Pés, cabeça, coração e paixão
Edição do mês
Raí no álbum da Copa do Mundo de 1994, na qual a seleção brasileira foi tetracampeã (Arquivo Nacional/Fundo Correio Da Manhã)
“Futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes.”
Arrigo Sacchi
Antes de mim, já existia Sócrates – ele morava em minha casa: o craque genial e, vale também dizer, o provocador, o ativista, um curioso sobre a existência humana, o pensador, o filósofo; jogava nos corredores e já encantava a todos ao jogar com ética e a mais sincera estética da elegância. Sem deixar de brincar, de driblar, de surpreender, de improvisar, Sócrates era, ao mesmo tempo, a encarnação do futebol que pensa.
Sócrates era genial e um homem de exceção. Porém, no futebol em geral, não encontramos o amor pelo saber ou a busca pela verdade. Longe da genialidade e da exceção, a paixão que existe ao seu redor é, no entanto, unânime. Atônitos (e incrédulos), conhecemos na carne a paixão que o futebol provoca. Ele representa muito da verdade escrachada da sociedade e do comportamento humano; por vezes, explicita a carne viva do instinto da própria vida. O futebol não busca entender a natureza da existência, nem traz elementos para que a entendamos – ele “simplesmente” existe, resiste e se consolida de maneira implacável, constante e crescente como a atividade mais popular do planeta.
Futebol não é ciência, mas deveria ser objeto de estudos mais aprofundados. Que ele suscite questionamentos e provoque discussões críticas deve-se ao fato de que ele desafia nossa compreensão.
Bola é cosmos
Inventado como uma competição enquadrada em regras, o futebol tem em sua essência e origem a brincadeira, o lúdic
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