A era fascista
Edição do mês
Vladimir Safatle, autor de "A ameaça interna: Psicanálise dos novos fascismos globais" (Cecília Bastos/USP Imagens)
Em A ameaça interna: Psicanálise dos novos fascismos globais (Ubu, 2026), Vladimir Safatle realiza intervenção contundente no debate contemporâneo sobre o fascismo, ao deslocar seu estatuto: não mais evento histórico circunscrito, tampouco irrupção de irracionalidade política, mas possibilidade imanente às formas sociais e subjetivas do mundo liberal, ou seja, da própria modernidade. A força do livro não reside apenas na formulação dessa hipótese, mas na maneira como ela é sustentada por uma articulação, de equilíbrio sempre difícil, entre teoria crítica, psicanálise e análise histórica, e, sobretudo, na forma ensaística que encena, em seu próprio movimento, a concepção de História que “propõe”.
Desde o início, o autor recusa a ideia muito em voga do fascismo como falha cognitiva ou regressão. Em pista própria, insiste em compreendê-lo como resposta coerente às contradições produzidas pelo neoliberalismo enquanto regime de produção de subjetividades. Não se trata, portanto, de denunciar uma anomalia, mas de reconhecer uma continuidade: aquilo que hoje se manifesta como fascismo generalizado já operava, de forma latente, nas democracias liberais. Nesse sentido, a distinção entre “fascismo restrito” e “fascismo generalizado” se torna central: o que se vê no presente não é a emergência de algo novo ou a repetição do chamado “fascismo histórico”, mas a expansão de práticas de violência historicamente localizadas – coloniais, periféricas, segregacionistas – para o conjunto do corpo social.
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