O nome escondido

O nome escondido
(Arte Andreia Freire/Revista CULT)

 

A linguagem é sobredeterminada pela política, mas às vezes os próprios políticos afetam diretamente o uso de uma língua. Durante o hitlerismo, a obsessão de purificação da raça desdobrou-se também em projeto de limpeza linguística. Tudo aquilo que fosse considerado estrangeiro dentro do idioma alemão deveria ser banido. Não tardaria para que o ideal nazista de uma língua pura se voltasse contra o próprio Führer, que não conseguia mais discursar com tranquilidade e desenvoltura. Conta-se que, em 1940, Hitler pediu ao ministro da Ciência, Educação e Cultura da Alemanha que as leis de perseguição às impurezas da língua que integravam a Sprachreinigung fossem afrouxadas, pois seus discursos começavam a ficar seriamente comprometidos.

No Brasil atual, a corrida eleitoral intensificou um fenômeno linguístico interessante e que merece ser observado mais de perto. O candidato Jair Messias é o responsável por desencadear uma verdadeira febre coletiva de circunlóquios para responder ao tabu linguístico em que seu sobrenome foi convertido. Adotou-se de modo mais ou menos unânime a crença segundo a qual escrever seu sobrenome tal e qual alimentaria o monstro algorítmico e ajudaria a dar mais visibilidade ao candidato. Superstição tecnológica ou não, o fato é que todas e todos os eleitores que querem evitar a chegada do inominável ao segundo turno começaram a produzir um vasto repertório de apelidos, corruptelas e desfigurações fonológicas: Bozo, Bolso, Coiso, Bostossauro, Bostonazi, Tosco, Voldermott, Coiso, Solnorabo, Abominável, Zé Bolsinha, Boçalnaro, Boçalnazi, A Besta, Pocket, Aquele-que-não-deve-ser-nomeado, Vocês-sabem-quem Bolsolixo Bolsonete, etc.

Se o nome de Deus não deve ser invocado em vão, é o diabo que faz proliferar seu nome em cascatas de exuberante criatividade idiomática. O romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, faz um inventário precioso desse fenômeno popular religioso em território brasileiro: Azarape, Coisa-Ruim, Dito-Cujo, Pé-Preto, Canho, Duba-Dubá, Tristonho, Não-Sei-Que-Diga, Que-Nunca-Se-Ri, Sem-Gracejos, Severo-Mor, Romãozinho, O Rapaz, Dião, Dianho, Diogo etc.

Nomear o diabo assim de modo indireto, enviesado, responde à crença numa potência sem controle que a enunciação do nome poderia deflagrar. Quanto ao Bolso, supõe-se uma visibilidade midiática da qual não temos controle e que lhe seria benéfica. Nos dois casos, vigora o pressuposto de uma potência do nome que vai além da mera comunicabilidade.

A ideia de que a linguagem tem poderes ocultos capazes de atingir mortalmente os homens é algo recorrente na história, tendo mobilizado fortemente, por exemplo, a cultura medieval. Os rituais de magia e abrumarias baseavam-se nesse poder. E até data recente a palavra “câncer” era um tabu: até mesmo os médicos tinham receio de pronunciá-la, e entre as famílias o diagnóstico raramente era nomeado.

Quanto aos nomes próprios, são coisa séria em nossa cultura e um ponto inquieto para a teoria da linguagem. Mobilizam ficções e fantasias sígnicas, e daí também sua força cultural e seu mistério. Em épocas de intensa violência política e social, a linguagem exibe sua dimensão de jogo perigoso. Por isso talvez o medo de fazer proliferar o fascismo através da propagação de um nome próprio que o assumiu como profissão de fé.

Todo nome próprio tem alto poder associativo; a depender das evocações fonéticas e semânticas, o sujeito seu portador experimentará inúmeras situações de mal-estar, até o ponto de optar por uma troca de nome. Na literatura antiga, o uso de simbolismos fônicos por meio de anagramas serviu para esconder o nome de deuses, de Deus, de algum herói ou chefe militar.

Ferdinand de Saussure, mais conhecido por sua teoria do signo linguístico, a certa altura da vida embrenhou-se numa pesquisa siderante sobre os anagramas, quase indo à loucura. Os manuscritos anagramáticos de Saussure perseguem “as palavras sob as palavras”, título que Jean Starobinski deu ao belo livro em que aborda tal fase da pesquisa saussuriana, provavelmente realizada entre 1906 e 1909. A pesquisa rendeu cerca de 150 cadernos contendo anotações teóricas e exercícios de deciframento. No início da empreitada, Saussure acreditava que os anagramas se restringiam à poesia romana, mas logo descobriu que se tratava de uma longa tradição poética e também de um recurso utilizado em traduções e textos contemporâneos, abrangendo portanto do sânscrito até o século 20.

Sua teoria influenciou e inspirou os linguistas e teóricos da literatura russos. Ivánov, por exemplo, estudou as cifras anagramáticas na poesia russa moderna e descobriu o nome do elefante sagrado do deus Vishnu em uma peça de Khlébnikov, além de um segredo no último poema do livro de Óssip Mandelstam – este teria escondido ali o nome Voronej, lugar para onde foi mandado em exílio durante as represálias stalinistas.

Esconder um nome pode ser uma estratégia de transmissão, um meio de burlar o censor, mas também um sintoma de temor em relação à suposta potência do nome. Poderíamos inclusive perguntar se o Messias situado entre Jair e Bolsonaro não seria também motivador dos circunlóquios. Afinal, o problema não é tanto o Bolsonaro, mas seu discurso messiânico-vingativo, baseado no medo pânico, nas paixões tristes, no ressentimento e no projeto de confiscação da diferença pelo imaginário do ódio.

É importante observar que nesta fase final da campanha eleitoral o nome Bolsonaro voltou a aparecer como tal nas redes sociais daqueles e sobretudo daquelas que se opõem veementemente ao seu projeto de embrutecimento generalizado. A que se deve atribuir esse retorno?

Arriscaria dizer que as mulheres, ao se unirem e se mobilizarem contra o candidato à presidência pelo PSL, tornaram-se bem mais fortes que as superstições algorítmicas. Nomear o mal e descrever seus efeitos, neste momento agonístico, será provavelmente mais eficaz para entrar na guerra de linguagens e enfrentar o delírio fascista em franca exibição.

Rio, setembro 2018


Laura Erber é crítica, poeta, artista visual e professora de História e Teoria da Arte na UNIRIO

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