Mito e tragédia nas quebradas do mundaréu

Mito e tragédia nas quebradas do mundaréu

Welington Andrade

Alô, Foucault, você quer saber o que é loucura?/É ver Hobsbawn na mão dos boy/.
Maquiavel nessa leitura/É ver moleque de 10 anos com uma arma na cintura/
E achar que teu 12 de condomínio não carrega a mesma culpa/
É salto alto, é MD, é Absolut, suco de fruta, mas nem todo mundo é feliz nessa fé absoluta/
Calma, filha, que esse doce não é sal de fruta/
Azedar é a meta/Tá bom ou quer mais açúcar?

(Criolo)

O Núcleo Bartolomeu de Depoimentos está apresentando, em sua sede no bairro da Pompéia, até o próximo dia 22/12, um espetáculo que se abre multidisciplinarmente às demandas políticas e intelectuais mais urgentes do país: Antígona recortada: cantos que contam sobre pousos pássaros. Formado por Claudia Schapira, Eugênio Lima, Luaa Gabanini e Roberta Estrela D’Alva, o Núcleo nasceu há treze anos com a proposta de fazer dialogar a cultura hip-hop com o teatro épico. A estréia dessa mistura tão genuína se deu em 2000 com o espetáculo Bartolomeu, o que será que nele deu?, inspirado na novela Bartleby, o escriturário, de Herman Melville. Seguiram-se Acordei que sonhava (livre adaptação de A vida é sonho, de Calderón de la Barca), em 2003; Frátria amada Brasil: pequeno compêndio de lendas urbanas (inspirado na Odisséia), em 2006; e Orfeu mestiço, uma hip-hópera brasileira, em 2012, criado a partir do mito grego de Orfeu e Eurídice. Além de espetáculos regulares, o Núcleo desenvolve também atividades especiais cujo objetivo é consolidar a linguagem do teatro hip-hop, entre as quais se destacam os projetos Urgência nas ruas (2003-2004) e 5 X 4 – Particularidades Coletivas (2008). Atualmente, dois projetos permanentes ocorrem com regularidade mensal no espaço cultural que o grupo administra: o poetry slam (campeonato de poesia) ZAP! Zona Autônoma da Palavra e o encontro de dramaturgia DCC – Dramaturgia Concisa e Contemporânea, dedicado à criação e análise de textos curtos e inéditos.

Surgida no Brasil, no final dos anos 1980, a cultura hip-hop está organizada em torno da figura de quatro narradores, que descrevem, cada um a seu modo, a realidade das ruas das grandes cidades em que vivem: o MC (mestre de cerimônias) é o narrador que articula o ritmo com a poesia (rap: rhythm and poetry); o DJ (disc-joquey) é aquele cuja narração se dá pela exploração das amplas possibilidades que o universo fonográfico coloca à disposição dele e pela criação de batidas especiais (beat maker); o B. Boy (break-boy) e a B. Girl (break girl) são os dançarinos de rua que usam como instrumento narrativo o próprio corpo, durante os break-beats; e o grafiteiro é o artista gráfico cuja narração é impressa nos muros das cidades, suportes cotidianos nos quais ele faz do aerossol o seu pincel.

Durante as duas últimas décadas, essa cultura deixou a posição periférica (entenda-se aqui o adjetivo em toda sua dimensão semântica) que ocupava nos anos heróicos de Thaíde & DJ Hum, Código 13 e O Credo, por exemplo, para se tornar uma das manifestações culturais e políticas mais relevantes dos tempos atuais, disposta agora a fomentar novos discursos, novas intersecções culturais, novas linguagens – desafios a que a Núcleo Bartolomeu de Depoimentos vem se lançando com um ímpeto e uma criatividade ímpares. (Para o leitor disposto a compreender melhor esse rico e complexo fenômeno cultural, recomenda-se a leitura do dossiê “Rap, funk e tecnobrega. A linguagem da periferia cria uma nova estética que modifica a agenda da elite cultural do país”, publicado na Cult n. 183, em setembro último.

O percurso que tem trilhado o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos passa por uma pesquisa muito consistente empreendida pelo grupo na tentativa de compreender e identificar as principais linhas de força de certas obras clássicas da cultura letrada para fazê-las dialogar com questões urgentes da contemporaneidade brasileira. O momento agora é o da Antígona de Sófocles, cujo tema principal reside no confronto entre dois direitos: o direito natural, defendido pela protagonista, e o direito do Estado, representado por Creonte. Encenada pela primeira vez, em Atenas, em 441 a.C., Antígona é um belíssimo drama (Bertolt Brecht considerava a peça um dos maiores poemas ocidentais) estruturado em torno de um problema prático de conduta que envolve aspectos morais e políticos. Após a morte de Édipo, seus filhos, Etéocles e Polinices, disputam a sucessão do trono na cidade de Tebas e acabam, ambos, morrendo em combate. Antígona quer enterrar seu irmão Polinices com todas as honras devidas, desrespeitando, assim, o edito de Creonte, por meio do qual somente a Etéocles é possível conceder as honras fúnebres, já que o guerreiro foi morto em defesa da cidade pelo irmão que a atacava. A peça discute um problema fundamental para o espírito humano: de que tipo deve ser a relação das autoridades instituídas (encarnadas, aqui, na instância máxima do Estado) com a consciência individual? Ou, em outros termos, como fazer conviverem a letra e o espírito?

Antígona recortada extrai do original grego, com o qual mantém uma interlocução surpreendentemente atual (os aspectos da peça poderiam ser discutidos, com fundamentos e interesses idênticos, em qualquer época e país, afirma o helenista brasileiro Mário da Gama Kury, no texto de introdução da edição da obra traduzida por ele), uma imagem lancinante: o direito de as periferias sepultarem dignamente seus mortos e darem a eles o devido repouso. No texto de Claudia Schapira, duas irmãs, moradoras de “alguma periferia do mundo”, se insurgem contra a autoridade despótica do chefe local, pranteando e sepultando com a devida honra os corpos das inúmeras crianças e adolescentes exterminados pelo tráfico.

Mas essa é somente, digamos, a tessitura narrativa mínima que subjaz ao espetáculo, ele em si uma forma teatral e musical das mais surpreendentes e inovadoras que surgiram recentemente na cena contemporânea. Tendo por companhia no espaço cênico a figura do DJ Eugênio Lima, também diretor musical da empreitada, as atrizes-MCs Luaa Gabanini e Roberta Estrela D’Alva empenham toda a expressividade do corpo e da voz na condução do mosaico de sensações e reflexões a que é submetido o espectador. À dramaturgia da palavra vem se juntar uma dramaturgia sonora que produz uma experiência de assonâncias e dissonâncias a um só tempo fascinante e perturbadora.

A metáfora dos pássaros que serve de fio condutor ao texto de Claudia Schapira é de uma beleza bastante potente. O pássaro, símbolo da alma, assume um papel intermediário entre duas ordens: o céu e a terra, representando a leveza de um corpo que se libertou do peso terrestre. Daí a obsessão dessas Antígonas modernas em darem aos corpos dos meninos que vão recolhendo de buracos e becos o justo e merecido pouso/repouso. Afinado como está com a estética do teatro épico, o espetáculo narra, mostra e adverte, embora dialeticamente não deixe de constituir também uma experiência angustiante ligada à esfera da morte. E é justamente a fusão dessas fronteiras que mais causa estranheza ao espectador. Da feliz união entre a cultura hip hop e o teatro épico nasce uma experiência sensorial e intelectiva de natureza essencialmente trágica, que remete à máxima de Teofrasto (372 a.C.-287 a.C): “A tragédia é um poema representado sobre um túmulo”.

Cabe ao espectador caminhar, sem nenhuma espécie de preconceito, por esse terreno que vai do centro à periferia, para descobrir que a cultura dos contornos, das margens, das extremidades está sabendo se apropriar muito bem dos tesouros letrados, ressignificando-os com muita pertinência, ousadia e invenção. “O conflito entre Antígone e Creonte é de todas as épocas e preserva-se sua veemência ainda em nossos dias. Em todas as culturas, o processo pelo qual a lei geral suplanta a lei particular faz-se acompanhar de crises mais ou menos graves e prolongadas, que podem afetar profundamente a estrutura da sociedade”, afirma Sergio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil (atribua-se, devidamente, o crédito dessa citação ao DJ Eugênio Lima).

Do mesmo modo que a Antígona de Sófocles problematiza o confronto das leis naturais com as ordens de um poder arbitrário, essa Antígona recortada, espetáculo pulsante, de rara beleza poética, explora uma verdade penetrante: a de que é sempre possível à consciência humana reivindicar a justiça contra a violência, seja ela praticada sob a forma da ilegalidade mais corrosiva, seja ela vivida no âmbito da mais convencional das legalidades.

Antígona recortada – Cantos que contam sobre pousos pássaros
Onde: Núcleo Bartolomeu de Depoimentos
Quando: até 22/12 – sex. e sáb. às 21h; e dom. às 20h
Quanto: pague quanto puder
Info.: (11) 3803-9396

welingtonandrade@revistacult.com.br

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