“No silêncio” de Arthur Sze e a poesia chinesa
Arthur Sze | © Shawn Miller (Cortesia da Biblioteca do Congresso dos EUA)
Arthur Sze, poeta estadunidense de ascendência chinesa, nasceu em 1º de dezembro de 1950, em Nova York. Seus pais emigraram para os Estados Unidos após a ocupação japonesa da China (1937-1945). Foi criado em Queens, Garden City e Long Island. Formou-se, em 1968, pela Lawrenceville School e, entre 1968 e 1970, frequentou o MIT, no setor de matemática, abandonando-o em 1970 para dedicar-se ao estudo da poesia na Universidade da Califórnia, em Berkeley.
É, atualmente, professor universitário, tradutor e poeta laureado dos Estados Unidos (2025–2026). Entre suas obras mais recentes, destaca-se Into the Hush (2025), traduzido para o português como No Silêncio (Editora Piparote) – por Júlio Antonio Bonatti Santos, com colaboração do editor Luis Marcio Silva.
Considerado uma voz extremamente inovadora na poesia estadunidense contemporânea, Sze é também profundo conhecedor da tradição poética chinesa, dominando a língua e tendo traduzido para o inglês diversos autores clássicos. Entre eles, figura Tao Yuanming (365–427 d.C.), poeta pré-dinastia Tang, com o qual mantém afinidades evidentes, seja no plano temático, seja no plano formal.
Veja-se o poema de Sze a ele dedicado na presente coletânea, que serve de amostra de sua poética, contendo as mais importantes de suas características:
Carta a Tao Qian
Queria te contar, mas não encontro as palavras –
passado mais de um milênio,
em outro continente, em outra língua,
vejo como a adversidade te fez mais forte.
Hoje possuímos antibióticos,
carros, aparelhos celulares; cientistas
dispõem de escâneres infravermelhos e monitoram um incêndio
que chegou a devastar 341.735 acres.
Quando apanhavas um crisântemo
junto à sebe de bambu a leste,
contemplando então as montanhas ao sul,
o regressar dos pássaros ao pôr-do-sol,
teu corpo girava entre pontos cardeais,
centrando-se em ti; não obstante ocultaste o norte,
pressinto a mortalidade enquanto bebias teu vinho.
Hoje já não dispomos de magia
que aplaque a perda; a retroescavadeira de um vizinho
apita ao escavar uma encosta.
Esquadrinhando tuas palavras, cavo neste lugar
onde os pinheiros perfumam o ar quando chove;
uma borboleta rabo-de-andorinha negra pousa
sobre a sálvia russa, curvando seu caule;
enquanto ela se embebe de néctar e baila, eu me embalo;
a luz distorce o que quer que a gente faça.
E o original inglês (que não consta do livro):
Letter to Tao Qian
I wish to tell you but lose the words—
more than a millennium later,
on another continent, in another language,
I know adversity strengthened you.
Today we possess antibiotics,
cars, cell phones; scientists
use infrared scanners, check a wildfire
that has charred 341,735 acres.
When you picked chrysanthemums
by the bamboo fence to the east,
then gazed at mountains to the south,
at birds homing at sunset,
You turned in three directions,
centering yourself; though you omitted north,
I posit mortality as you sipped wine.
Today we have no spell
That lessens loss; a neighbor’s backhoe
beeps as it excavates a slope.
Sifting your words, I dig at this site
where pines scent after rain;
a black swallowtail lands
on Russian sage, bending the stalk;
as it imbibes nectar and sways, I sway;
light slants all that we do.
E aqui está o poema de Tao (365-427 d.C.), que teria inspirado Sze, traduzido pelo sinólogo Arthur Waley para o inglês:
Drinking Wine (V) —
I built my hut in a zone of human habitation,
Yet near me there sounds no noise of horse or coach.
Would you know how that is possible?
A distant heart creates a distant place.
I pluck chrysanthemums by the eastern fence;
I gaze upon the South Mountain in tranquillity.
The mountain air is lovely as the sun sets;
Flocking birds return together to their nests.
In all this there is a deep meaning,
But when I would express it, I forget the words.
(E a minha tradução – literal):
Beber Vinho (Poema V)
Construo minha cabana em zona humana,
e ainda assim não soa ruído de carruagem ou cavalo.
Perguntam-me: como é possível?
Um coração distante cria um lugar distante.
Colho crisântemos junto à cerca do Leste,
Contemplo tranquilo a Montanha do Sul.
O ar da montanha é belo ao pôr do sol,
os pássaros em bando voltam juntos aos seus ninhos.
Há nisso tudo um sentido profundo,
Mas ao querer expressá-lo, eu esqueço palavras.
Não há dúvida de que a poesia chinesa clássica, da qual os poemas de Tao são um exemplo, atravessa as composições de Sze. Ao comentar essa presença, que escolhi como eixo de minha breve análise, valho-me das formulações de François Cheng em L’Écriture poétique chinoise (Seuil, 1977), estudo fundamental sobre o tema.
Segundo Cheng, a poesia chinesa caracteriza-se por integrar dimensões de divinação e de utilidade simbólica, nas quais som, gesto, linearidade, temporalidade e espacialidade confluem. Suas origens remontam mais de mil anos antes de Cristo, inicialmente com cantos ligados ao trabalho agrícola e aos rituais sazonais. Nesse contexto, não há ruptura entre signo e mundo, entre linguagem e realidade: homem e universo formam uma continuidade.
A dimensão divinatória pode ser exemplificada pela alternância entre yin e yang, como se pode observar no mais do que famoso sistema do I Ching. O poema, enquanto ato ritual, instaura uma complementaridade entre homem, céu e terra. Ele habita simultaneamente um tempo e um espaço – este entendido como um campo mediúnico, animado pelo sopro rítmico (qi), em que se articulam as oposições fundamentais: cheio e vazio, ativo e passivo, visível e invisível, interior e exterior, esconjurando a morte, via um ritual mágico.
O vazio, longe de ser ausência, introduz o infinito; o sopro rítmico anima o universo. Elementos míticos – céu, terra, paz, mestres ou prosperidade, por exemplo – organizam-se em sistemas simbólicos, frequentemente estruturados por jogos metafóricos e metonímicos. O universo poético, assim, configura-se como um movimento circular, no qual homem e mundo se implicam mutuamente.
É precisamente nesse horizonte que a poesia de Arthur Sze pode ser lida: como uma reinvenção contemporânea de princípios antigos, em que percepção, linguagem e cosmos se entrelaçam e se chocam numa dinâmica de transformação contínua.
Verifica-se, no poema escolhido, “Carta a Tao Qian”, o princípio da temporalidade/espacialidade: o poema articula dois tempos – o de Tao Qian (ritual, contemplativo, na China antiga) e o contemporâneo (tecnológico, catastrófico, em outro continente).
Os três pontos cardeais (em que teu corpo girava) leste/sul/norte não são geográficos apenas: são vetores da consciência do personagem. O “norte oculto” é um achado forte: indica limite ou aquilo que não se nomeia e não se pode evitar (a mortalidade), e “já não dispomos de magia”, nem para aplacar a perda.
Há uma série de contrapontos (antibióticos / escâneres ↔ crisântemo / pássaros / borboleta) que se justapõem num jogo de circularidade (teu corpo girava), mais do que em paralelismos: a retroescavadeira cava uma encosta e o missivista cava entre as palavras do destinatário, enquanto pinheiro/chuva/borboleta/sálvia-russa correm um atrás do outro, sem hierarquia, se embebendo, bailando; e o escritor se embala. O final, como costumava ser na poesia clássica chinesa, encerra a ideia de transformação e deslocamento de qualquer estabilidade: a luz distorce o que quer que a gente faça.
Aliás, os finais dos poemas da coletânea são extremamente significativos. Aqui vão alguns exemplos de suas características:
Convergência / divergência (“Paisagem primaveril 3”)
cada segundo se torna uma vida inteira
do aqui, agora, estar, tornar-se
seu quando você percebe que uma vez
que as linhas convergem, as linhas divergem.
Ilusão / ilusão da verdade (“Dilema”)
Sobre esse encontro fortuito: como ele traz consigo
um chapéu virado e um cartaz que leva escrito
Veterano de Guerra, você indaga: será isto de fato
uma ilusão ou a ilusão de uma verdade dilacerante?
O errante e o medo (“Canção do jaguar”)
Jamais compreenderá as noites gêmeas que levo nos meus olhos lembra-se de quando criança ao subir os degraus do porão você ia apagar a luz no final da escada e tinha pavor de que uma mão lhe agarrasse o ombro por trás […] eu sou um errante que passa pronto para dar o bote, sou a criatura que fareja os seus pensamentos mais sombrios e qualquer dia de noite ou de manhã enquanto você gira a chave no fecho da escuridão eu irrompo —
Mas eis que na coletânea surge, no final das páginas, uma outra protagonista importante da poesia chinesa: a caligrafia:
Caligrafia / respiração
Movendo no ar o pincel, fizemos outro traço para baixo e, em seguida, diminuindo a pressão, o erguemos. Respirei profundamente –
Em quase todos os poemas, agora, no fim de cada um, há informações sobre as andanças desse pincel pelas letras, numa caligrafia a duas mãos; “a duas mentes” – como explicará Sze em seguida.
Veja-se, a respeito, um trecho da entrevista que Arthur Sze concedeu a Luis Marcio Silva, por ocasião de outro de seus livros, Linhas horizontes (também traduzido para o português por Júlio Bonatti e editado, em 2024, pela Piparote, pelo mesmo editor Luis Marcio):
[Em No silêncio] pela primeira vez escrevi um zuihitsu em inglês. Na literatura japonesa, o zuihitsu – os kanjis ou caracteres chineses para essa expressão significam “seguindo o pincel” – é escrito em prosa e segue um padrão associativo livre. Em meu texto, duas pessoas seguram um pincel e desenham simultaneamente um caractere em uma prática conhecida como “caligrafia a duas mentes”. As duas mentes precisam harmonizar-se para que suas mãos (corpos) criem, através do movimento e da quietude, um único caractere, o “vazio” […]. Perto do fim, quando o caractere “vazio” está completo, o grupo final de poemas se abre para a plenitude
(profeticamente ameaçadora, que uma natureza impotente mal consegue matizar):
O passado (“Uzupis”)
A fumaça do passado penetra minhas vestes —
como uma poeira invisível, radioativa,
depositada sobre um bosque.
O presente (“Luz de Pe’ahi”)
enquanto me esforço para compor um poema que cintile,
que cintile em meio à escuridão em meio à escuridão,
O futuro (“Temporada de Incêndios Florestais”)
Traços de veneno de escorpião levarão a novas curas. Um dia eles vão extrair metais pesados da lua. Em uma pia, a aranha bebe uma gota de água, formigas cortadeiras um dia marcharão para uma floresta, por uma floresta radioativa. Neste vento, pereiras desabrocham flores brancas formando uma melodia enquanto o tempo explode dentro do tempo.
Conclusão (Galhos nus)
E, enquanto solta respiração, uma estrela de garganta azul sorve o néctar de uma chuquirágua em flor. Um cogumelo mata-moscas e rompe da terra. Um guaxinim recua de costas para o tronco de um olmo. Sempre estamos fugindo. Agora, o que importa, sempre estamos fugindo ou tentando chegar em algum lugar, e quando nos detemos, a pena de águia desta pausa nos bendiz. Antes que esta luz do dia mais curto se dissipe nos confins das colinas, ela cruza o campo da minha visão num dourado que não tem fim.
Aurora Fornoni Bernardini é professora titular da USP, pesquisadora e orientadora sênior nos departamentos de Letras Orientais e Teoria Literária e Literatura Comparada. Além da orientação, da ministração de cursos, da publicação de artigos e ensaios, tem se dedicado à tradução de obras do italiano, do inglês, do francês e do russo





