Sem margens: A forma do encontro em Estiva
Há romances que recusam terminar. Continuam agindo porque conservam as vidas que incorporaram. A história da literatura brasileira pode ser lida como a ampliação contínua do conjunto de vidas que o romance acolhe. A cada incorporação, a escrita encontra novas possibilidades de composição. Cada mundo pede sua forma, seu ritmo e sua temporalidade. É dessa correspondência entre vida e forma que o romance retira, continuamente, sua capacidade de renovação.
Talvez por isso o romance adquira hoje um significado particular. Nossa experiência cotidiana se organiza cada vez mais pela substituição. Uma imagem sucede outra, uma notícia sucede outra, uma vida desaparece sob a seguinte antes de adquirir espessura. O romance segue outro curso. Em suas páginas, uma vida continua agindo dentro de outra. Há romances que ampliam o repertório das histórias. Os mais raros transformam a maneira como elas permanecem.
Estiva, de Pedro Paulo Gomes Pereira, pertence a essa linhagem. Sua singularidade está na forma como reúne vidas que, à primeira vista, pareceriam destinadas a seguir caminhos distintos. Cada existência continua agindo nas demais, prolongando encontros que o tempo, a distância e a dispersão não interrompem. A imagem do “rio sem margens” anunciada na epígrafe acompanha esse percurso e oferece a figura dessa composição. As histórias correm umas pelas outras; as lembranças reaparecem em novas circunstâncias; a promessa reúne o tempo de quem promete ao tempo de quem espera; a promessa conserva vínculos; a encruzilhada reúne caminhos. Como as águas de um rio incorporam novos afluentes e carregam consigo todo o percurso já realizado, cada vida segue encontrando lugar nas outras.
Após décadas de investigação antropológica, Pedro Paulo encontra na literatura a forma capaz de conservar essas vidas na duração do encontro. A experiência acumulada ao longo de sua trajetória amadurece em invenção literária. Todas as vidas reunidas pelo romance passam a integrar a mesma corrente narrativa; nela, vivos e mortos, promessas, cantos e lembranças continuam agindo uns nos outros. Dessa descoberta nasce Estiva, romance em que cada vida conserva os encontros que a formaram. A narrativa se cala, mas os encontros continuam.
A voz que reúne
A invenção mais discreta de Estiva talvez seja também uma das mais decisivas. Ela reside na forma que organiza a narrativa. A voz de Bastião lhe dá ritmo e direção. A narrativa nunca permanece onde começou. Cada vida conduz a outra, cada lembrança desperta uma nova lembrança, cada encontro reabre um tempo que parecia encerrado. Em vez de deixar uma história para trás, a narração a conserva dentro da seguinte. Como o rio anunciado na epígrafe, incorpora tudo o que encontra sem abandonar nada pelo caminho.
Para Bastião, contar nunca significa partir do começo. Toda história chega trazendo consigo outras histórias, antigas promessas e vidas que continuam agindo muito depois de terem passado. É por isso que a narrativa não procura uma origem capaz de explicar tudo o que vem depois. Ela acompanha as relações que fazem uma existência permanecer nas demais.
A história da família nasce desse movimento. Bastião vive naquela casa desde menino. Conhece seus trabalhos, seus silêncios e suas perdas. Como agregado, ocupa um lugar singular entre todos. Sua voz acompanha o curso das lembranças. Tonho conduz a Fátima; Fátima aproxima Conceição; Conceição reúne Bárbara, Dita e tantas outras vidas. Cada história reaparece quando outra começa. A narrativa permanece com cada uma delas o tempo necessário para que continuem agindo umas nas outras.
Ao terminar Estiva, levamos conosco uma experiência rara. A última página encerra a narração, mas não desfaz a trama de vidas que o romance compôs. Cada existência permanece ligada às demais pela forma que a acolheu.
Tonho nunca aparece sozinho. Sua vida é continuamente desviada para outras vidas e retorna transformada por elas. Quando reaparece, já traz consigo Fátima, Conceição, Bárbara, Dita e o próprio Bastião. Cada reaparição amplia a história que veio antes e prepara a seguinte. Assim, a narrativa conserva reunidas vidas que continuam agindo umas nas outras.
As três epígrafes anunciam rios distintos. A tradição oral umbundu, reunida por Zetho Cunha Gonçalves em Rio sem margens, fala do rio sem margens; Fernando Pessoa imagina um rio sem fim; Homero acompanha Odisseu à mercê da corrente. Em Estiva, nenhuma delas permanece na abertura do livro. O canto umbundu volta a viver na voz das personagens, enquanto a Odisseia perde o nostos como princípio organizador da narrativa. As próprias epígrafes passam a realizar aquilo que anunciam: atravessam tempos, vozes e experiências, conservando o que recebem e incorporando novos sentidos ao longo do percurso.
A dispersão da família não desfaz os vínculos que a constituem. A fuga de Conceição, a partida de Dita, a dissolução da casa onde Bastião vivia como agregado e o afastamento dos filhos não encerram essas vidas. Anos depois, o reencontro entre Bastião e Dita traz Bárbara de volta à conversa; Tonho regressa em busca daqueles que um dia o acolheram. Cada reencontro restitui à narrativa histórias que permanecem ligadas umas às outras.
Aos poucos, a amplitude da voz de Bastião se revela. Os cantos de Fátima, os pássaros, as rezas, a encruzilhada, os encontros entre vivos e mortos aparecem com a mesma naturalidade que o trabalho, a fome, o nascimento ou a migração. Nada é apresentado como extraordinário. Tudo encontra lugar na mesma voz.
Quando a narrativa se encerra, a voz de Bastião se cala. O que ela reuniu permanece.
O rio sem margens
Como se viu, o rio sem margens anunciado na epígrafe acompanha todo o romance. Seus versos passam de uma voz a outra, reaparecem nos cantos de Fátima, encontram lugar na memória de Bastião e se renovam a cada nova circunstância. Apenas ao final da leitura se percebe que esse rio não designa apenas uma paisagem ou uma imagem poética. Ele revela o princípio que organiza a narrativa. Sem origem absoluta nem termo definitivo, Estiva incorpora cada vida ao seu percurso, faz de cada encontro uma nova inflexão de seu curso e conserva, em sua corrente, tudo o que recolhe.
A voz de Bastião imprime esse movimento ao romance. Embora comece acompanhando Tonho, a narrativa logo se aproxima de Fátima, segue Conceição, alcança Bárbara, demora-se em Dita e, quase sem anúncio, incorpora a história de seu próprio narrador, agregado daquela família desde menino. Nenhuma dessas vidas substitui a anterior. Afastam-se, reaparecem e voltam a encontrar-se.
A essa altura, já não surpreende que Tonho nunca apareça isolado. Seu nascimento conduz a Fátima; Fátima leva a Conceição; Conceição aproxima Bárbara e Dita; todas essas vidas acabam reencontrando o próprio Bastião. Seguir Tonho é, desde o início, seguir muitos outros. Sua corrente descreve o próprio andamento da narração. As histórias recebem novos afluentes, desaparecem em uma curva, reaparecem mais adiante e seguem transformadas pelo percurso. Nenhum retorno restitui o mesmo curso.
A família de Conceição se forma aos poucos na narração de Bastião. Ele acompanha sua constituição, presencia sua lenta dispersão e, mesmo depois, continua reencontrando aqueles que fizeram parte dela. Só ao rememorar esse percurso Bastião compreende o lugar que ocupava naquela casa. A palavra “agregado”, ouvida quase por acaso, dá nome a uma experiência que até então permanecia difusa: a de quem participa da intimidade da família sem jamais pertencer inteiramente a ela. Os reencontros que a narrativa promove conservam uma história que continua encontrando lugar na vida de cada um.
A narrativa passa então a reunir experiências que, em outra tradição do romance, tenderiam a permanecer separadas. Os cantos de Fátima, os sonhos, os pássaros, a fome, o trabalho, o amor, o ciúme, a morte e o cuidado passam a habitar o mesmo fluxo narrativo. Na voz de Bastião, mortos, rios, sonhos, lembranças e encontros entram na mesma corrente narrativa. A narração lhes oferece um lugar comum, onde continuam aparecendo uns nos outros.
O “rio sem margens” deixa de nomear apenas a história de Tonho ou a memória de Fátima e revela a própria forma da narrativa. Como o rio anunciado na epígrafe, a narração incorpora tudo o que encontra. As vozes, as lembranças, os mortos, as promessas e os encontros seguem correndo na mesma corrente.
Outra duração das formas
A epígrafe retirada da Odisseia aproxima Estiva de uma das formas mais antigas da narrativa: a viagem de quem parte e regressa. Durante séculos, essa estrutura organizou histórias em que o percurso encontrava seu sentido porque existia um lugar capaz de acolher novamente quem voltava. Desde suas primeiras páginas, porém, o romance de Pedro Paulo indica que esse retorno já não poderá conservar o mesmo significado.
Tonho regressa muitos anos depois. A casa já não guarda o lugar que deixou; os vínculos foram alterados pelo tempo; a memória encontra um mundo que continuou vivendo sem ele. O romance narra essa experiência numa cena de extraordinária simplicidade. Ao reencontrar Zelume, o cachorro que o acompanhara na infância, Tonho descobre que nem mesmo o animal o reconhece.
…viu no quintal da vizinha Zelume estendido no sol, o mesmo cachorro que antes corria atrás da sombra dele sem esperar gesto (…). Tonho se aproximou, chamou baixo, quase sopro, Zelume ergueu a cabeça, farejou o ar (…), mas não farejou Tonho, levantou, deu dois passos, passou ao lado (…). Uma menina apareceu no portão, rosto espremido na grade, disse que o cão não lembrava de quem some, disse sem maldade, só dizendo. Tonho baixou a mão devagar, sentiu tudo afundar num canto onde palavra não entra… (Estiva, págs. 186-187)
Tonho regressa a um mundo que continuou seguindo seu curso. A casa já participa de outra duração, os vínculos foram transformados pelo tempo e o reencontro revela que a vida continuou correndo para todos.
A imagem do rio sem margens revela então todo o seu alcance. Ela já não designa apenas um motivo recorrente da narrativa, mas a forma que a organiza. Como um rio que incorpora cada afluente sem deixar de ser o mesmo, Estiva reúne vidas, tempos, cantos, promessas e lembranças numa corrente contínua. Nada permanece isolado, nada retorna como simples repetição. Tudo ingressa na narrativa transformado pelos encontros que a constituem.
O retorno acompanha esse mesmo ritmo. Cada reencontro abre novas direções para a narrativa, porque aqueles que voltam encontram um mundo transformado, enquanto aqueles que permaneceram também seguiram vivendo. O caminho nunca reconduz ao ponto de partida. Cada passo incorpora novas experiências e mantém aberta a possibilidade de outros encontros. Como reflete Bastião:
E se for isso mesmo, então que seja, porque mesmo quando o caminho rasga o pé, mesmo quando fere, mesmo quando exige pedaço, ainda assim, é melhor seguir do que afundar no medo, melhor um passo errado do que esquecer como se anda, melhor tropicar do que virar raiz no lugar errado, porque quem caminha, uma hora ou outra, topa com uma sombra boa, um gole d’água, um ombro, um nome conhecido, um riso esquecido no meio da garganta, e aqueles tempos deixaram uma lição que não grita, mas fica, fica como poeira guardada no avesso da roupa, o mundo não precisa ser leve o tempo todo, não precisa, basta que, de vez em quando, só de vez em quando, ele nos permita respirar (Estiva, pág. 202).
Ao final, percebe-se que o rio sem margens não conduz apenas as vidas do romance. Ele também conduz seus compromissos. O caminho nunca se fecha sobre si mesmo porque aquilo que é prometido continua agindo muito depois do instante em que a promessa foi feita. É nesse fluxo que outra forma decisiva da narrativa se revela: o pacto.
Não por acaso, a voz de Bastião passa a conferir novo peso às palavras. Elas já não designam apenas ações ou acontecimentos. Conservam experiências, obrigações e vínculos que continuam agindo ao longo da narrativa.
A encruzilhada oferece o exemplo mais expressivo. Em torno de Tonho circula a história de um trato capaz de explicar sua transformação. A narrativa conserva essa memória e a faz reaparecer na voz de Bastião. Cercada de caminho, aceitação e presença, a encruzilhada ganha outra espessura. O trato acompanha uma maneira de habitar o mundo, de assumir a palavra dada e de reconhecer os encontros que orientam uma existência. Por isso a definição de Bastião surpreende pela simplicidade: “encruzilhada não é mal, é encontro.”
O pacto ocupa um lugar central na imaginação literária do Ocidente. De Fausto a a Doktor Faustus, ele aparece como um acordo firmado com o Diabo e como a figura por excelência para pensar o conflito entre bem e mal, salvação e perdição. Estiva retoma esse antigo tropo da literatura ocidental, mas lhe confere outro sentido. O mistério da encruzilhada permanece, agora ligado aos caminhos, aos encontros e aos vínculos que sustentam a existência. É nesse universo que a palavra “pacto” reaparece no romance.
Nessa transformação, Estiva realiza uma de suas operações estéticas mais originais. Pedro Paulo inventa um narrador capaz de pensar a existência a partir de outra compreensão do mundo. Pacto, velhice, amor, ódio, morte, promessa, memória e caminho passam a compor uma mesma experiência da vida. Cada uma dessas palavras reúne uma cosmologia, uma concepção de pessoa e uma experiência do sagrado que orientam a maneira de narrar. A voz de Bastião confere unidade a esse universo. Ela pensa enquanto conta, e conta enquanto pensa. É nessa forma narrativa que o romance encontra uma de suas realizações mais originais.
A forma do encontro
Ao final, torna-se plenamente visível a forma que organiza Estiva. Nada do que o romance acolhe deixa de agir. Cada existência permanece encontrando outras existências, fazendo com que lembranças, promessas, cantos e caminhos continuem compondo a mesma corrente de relações. É dessa permanência dos encontros que nasce a unidade do romance.
Essa forma aparece na maneira como Bastião conduz a narrativa. Sua voz distribui a atenção segundo a intensidade dos vínculos que unem as existências. O romance avança, retorna e demora-se, permitindo que cada vida revele sua espessura e as relações que a ligam às demais. A atenção orienta seu ritmo: conceder duração a uma existência significa reconhecê-la como parte da mesma corrente de relações.
A política de Estiva começa nessa distribuição da atenção. Ao repartir o tempo entre as existências, a narrativa faz da duração uma forma de justiça. Cada vida ocupa seu lugar porque participa da mesma trama de relações que organiza o mundo narrado. Situado na tradição do romance brasileiro, esse princípio formal adquire um alcance ainda maior. Ao longo de sua história, o romance ampliou continuamente o conjunto das experiências acolhidas pela ficção. Pedro Paulo leva esse movimento adiante ao fazer com que essas vidas compartilhem a mesma duração narrativa. Cada existência preserva sua singularidade enquanto participa de uma experiência comum, formada pelos encontros, pelas promessas, pelas lembranças e pelo tempo que passam a dividir.
É essa forma de atenção que a longa experiência antropológica de Pedro Paulo encontra na literatura como invenção narrativa. Outra compreensão da existência passa a organizar, desde dentro, a arquitetura do romance. Sua forma nasce da maneira como essas vidas compreendem o mundo e nele constroem seus vínculos.
Talvez essa seja sua contribuição mais singular para a tradição do romance brasileiro. A renovação do romance depende não apenas das vidas que ele passa a acolher, mas também das formas de existência que passam a organizar sua imaginação.
A voz de Bastião se interrompe. Seu modo de olhar permanece.
Ao descobrir outra forma de atenção, o romance encontra outra forma de pensar.
Marcos Aurélio da Silva é antropólogo, docente permanente dos programas de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e em Antropologia Social da Universidade Federal de Mato Grosso




