Notícias do reino dos bichos e dos animais e mais resenhas
Em seu célebre ensaio intitulado “A penúltima versão da realidade”, o escritor argentino Jorge Luis Borges versa sobre as investigações metafísicas do cientista polonês Alfred Korzybski, que diz que cada forma de vida, vegetal, animal e humana, corresponde uma dimensão: altura, largura e profundidade, respectivamente. Enquanto a vida vegetal se resolve pela fome de energia solar, a vida animal acumula espaço, e a vida humana monopoliza o tempo. A vida não humana, portanto, ignora conceitos como futuro e progresso, vivendo em uma espécie de eterno presente.
Só um pouco aqui – primeiro romance da escritora colombiana María Ospina Pizano, que chega ao Brasil pela editora Instante – busca lançar um olhar sensível sobre os pontos de contato que se abrem entre os mundos animal e humano em um tempo marcado pela expansão cada vez mais intensa das cidades sobre o campo e do campo sobre as matas.
Povoam as quase duzentas páginas cachorros abandonados nas ruas de Bogotá, pássaros migrantes que encontram os arranha-céus das cidades em seus trajetos e um porco-espinho que é entregue por sua dona a um centro de cuidados para animais silvestres. Tudo isso permeado por uma prosa inventiva que transita entre o poético e o técnico, sem nunca, no entanto, atribuir caráter demasiado humano aos animais retratados. (Victor kutz)

Toda dor

“Fragmento. Pedaço de algo que foi partido mas carrega o todo. Mesmo fração, ele é toda dor.” Despaixão, de Paula Lopes Ferreira, é toda dor. Se nos últimos anos, após o Nobel de Annie Ernaux, o mercado editorial se viu saturado de uma autoficção feminista, o livro de estreia da psicóloga paulista surge para provar que ainda existe possibilidade de invenção na “escrita do eu”.
Emprestando o melhor de uma linhagem de autoras que vai de Marguerite Duras a Tatiana Salem Levy, Despaixão experimenta com a linguagem da memória a ponto de propor uma narrativa sem medo de misturar o que há de mais obscuro com o mais burlesco do baú do passado. A memória se transforma em sonho, e cenas da realidade ganham contornos surreais nas palavras de Ferreira.
Em meio aos delírios, o leitor quase se esquece da aspereza das palavras da página anterior, em que a narradora, grávida, se vê presa a um casamento no qual a violência bruscamente tomou o lugar do desejo. Mas os fragmentos de agressão teimam em voltar, carregando em cada sílaba a dor real que sufoca milhares de mulheres.
Dos destroços de uma mulher interrompida, a autora compõe um retrato em movimento – que não para por ali, mas corre em direção ao futuro que as palavras garantem a essa obra ímpar da literatura contemporânea. (Carolina Azevedo)

“Só leiam essas histórias à noite”
Contos dos sábios crioulos, do escritor martinicano Patrick Chamoiseau, traz ao leitor brasileiro um interessante panorama do corpus narrativo popular do Caribe francófono. Ao longo de dez histórias que mostram a originalidade das narrativas tradicionais crioulas, somos convidados a tomar contato com uma literatura oral consciente de temas que abarcam tanto o sagrado das tradições religiosas quanto o cotidiano terreno, sem deixar de lado a violência inerente ao sistema colonial e, acima de tudo, ao caráter lúdico da linguagem.
Como alerta a nota da tradutora, Raquel Camargo, o esforço foi de deixar que algumas palavras e onomatopeias aparecessem em sua estranheza. De fazer com que o leitor se deixe levar pela “magia subterrânea das palavras”, fazendo retornar à memória o caráter mais ancestral e coletivo da palavra, como quem conta histórias pelo simples fato de estar reunido em círculo em volta de uma fogueira à noite e possuir o dom da oratória. Chamoiseau evoca: “Ô velhos paroleiros, mestres da zombaria, contadores crioulos das noites em vigília, colhedores do verbo entre os desesperados, assumo a palavra ali onde a deixaram, tão livre e infiel como eram vocês” – e nós ouvimos. (V.K)

Etnografia culinária

“Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”, escreveu Oswald de Andrade no ano 374 da deglutição do bispo Sardinha. Quase um século depois, no ano 470, mais uma vez nos debruçamos sobre as questões culinárias brasileiras. Agora é o escritor capixaba Alexandre Staut que empunha a caneta – não sob a ótica da antropofagia, mas, sim, da antropologia de Lévi-Strauss – para investigar os hábitos particulares daqueles que empunham os talheres.
A verdadeira protagonista de O caldeirão da Velha Chica e outras histórias brasileiras, publicado pela Folhas de Relva, é a dimensão oral de uma história que já soma mais de cinco séculos desde que os portugueses aportaram em terras brasileiras com seus costumes culinários e mais tantos outros que correspondem às tradições africanas e indígenas que se misturam em território nacional.
Para preparar esse grosso caldo, Staut reuniu uma experiência de sete anos de viagens, visitando aldeias, fazendas, centros urbanos e quilombos, coletando histórias e relatos sobre as múltiplas faces da culinária brasileira e vários temas correlatos a ela, como as festas populares, as religiosidades, os costumes e a história locais. (V.K.)

Nós vivemos/ … o oposto…/ … audácia

Em “Um esboço do passado”, Virginia Woolf escreve que não nasceu em 25 de janeiro de 1882, e sim muitos mil anos antes; e que, desde o início, encontrou instintos já adquiridos por milhares de mulheres antepassadas. No espírito de Woolf, a estadunidense Selby Wynn Schwartz escreve As filhas de Safo para resgatar algumas dessas antepassadas que montaram a “biblioteca das mulheres” com os livros proibidos ou esquecidos da história da literatura, que insistimos em revisitar.
Indicado ao Booker Prize em 2022 e considerado um dos melhores livros do ano por veículos como The New Yorker e The Guardian, As filhas de Safo é uma obra de ficção. Mas é também um arquivo de atos biográficos de mulheres que desafiaram a escrita e o gênero ao modo de Safo, daí o título do livro; na tradução, de Nara Vidal, esse conceito ficou ainda mais manifesto que no original After Sappho.
Ficcionalizando as histórias de autoras pouco conhecidas pelo leitor brasileiro, como Lina Poletti, Sibilla Aleramo e Renée Vivien, intercaladas com fragmentos de Woolf, Vita Sackville-West e Gertrude Stein, entre outras, a obra povoa uma “cidade das mulheres”: à moda de Christine de Pizan, considerada a primeira mulher a ser remunerada no mundo da escrita, no século 15. Nessa cidade, que mais se assemelha a um vilarejo na ilha de Lesbos, Schwartz segue o exemplo de Safo: “nós vivemos/ … o oposto…/ … audácia”. (C.A.)

O mistério segundo Jon Fosse
Uma narrativa que começa com um parto e acaba com um óbito, sob o título de Manhã e noite, parece reproduzir o que há de mais óbvio na condição humana – e, por conseguinte, na literatura. Mas a prosa inventiva do Nobel de Literatura Jon Fosse prova o contrário.
As imagens são as mesmas que se repetem ao longo de toda sua obra: o mar, os barcos, as velhas casas – tudo coberto por uma bruma cinzenta que transforma a costa oeste da Noruega em um pesadelo gelado para o leitor brasileiro. Mas a linguagem que dá vida a elas carrega uma estranheza que o conduz adiante.
As palavras e expressões simples se repetem como as ondas calmas da praia pela qual Johannes, o protagonista, vaga confuso. O velho pescador acorda um dia e se sente bem, sem frio nem calor, mas algo no ar o incomoda. Sem conseguir pontuar o que, faz como de costume e vai até a praia, onde encontra um amigo que, em sua memória, morreu há anos. Passeando pelo tempo e pelo espaço – “ao melhor estilo do realismo fantástico latino-americano”, como lembra o tradutor, Leonardo Pinto Silva, no posfácio à edição –, Johannes é motor de uma meditação sobre o mistério da vida humana.
A edição publicada pela editora Zain conta ainda com a adaptação em libreto do romance, feita 15 anos depois pelo próprio Fosse, para a ópera homônima que estreou em Londres em novembro de 2015. A publicação conjunta é oportuna ao abrir espaço para a percepção da oralidade, já presente na prosa – e potencializada na versão posterior. Assim como várias das grandes narrativas da história da literatura, a obra de Fosse soa melhor ainda aos ouvidos do que aos olhos. (C.A.)






