Há espaço para uma outra candidatura competitiva de direita?

Há espaço para uma outra candidatura competitiva de direita?

 

Nesta quarta-feira (10/11), Moro confirmou a sua participação na corrida presidencial de 2022. Há gente, no mundo dos influentes e do jornalismo, que insiste que a candidatura de Moro representa a oportunidade histórica de redenção de quem votou no bolsonarismo, mas não no fascismo aloprado e incompetente que veio junto. Xico Graziano, por exemplo, ex-coordenador de campanhas tucanas e bolsonarista até algumas semanas atrás, chegou a declarar que “a candidatura de Moro recoloca a decência no centro da questão política. Será como corrigir um erro da história”.

Na verdade, essa posição reflete a leitura da política nacional de um setor antipetista que considera que Bolsonaro está só esquentando o lugar que deveria ser de Moro por direito. E que agora, portanto, o guardador de lugar não é mais necessário e pode ser substituído.

Na verdade, acho mais provável que Moro tenha sido usado como escada por Bolsonaro do que Bolsonaro ter sido um sucedâneo provisório de Moro, um regente agora supérfluo ante o retorno do rei. Mas, enfim, cada um com suas crenças.

Para além do pensamento desejante de quem considera Moro um Bolsonaro melhor, o fato é que a entrada do primeiro na disputa presidencial será um teste do valor eleitoral do lavajatismo. Lavajatistas e moristas têm uma convicção arraigada de que representam os mais profundos sentimentos dos brasileiros e que têm o apoio resoluto dos seus concidadãos. Pois bem, chegou a hora da prova do conceito. Será Moro capaz de, pelo menos, fazer bonito e ir ao segundo turno enfrentar Lula, agora sem as vantagens e os truques da toga, sem o poder de mandar calar a boca ou de prender? Ou o destino de Moro é ser o Meirelles de 2018, que repetia obsessivamente a convicção de que era o melhor dentre todos para tudo se acabar com 1,2% de votos nas urnas?

Bem, discursos sobre direitos e desejos à parte, no meio do caminho há sempre os fatos. E o principal deles é que Moro entra na corrida eleitoral em uma situação bem peculiar, que afeta muito as suas chances eleitorais. Moro entra para disputar um mercado limitado e com os principais concorrentes bem estabelecidos, já com clientela fidelizada e produto conhecido.

É o que mostram as pesquisas Ipespe, divulgada no início do mês, e a do Vox Populi, publicada nesta quinta-feira (11/11). 55% dos eleitores citam espontaneamente um dos dois líderes (31% cita Lua, 24% cita Bolsonaro) quando indagados em quem pretendem votar. Para o Vox Populi, 43% dos eleitores citam um dos líderes (28% e 15%) na pesquisa espontânea. Sobra pouco para ser disputado por muitos. Não há de ser fácil.

Por outro lado, Moro, evidentemente, entra para disputar clientes da direita e da extrema-direita. O que, em princípio, seria bastante para catapultá-lo ao segundo turno. O problema é que a direita já tem nada menos que o presidente da República como seu principal provedor. E, ao que tudo indica, Bolsonaro já fidelizou entre 20 e 25% dos eleitores em geral e, provavelmente, a maior parte dos que ainda pretendem consumir a oferta eleitoral da direita. Pela primeira vez desde a restauração da democracia brasileira no início dos anos 1980, há mais candidatos fortes competindo pelos eleitores de direita que pelos eleitores de centro e da esquerda. Moro entra para dividir votos da esquerda e, em primeiro lugar, competir diretamente com Bolsonaro. Fácil não é.

Poder-se-ia pensar que Moro pudesse expandir para, pelo menos, a centro-direita. Embora essa seja hoje uma zona eleitoralmente rarefeita, pois desde 2018 a direita foi empurrada para o extremo. Ainda assim é muito difícil imaginar uma expansão de Moro em direção ao centro. Moro é odiado da esquerda ao centro e a sua taxa de rejeição, segundo a pesquisa Vox Populi, está em 54%. Contra 45% de Ciro Gomes, por exemplo, e 33% de Lula. A esquerda e o setor mais independente dos intelectuais e formadores de opinião, consideram Moro e Bolsonaro nada mais que duas variantes da mesma morbidade política. Será muito difícil que uma campanha política, ainda mais com candidato tão ruim de palco, possa demovê-los disto.

É inevitável, portanto, que o sucesso eleitoral de Moro dependa exclusivamente da sua capacidade de tirar votos de Bolsonaro e da sua capacidade de motivar os ex-bolsonaristas que agora se encaminham para não votar ou votar branco e nulo. A não ser que se presuma que a direita e extrema-direita não apenas repitam, mas ampliem a excepcional performance eleitoral de 2018, a ponto de poder colocar dois candidatos no segundo turno. O que me parece mais improvável do que Lula ganhar no primeiro turno. É mais plausível que Moro e Bolsonaro inviabilizem um ao outro do que os dois passarem para o segundo turno.

Tudo indica, portanto, que Moro terá que duelar com Bolsonaro e só um sobreviverá para contar a história.

Isso sem contar que há cada vez mais gente integrando a lista de candidatos à Presidência da República, disposta, portanto, a fatiar votos. Nesse caso, resta a Moro, como de resto também a Ciro do lado da esquerda, tentar ser a segunda alternativa para os do seu espectro ideológico. Não é exatamente a tão sonhada segunda via, mas uma mais modesta posição no banco de reserva, prontos para entrar em campo caso alguma coisa aconteça com o titular. Moro e Ciro ficam de stand by, na espera de que algum terremoto elimine, por milagre, a primeira alternativa.

Ciro apostou que poderia pegar dissidentes do petismo ou gente de esquerda que está farta de Lula, assim como Moro tem que mirar em produzir baixas no bolsonarismo e capturar ex-bolsonaristas. Com Ciro, a estratégia não deu certo. Não há sinais de que possa funcionar para Moro.

Ciro não se contentou em ficar na espera de algo acontecer, e tentou sacudir a árvore, atacando, sistematicamente, Lula e Bolsonaro. O resultado foi que, em vez de se transformar numa opção para antipetistas e gente de direita, não expandiu para a direita e ainda se tornou objeto de ódio dos petistas e lulistas. Sem que nada o destacasse particularmente do engarrafamento de nanicos do nem-nem, nem Lula nem Bolsonaro. Moro, por sua vez, terá um caminho ainda mais difícil, pois já parte com uma imensa carga inercial de ódio por parte tanto dos bolsonaristas, que o consideram um traidor, quanto dos lulistas, que o consideram um canalha.

Além disso, pelo menos segundo a pesquisa Vox Populi, nos cenários em que Bolsonaro é retirado do páreo não aumenta significativamente a intenção de votos em Sérgio Moro. Na projeção verificada, ele herdaria apenas 5 dos 21 pontos percentuais do presidente. Claro que isso pode mudar no futuro, mas neste momento o eleitor de Bolsonaro preferiria votar branco ou nulo a votar em Moro. Não parece alvissareiro.

Por fim, no rol das más notícias para Moro, tem a questão dos temas da campanha. O ex-juiz é um desses candidatos de temas bem delimitados, como Marina Silva e o seu desenvolvimento sustentável, e Cristovam Buarque e a sua educação fundamental. No caso de Moro, os temas setoriais são corrupção e crime de colarinho branco. É importante lembrar que os dois exemplos anteriores não representam grandes lances de sucesso na oferta eleitoral. Ainda mais quando há outras urgências no horizonte.

Segundo a pesquisa Ipespe, 44% do eleitorado está preocupado com temas econômicos e só 6% coloca a corrupção no topo da sua lista de prioridades. Na Vox Populi, 78% estão preocupados com a situação da economia e do emprego no Brasil. E, convenhamos, é muito pouco provável que alguém vá procurar em Moro as saídas para aumentar empregos, reduzir a pobreza extrema, controlar a inflação ou fazer crescer o PIB brasileiro. Não se trata apenas do fato de que sobre esses temas (aliás, sobre qualquer tema que não seja sobre corrupção, moralidade pública et similia) Moro não tem discurso, é que ninguém reconhece que esses sejam temas para os quais a agenda dele possa oferecer respostas.

Por estas e outras, neste momento, o caminho de Moro para a Presidência parece muito menos animador do que pensam e desejam os lavajatistas e os bolsonaristas light.

 

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP). Twitter: @willgomes


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