Arcas de Babel: poesia nórdica traduzida por Luciano Dutra

Arcas de Babel: poesia nórdica traduzida por Luciano Dutra

 

A poesia leva ao que há de mais singular em cada língua e desafia a experiência da tradução. Entretanto, muitas e muitos poetas traduzem, e às vezes a escrita poética surge junto com um olhar estrangeiro para a própria língua, vem com a consciência de sua singularidade, entre tantas outras.

Esse estranhamento intensifica as forças de transformação no interior das línguas, estendendo seus limites, ampliando seus horizontes. E nunca precisamos tanto dos horizontes que a poesia projeta, agora que uma nuvem pesada encobre perspectivas de futuro… Talvez traduzir poesia seja um modo de contribuir para a construção, não de uma torre, mas de uma ponte ou de uma arca utópica que nos ajude a atravessar o dilúvio. Que nela, aos pares, as línguas se encontrem, fecundas.

A série Arcas de Babel acolhe traduções de poesia e está aberta também a testemunhos sobre a experiência de traduzir.

Este é o terceiro dossiê de poesia nórdica publicado nas Arcas de Babel. Nesta seleção, leremos poetas de expressão sueca da Finlândia, assim como autoras e autores da Groenlândia e do povo originário Sámi. As traduções em português são do tradutor e pesquisador Luciano Dutra e a seleção de textos foi realizada por Francesca Cricelli e Luciano Dutra.

Luciano Dutra, nascido em 1973, em Viamão, é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík, onde vive desde 2002, a Sagarana forlag, editora plurilíngue que enfoca a publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia. Em 2018, Pela boca da baleia (Tusquets, 2017), sua tradução do romance Rökkurbýsnir, do islandês Sjón, ficou em segundo lugar no prêmio Paulo Rónai da Biblioteca Nacional e foi uma das dez finalistas do Prêmio Jabuti.

Francesca Cricelli, nascida em 1982 em Ribeirão Preto, é poeta e tradutora literária. Doutora em letras estrangeiras e tradução pela Universidade de São Paulo, publicou os livros Repátria (Demônio Negro, 2015), 16 poemas + 1 (Sagarana forlag, 2018), As curvas negras da terra (Nosotros, 2019) e Errância (Macondo, 2019). Traduziu, entre outros, Elena Ferrante, Igiaba Scego, Claudia Durastanti, Jhumpa Lahiri e Fernando Pessoa. Vive em Reykjavík onde estuda língua e literatura islandesa para estrangeiros.

 

Finlândia (de expressão sueca)

 

Poemas de Edith Södergran

Edith Södergran (1892-1923) foi uma poeta finlandesa de expressão sueca. Publicou em vida apenas quatro livros de poemas: Dikter (Poemas, 1916), Septemberlyran (A lira de setembro, 1918), Rosenaltaret (O altar das rosas, 1919) e Framtidens skugga (A sombra do futuro, 1920), todos ainda inéditos em português. Sua obra poética é completada pelo volume póstumo Landet som icke är (O país que não existe, 1925), cuja edição brasileira encontra-se no prelo.

DESCOBERTA

O teu amor eclipsa a minha estrela —
a lua ascende em minha vida.
A minha mão não cabe na tua.
A tua mão é desejo —
a minha mão é saudade.

[UPPTÄCKT]

Din kärlek förmörkar min stjärna —
månen går upp i mitt liv.
Min hand är ej hemma i din.
Din hand är lusta —
min hand är längtan.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

VIERGE MODERNE

Sou mulher nenhuma. Sou um neutro.
Sou criança, pajem e decisão ousada,
sou o facho risonho dum sol escarlate…
Sou rede para todos os peixes vorazes,
sou brinde à honra das mulheres todas,
sou passo rumo à sorte e à dissipação,
sou salto para a liberdade e para o eu…
Sou sussurro do sangue no ouvido dum homem,
sou abalo na alma, ânsia e negação da carne,
sou letreiro no umbral de novos paraísos.
Sou chama, perscrutante e bravia,
sou água, funda mas intrépida até os joelhos,
sou fogo e água em comunhão consensual…

[VIERGE MODERNE]

Jag är ingen kvinna. Jag är ett neutrum.
Jag är ett barn, en page och ett djärvt beslut,
jag är en skrattande strimma av en scharlakanssol…
Jag är ett nät för alla glupska fiskar,
jag är en skål för alla kvinnors ära,
jag är ett steg mot slumpen och fördärvet,
jag är ett språng i friheten och självet…
Jag är blodets viskning i mannens öra,
jag är en själens frossa, köttets längtan och förvägran,
jag är en ingångsskylt till nya paradis.
Jag är en flamma, sökande och käck,
jag är ett vatten, djupt men dristigt upp till knäna,
jag är eld och vatten i ärligt sammanhang på fria villkor…

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

Poemas de Adrian Perera

Adrian Perera, nascido em 1986 em Liljendal, Nyland, é um poeta e romancista finlandês de expressão sueca. Trabalha como jornalista autônomo e mora em Gotemburgo, Suécia. Estreou em 2017 com o livro de poemas White Monkey, agraciado com o prêmio de literatura do serviço sueco da Yle, sistema público de rádio e televisão da Finlândia. Seu romance de estreia, Mamma (Mãe) foi publicado em 2019 e o segundo, Pappa (Pai), em 2020.

A minha mãe diz que devo escrever um prefácio.
“Diz para não te levarem a mal.
Que tu ama a Finlândia”.
Ela diz que eu tenho que me colocar no meu lugar,
que estou arriscando o meu futuro.
Temos que ser gratos a eles por nos deixarem trabalhar, ela diz.
Por nos deixarem viver aqui,
ser uma família
tu e eu.
Ela tem medo de que os finlandeses se sintam intimidados.
Tu devia ser grato, ela diz.
Obrigado.

Min mor säger att jag ska skriva ett förord.
“Säg att du inte menar något illa.
Att du älskar Finland.”
Hon säger att jag måste veta min plats,
att jag leker med min framtid.
Vi ska vara tacksamma att de låter oss arbeta, säger hon.
Att de låter oss bo här,
vara en familj
du och jag.
Hon är rädd att finländarna ska känna sig hotade.
Du måste vara tacksam, säger hon.
Tack.

(traduzido do sueco finlandês por Luciano Dutra)

7

A minha mãe faz vários turnos de trabalho.
Às vezes ela é a primeira coisa que vejo de manhã,
outras vezes eu simplesmente nem a vejo.
Ligo para ela todos os dias e pergunto
o que ela faria
se eu morresse.
Ela diz que não posso ficar ligando
e atrapalhando o tempo todo.
Cada vez que ligo ela tem que desligar a máquina
isso significa que a caixa de papelão fica
vazia.
Quando não trabalha
a minha mãe some debaixo do nosso maior edredão.
Às vezes eu abro as pálpebras dela
para que ela veja a cara que um sábado tem.

[7]

Min mor jobbar i flera skift.
Ibland är hon det första jag ser på morgonen,
andra gånger ser jag henne inte alls.
Jag ringer henne varje dag och frågar
vad hon skulle göra
om jag dog.
Hon säger att jag inte får ringa
och störa hela tiden.
Varje gång jag ringer måste hon stänga av maskinen
vilket betyder att papplådan blir
tom.
När hon inte jobbar
försvinner min mor i vårt största täcke.
Ibland lyfter jag på hennes ögonlock
för att hon ska se hur en lördag ser ut.

(traduzido do sueco finlandês por Luciano Dutra)

Groêlandia

 

Poemas de Jessie Kleemann

Jessie Kleemann, nascida em 1959 em Upernavik, é uma escritora e artista plástica-audiovisual e performática dano-groenlandesa reconhecida internacionalmente. Em suas apresentações bastante provocativas, a artista lança mão de símbolos, mitos e materiais groenlandeses. Estreou como poeta em 1997 com o livro Taallat/Digte (Poemas). Escreve seus poemas em groenlandês, dinamarquês e inglês, muitas vezes fazendo esse trio de idiomas interagir na mesma página.

A MÃE DO MAR

Lá embaixo está ela
a tal Mãe do Mar
com as mãos enormes e os dedos decepados
os cabelos eriçados
pelas dores fatídicas do coração
ela vive em todas as irmãs
e mães
sua tristeza ignorada
tão pungente e tão enleada
pela imundície escura da terra
o peso
da vida em sua morte.

[HAVETS MODER]

Dernede er hun
denne Havets Moder
med de store hænder og afhuggede fingre
håret i bunker
af hjertets lodsmerter
hun bor i alle søstre
og mødre
deres ukendte sorg
så tung og så filtret af
jordens sorte snavs
tynget
til livet i hendes død.

(traduzido do kalaallisut ao dinamarquês pela autora)

[SASSUMA ARNAA]

Tasama naqqaniippoq
taanna Sassuma Arnaa
assassui aa
inuaali sumippat
nujarsui ilattut
qamani uummammini
naalliuutimisut
Taanna tamaniippoq
anaanani paniinilu
anniaat nalunartoq
artornartoq
ilatsinneqartoq
nunap perujuinit mingunnit
inuuneranik
nutsutsisoq ammut
toqussaanut allaat.

(traduzido via dinamarquês por Luciano Dutra)

NO QUARTO

No gris escuro e silencioso do quarto
estás tu
feito um fantasma à janela ao lado da minha cama
ages como um morto, com extremidades já enrijecidas
e roxas que tateiam para lá e para cá
procurando o meu corpo

Não estou aqui
de jeito algum
apenas observo
sou como um mosquitinho voando e revoando
zonza tento achar um lugar para pousar
para chupar sangue
mais sangue
quero viver

No gris que nem
sons nem cheiros clareiam
dissecas esse invólucro
que parece ser o meu
me dissecas lentamente, me retalhando feito um bicho
por ti abatido
extirpas meu coração, meus pulmões, meu fígado
sim extirpas tudo que devia me manter
viva
sou um bicho, tua presa
que mais tarde
com fidalguia, partilharás orgulhoso com outros
necessitados

Não estou aqui
estou apenas sonhando e ao amanhecer descubro
as mentiras que irão me manter viva
me torno realmente boa em me manter viva

À noite a meinha carne será partida, pedaço por
pedaço

Lentamente apodreço em teu bucho
devorada e consumida
até sair pela outra extremidade
fedendo feito lixo morto que ninguém quer tocar nem com uma tenaz

Agora o quarto está claro demais e o sol brilha
tenho que cobrir a janela
trancar o mundo lá fora
os sons e os cheiros
colar meus pedaços partidos
ver se se pode ao menos fazer o corpo funcionar
outra vez

Cadê meu mosquitinho que voa e rovoa
voa e revoa e voa e revoa?

[I VÆRELSET]

I værelsets tyste mørke grå
står du
som et spøgelse ved vinduet ved siden af min seng
du agerer som en død, med allerede stive lemmer
der er blevet blå og banker frem og tilbage
og
leder efter min krop

Jeg er her ikke
slet ikke
jeg kigger bare
er som en lille myg der flyver rundt og rundt
rundtosset prøver jeg at finde et sted og lande
for at suge blod
mere blod
jeg vil leve

I det grå, som ikke er lys
af lyde og lugte
skærer du igennem til dette hylster
som ser ud til at være mit
du skærer mig langsomt op, flænser mig som et dyr
du har nedlagt
du tager mit hjerte, lunger, lever
ja alt tager du bort, som skulle holde mig
i live
jeg er dit dyr, dit bytte
som du senere
som en stor mand, deler stolt ud til andre
trængende

Jeg er her ikke
drømmer bare og om dagen opfinder jeg
løgne, der skal holde mig i live
jeg bliver virkelig god til at holde mig i live

Om natten bliver mit kød parteret, stykke for
stykke

Langsomt rådner jeg op i din mave
fortæret og forbrugt
indtil jeg kommer ud af den anden ende
ildelugtende som dødt affald ingen vil røre med en ildtang

Nu er værelset altfor lyst og solen skinner
jeg må blænde vinduet
lukke verden ude
lydene og lugtene
samle mine parterede dele sammen
se om det lykkes i det mindste at få kroppen til at fungere
igen
hvor er min lille myg der flyver rundt
og rundt og rundt og rundt?

(traduzido do kalaallisut ao dinamarquês pela autora)

[INIMI]

Inip nipaannerani qasertumi
nikorfavutit aliortukkatut igalaap saani siniffimma saniani
toqoreersimasutullu pissuseqarlutit timit nilloreersutut tungujorluni
uteqattaartuarpoq timiga ujarlugu

Maaniinngilanga
naamerluinnaq maaniinngilanga
isiginnaaginnarpunga ippernaarannguatut timmeralaarlunga
sussaajunnaarlunga timmeralaarpunga
miffissarsiorlunga aammik milluagassannik
ila inoorusukkaluaqaanga

Qasertumi qaamanerunngitsumi
nipinik tipinillu ulikkaartumi
pilapparma ammarterparma
uangaasimassaarmi
arriitsumik aggorparma, uumasutut pilapparma ammarterlunga
soorlu pisaqarsimasutit
uummatiga, puakka, tingugalu tiguatit, tassami suna tamarmi uannik uumatitsisussaqa uanniit peerpat
uumasuutigaarma pisat
angussuartut pissarsuartut pissatsisimaarlutit allanut perusuttunut
tunniussuupparma
angussuuvutimmi!

Maaniinngilanga sinnattuinnartungaana
ullukkullu isumassarsiorlunga sallumik imminut uumatittarpunga
imminut uumatinneq ilikkavipparami
unnuakkut neqera ataasiakkaarlugu aggortarpat
arriitsumik naavit iluani oqukkiartorpunga
nerineqarsimallunga atorneqarsimallungalu
naggataagullu illuatungaatigut anniseqqittarparma eqqaavittutut tipittutut attorneqarusunngitsutut ilillunga

Maanna ini qaammarpallaarpoq
seqinnerpoq
igalaaq matusariaqarpara silarsuaq mattullugu
tipit nipillu mattullugit
timima aggorneri katersorlugit
ilami timiga atoqqissinnaanersoq misilikkaluartariaqarpara

Naaguna ippernaaraatinnguara timmeralaartuartoq?

(traduzido via dinamarquês por Luciano Dutra)

Poemas de Pivinnguaq Mørch

Pivinnguaq Mørch nasceu em 1993 em Upernavik. Em 2013, venceu o primeiro festival de poesia falada realizado na Groenlândia, publicando dois anos depois seu primeiro livro, Arpaatit qaqortut (Os tênis brancos), com nove contos e catorze poemas. Sua escrita gira em torno de temas existenciais em contraste com a vida cotidiana. Vive atualmente em Nuuk, capital e maior cidade groenlandesa, onde é mestrando em estudos culturais e história social pela Universidade da Groenlândia (Ilimmarfik). Trabalha também como guia turístico ártico.

O HOMEM CARNAL

As pulsões
podem ser comparadas a um faca
se as seguramos na mão elas podem ferir
com gravidade

Tantos cirurgiões perfuram a crosta terrestre
cobiçando cada pedaço
em nome do progresso
porém visando o lucro

O atirador de facas
mira direto no alvo
mas todo bandido afinal
atingirá algo

Quem é esfaqueado, dizem,
é que é responsável
quem se encontra no fundo do poço, dizem,
é o próprio culpado

Quem chama a atenção simplesmente escapa
e vira um exemplo para o seu entorno
mas quem é incapaz de mudar
acaba virando estátua

Esfaqueado o tempo todo
eu sofria agudamente
mas quando o meu coração foi atingido notei
que ele aquiesceu

[NUNAP INUA]

Eqqarsartariaatsit savimmut
assingupput
Paarineqaraangat ikiliisinnaasartuummata
ulorianartuusut

Pilassisartorpassuit nuna ameertarpaat
Sunartaa tamaat pigerusuunnaavittarpaat
Siuarsaanerooq anguniarlugu
iluanaarutigisaraat

Savimmik igissisoq
tungaannaanut tikkuaassisarpoq
Kinaluunniit pissusiluttoq
qanorluunniit eqquisarpoq

Itisuumik kapineqarsimasunngooq
namminneq pisuupput
Itisuumik ajornartorsiutillik
namminnerooq toqqangarivaat

Malunniuttoq kuuginnaavilertarpoq
Avatangiisaannut takusassianngortarpoq
allannguuteqarsinnaajunnaartorli
nikinngisaannarpoq

Savimmik kapoorteqqavormi
annernangaarpoq
Uummatigami ikilertilermani paasilerakku
akuersaarpoq

(traduzido a partir de vários idiomas por Luciano Dutra)

GENITORES

A vida se transforma o tempo todo
A vida não pára
Quero compreender o amor
Mas como compreendê-lo
Sei
Que me te assenhoraste de mim quando nos conhecemos
Senti que eu devia estar contigo para todo o sempre
Não tenho vontade de te deixar

O próximo passo é aceitar
Mas tudo depende do que isso quer dizer
Como ele se manifesta
Ele diz que está apaixonado, mas não demonstra isso
Por quê?
Ele sabe do que se trata
Devemos honrar o amor
Porém nos recusamos a isso

Uma pessoa determinada
É forte por dentro
Pode dizer o que pensa
Sabe o seu propósito
Sempre quer perseguir suas metas
Pensa no seu futuro
A pulsação dela é evidente
Ela é forte

Me vês
Gostas de mim
Estás aberta a mim
Me beijas com carinho
Ouves o que eu digo
Confias em mim, ficas comigo
Me trazes a felicidade
E essa felicidade é minha filha

Vivi

(traduzido via dinamarquês por Luciano Dutra)

[FORÆLDRE]

Livet ændrer sig hele tiden
Livet stopper ikke
Jeg vil forstå kærligheden
Hvordan skal den forstås
Jeg ved
At du overtog mig da vi mødtes
Jeg følte at jeg måtte være hos dig for evigt
Jeg vil ikke forlade dig

Det næste er at acceptere
Men det kommer an på, hvad der menes med det
Hvordan er det, han viser sig
Han siger, at han er forelsket, men viser det ikke
Hvorfor?
Han ved, hvad det handler om
Kærlighed skal æres
Men vi vil ikke

En bestemt person
Er stærk indeni
Kan sige sig egen mening
Kender sit formål
Hun vil altid følge sine mål
Hun tænker på sin fremtid
Hendes hjertebanken er tydelig
Hun er stærk

Du ser mig
Du kan lide mig
Du er åben overfor mig
Du kysser mig blidt
Du følger mine ord
Du stoler på mig, du er hos mig
Du giver mig lykke
Og den lykke er mit barn

Vivi

(traduzido do kallaalisut ao dinamarquês por Aminnguaq Dahl Petrussen)

[ANGAJOQQAAT]

Inuuneq allanngorartuartoq
Uniffeqarani piuartoq
Paaserusuttariga asanninneq
Qanoruna isumaqartuartoq
Kisianni nalunngikkiga
Naapikkakkit tiguaramma
Misigitileramma najortuassagikkit

Tulliunneqartarmata akuersinissaq
Apeqqtaajuarmat suna pineqarnersoq
Qanoruna imminut takutittoq
Asanninnerartuartoq malivissanagulu
Sooruna taamaalisoqartartoq?
Nalunngiisaarlugu suna pineqartoq
Asanninneruna ajortoq

Inuk aalajangersimasoq
Qamuna nukittuvoq
Oqarsinnaagami isummersorluni
Naluneq ajorlugu siunertarisani
Malittuassallugu aaqqiisarluni
Siunissani eqqarsaatigalugu
Tillernerami ersaringaarmat
Sakkortoqimmat paarsisinnaammat

Illit takulerparma
Nuannarilerimma pissusinnut
Tamatigut ammaffigaarma
Eqqanni kunilaartuarparma
Sequnngerlunga eqittarpakkit
Oqaasikka malikkakkit
Tatigigamma najorparma
Tunivarma pilluaatinnik
Meeqqanik taagukkannik

Viivi

Poesia Sámi

 

Poemas de Niillas Holmberg

Niillas Holmberg, nascido em 1990 em Utsjoki (Ohcejohka na língua sámi), Finlândia, onde atualmente ainda vive, é um poeta, romancista, roteirista e músico do povo sámi. Sua obra poética já abrange seis volumes e foi traduzida em mais de dez idiomas. É conhecido como um porta-voz bastante combativo pelo direito à autodeterminação do povo sámi e de outros povos indígenas, participando de vários movimentos contrários à exploração mineira nos territórios sámi, que abrangem as regiões setentrionais da Noruega, da Suécia e da Finlândia.

A gente pode chamar um parente de lobo?

Se o teu cão escapou
e vagueou por muito tempo pela cidade
cuidados são o mais importante
quando ele finalmente voltar.

Kan du kalle en slektning for ulv?

Om hunden din har rømt
og lenge har lusket rundt i byen
er omsorg det viktigste
når den endelig returnerer.

(traduzido do sámi ao norueguês por Endre Ruset em colaboração com o autor)

Sáhttágo fuolkki bidjat návdin?

Go beana lea mannan geidnosis
golgan gili vaikke meahccái lei mohkki
de lea goansta geassit moji
go viiimmat boahtá.

(traduzido via norueguês por Luciano Dutra)

Nos velhos tempos
a vida nos impelia
com tanta força
isso foi há muito tempo
o tempo era exíguo demais
então praticavam veras artes
trolls transformavam-se em pedra
quando neles o sol recaía
nos velhos tempos
mas depois veio a luz
e não é mais assim
nesses velhos novos tempos

I gamle dager
livet forpliktet
så hardt
det er lenge siden
tiden var for knapp
den gange laget de ekte kunst
troll be til stein
når de ble truffet av lyset
i gamle dager
men opplysningen kom
og det er ikke lenger slik
i disse nye gamle dagene

(traduzido do sámi ao norueguês por Rawdna Carita Eira)

Dolin
eallin nu garas
geatnegahtii
áigá dassái
go áigi váillui
dalle sihttát dáide
stálut stirdut geađgin
go ribahedje čuvgii
don dolin
muhto čuvgehus iđii
iige leat šat nu
dán dolin

(traduzido via norueguês por Luciano Dutra)

Poemas de Inga Ravna Eira

Inga Ravna Eira, nascida em 1948, é uma escritora, tradutora e educadora sámi. Publicou poesia, contos e obras infantis. Realiza apresentações de arte performática coletiva abordando a situação das mulheres no pastoreio de renas, atividade central na cultura e na economia sámi. É ativista da língua sámi e do ensino da mesma nas escolas. Indicado ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico de 2019, seu livro de poesia Ii dát leat dat eana (Não é essa terra, 2018), que abrange os poemas incluídos nessa minicoletânea, é uma arenga, na forma de monólogo, no qual a mãe telúrica Uksáhkká prega a proteção à natureza aos humanos da nossa era.

MULHERES SÁMI

Ánne diz que descende de tangedores de renas
porém frequenta a escola
e não sabe nem costurar calçados de pele
Biret é esposa de um tangedor de renas
porém não tem filhos
Ristin também é esposa de um tangedor de renas
porém trabalha numa loja
quem então irá costurar
calçados de pele para o esposo
Elle também é esposa de um tangedor de renas
tem dois filhos já criados
porém não tem ninguém
para lhe ajudar com a costura
Tone também é esposa de um tangedor de renas
porém é norueguesa
sabe costurar
mas da língua sámi não sabe patavina
Sárá diz que é sámi
e fala a língua sámi
porém é casada com um norueguês
Álehttá também diz que é sámi
porém não mora
na Sámilândia
Iŋgá também diz que é sámi
porém não tem o vestido tradicional dos sámi
Gutnil quer ser sámi
porém não fala a língua sámi
pois a mãe dela é norueguesa
Gádja diz que é sámi
porém não fala
o dialeto correto da língua sámi
Márjá também diz que é sámi
porém não se comporta
como um sámi deve se comportar
E eu fico me perguntando
como seria a legítima
mulher sámi

SAMISKE KVINNER

Ánne sier hun er flyttsamejente
men hun går jo på skole
og kan ikke en gang sy skaller
Biret er flyttsamekone
men hun har ikken noen sønner
Ristin er også flyttsamekone
men hun jobber jo på butikken
Og hvem skall da
sy skaller til mannen
Elle er også flyttsamekone
To voksne sønner har hun
men hun har
ingen til å hjelpe med syinga
Tone er også flyttsamekone
men hun er jo norsk
Sy kan hun
men språket kan hun slettes ikke
Sárá sier at hun er same
og snakker samisk
men hun er jo gift med en nordmann
Álehttá sier også at hun er same
men hun bor jo ikke
i sameland
Iŋgá mener også at hun er same
men koft har hun ikke
Gutnil vil gjerne være same
men hun snakker ikke samisk
mora hennes er jo norsk
Gádja sier at hun er same
men hun kan jo ikke
den rette dialekta
Márjá sier også at hun er same
men hun oppfører seg ikke
slik sammer bør
Og jeg undrer meg på
hvordan den riktige
samekvinnen er

(traduzido do sámi ao norueguês pela autora e por Kari Wattne)

[SÁME NISSONOLBMOT]

Ánne lohká iežas leat badjeniedan
muhto de gis vázzá skuvla
ja ii ge máhte gábmagiid goarrut
Biret lea badjeolbmo eamit
muhto sus gis eai lea bártnit
Ristin lea maid badjeolbmo eamit
muhto de gis bargá buvddas
Ja gii son su isidii goarru gápmagiid
Elle lea maid badjeolbmo eamit
Sus leat guokte olles bártni
muhto sus gis ii leat duodjeveahkki
Tone lea maid badjeolmo eamit
muhto son gis lea rivgu
Duoddju gal
muhto sámegiella gal ii hala
Sárá lohká leat sábmelažžan
ja hállá sámegiela
muhto son gis
lea dažain naitalan
Álehttá maid lohká
iežas leat sápmežžalan
muhto son gis
orru boasto beal sámebáikkis
Iŋgá mai ddoalla
iežas sápmelaþþan
muhto gávtti
gal ii ane
Gutnil vigga maid leat
sápmelažžan
muhto son gis
ii máhte sámegiela
Su eadni lea oainnat rivgu
Gádja lohká maid iežas
leat sápmelažžan
muhto de gis
ii máhte dan
albma sámegiela
Márjá maid doalla
iežas leat sápmelažžan
muhto de gis
ii láhte nu mo
sápmeláš galggášii
Ja mun imaštalan
makkár son dat
albma sáme nissonolmoš leat

(traduzido via norueguês por Luciano Dutra)

Os que possuem um Estado
possuem a terra
É evidente
Nós que possuímos toda a Samilândia
não possuímos a terra
É compreensível

De som har en stat
eier jorda
Det er naturlig det
Vi som har hele Sápmi
eier ikke jorda
Det er jo forståelig det

(traduzido do sámi ao norueguês pela autora)

Sii oamastit eatnama
geain lea ráddjejuvvon riika
Dat han lea lunddolaš
Mii eat oamas eatnama
geain lea olles Sápmi
Dat han gal lea áddemis

(traduzido via norueguês por Luciano Dutra)

 


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