos percebemos chorando constantemente, sempre com medo de falar e uma briga acontecer, com dores, ansiosas, falando horas e horas com nossas amigas sobre como eles se comportam? Amor não é dor.

A campanha Pra Não Rimar Amor e Dor vai dar espaço de fala e escuta a todxs; o objetivo é garantir um ambiente seguro, acolhedor e livre de julgamentos para que possamos estampar aquilo que já intuímos: existem padrões nos relacionamentos abusivos.

E nós queremos nos emancipar! Acreditamos que ao evidenciarmos os padrões nos empoderamos com informações concretas que nos ajudarão a perceber rapidamente quando estamos diante de um companheiro que, embora ainda não seja abusivo, já demonstra sinais de que não está disposto a construir uma relação de parceria.

Nenhuma mulher – nem qualquer pessoa – precisa ficar meses, anos ou mesmo quase a vida toda ao lado de um homem que a manipula, a ignora, a humilha na frente dos amigos, a trai, a desrespeita, a expõe a doenças e a agride fisicamente. Uma mulher não precisa estar dentro de um relacionamento amoroso para ter valor!

Acreditamos que juntas podemos fortalecer nossos valores enquanto seres humanas integrais, que sabem, por si mesmas, o que não toleram e que conseguem identificar mais rapidamente os comportamentos intoleráveis de homens que dizem nos amar. A culpa nunca é da vítima!

Porém, nós somos muito mais do que vítimas. Somos mulheres inteiras, capazes e donas de si e agentes das nossas próprias vidas! Vamos combater juntas o mito da solidão que assombra as mulheres, porque você já não está sozinha: o feminismo é o contrário da solidão. Nossa união, nossa troca de experiências e nossa rede nos alimenta do afeto que precisamos; um companheiro deve ter a clara percepção da mulher incrível que está ao lado dele – e se não tiver ou não valorizar, acredito que todas nós temos forças para retirá-lo de nossas vidas; nenhuma mulher precisa consertar nenhum homem. Essa não é nossa responsabilidade!

Para participar da campanha, acesse este link. Vamos postar um relato por dia na página ao longo do mês de março de 2018. Fale com a gente, queremos conversar com você.


Isabela Guimarães Del Monde é advogada e sócia do Tini e Guimarães Advogados e Cofundadora da Rede Feminista de Juristas

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