Peças de um quebra-cabeça familiar
Edição do mês
Natalia Timerman, autora de Antes que apague (Luiza Sigulem/Companhia Das Letras/Divulgação)
“O Alzheimer é como um quebra-cabeça do cérebro cujas peças vão sendo retiradas.” A frase, dita pelo filho da narradora de Antes que apague, novo romance de Natalia Timerman, condensa todo um movimento que a narrativa do livro percorre. Se a engrenagem cerebral falha por conta de uma doença, a engrenagem narrativa consegue tirar proveito de sua temática para oferecer ao leitor peças do quebra-cabeça de uma história familiar que a narradora tenta recompor e, assim, honrar, absorver, elaborar, (re)descobrir a história de sua própria mãe, e ainda discutir o papel da literatura nessa empreitada.
Há muitas camadas em Antes que apague. Na primeira, das três que aqui serão destacadas, o livro conta a história de Alice pelos olhos de sua filha, narradora do romance. Alice sofre de Alzheimer, e acompanhamos o processo de deterioração característico dessa doença, especialmente no que se refere à perda de memória. A condição da mãe é o gatilho para que a filha comece a nos contar a história da relação das duas, microcosmo de um universo maior que engloba toda a história de uma família, seus segredos e desencontros. Timerman já se havia debruçado sobre laços familiares em seu romance anterior, As pequenas chances (2023), focado no luto da narradora pela morte do pai. Alguns temas retornam no novo livro, como o papel do judaísmo na família e a busca por entendimento e reconstrução da história familiar.
Como segunda camada, eu apontaria a investigação que a narradora põe em prática: sobre o passado da mãe e episó
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