João Cabral, o artífice da pedra

João Cabral, o artífice da pedra
Retrato de João Cabral por Bob Wolfenson (Foto: Bob Wolfenson)

 

Um dos melhores poetas brasileiros em atividade, Armando Freitas Filho era um jovem aspirante às letras quando conheceu João Cabral. O grande autor de O cão sem plumas voltava ao Rio, no final da década de 1980, depois de 40 anos servindo como diplomata em sete países. Ficaram amigos íntimos. “Mas a gente não conversava sobre literatura. Era mais sobre futebol, mulheres, Sevilha, coisas da vida”, conta. “Ele era tímido e estava sempre elegante, formal, mesmo em casa. Às vezes me recebia deitado na cama dura e simples, por conta das dores de cabeça. Gostava de contar suas façanhas como ponta-esquerda, falava da velhice, e lembrava da infância, quando lia histórias de cordel para os empregados da fazenda de seu pai.” Curiosamente, o próprio Armando ficou paralisado quando leu Cabral pela primeira vez. Para ele, os versos de Uma faca só lâmina formavam um muro intransponível: como escrever depois daquilo? “Sua poesia é infalível. Parece que escreveu toda obra num dia só, é tudo tão perfeito que eu fico pasmo de ver”, diz, com admiração e espanto joviais.

A paralisia também tomou conta de Paulo Henriques Britto, outro de nossos grandes craques do verso, quando deparou com a obra do autor de Morte e vida severina, “O rio”, “Fábula de Anfion”, “Os três mal-amados”… “Existem poetas que são polivalentes, como o Drummond, que escreveu soneto, verso livre, poema narrativo, poema dramático. E há outros que têm uma maneira muito específica de escrever; esses, quando influenciam a gente, tornam-se problemáticos, perigosos, pois tendemos a imitá-los. É o caso do Cabral”, explica. Essa forma marcante, obsessão do poeta nascido em Recife, traduz-se em “metros curtos, de sete, oito sílabas, rimas incompletas – especificamente a chamada rima toante –, e temática muito definida: basicamente poemas sobre a poesia, sobre o Nordeste e a fome, e sobre a Espanha, as dançarinas e os cantores de flamenco. Com esse repertório muito restrito ele fez maravilhas”, complementa Britto. 

Maravilhas que, para Cabral, devoto de Le Corbusier, nada tinham a ver com inspiração. Radicalmente avesso ao sentimentalismo e à espontaneidade, demorou dez anos para escrever “Tecendo a manhã”, do qual fez 40 versões. Ainda que tenha flertado com o surrealismo e fosse amigo de Miró, vivia em batalha para conter as convulsões internas, a subjetividade. Achava que palavras como maçã eram mais poéticas que palavras como angústia, e que os versos, como as artes plásticas, deviam provocar sensações. Era tão autocrítico que não via grande coisa em “Morte e vida severina”. Freitas Filho lembra que ele ficava incomodado quando Vinicius de Moraes, seu antípoda em estilo e um de seus melhores amigos, tocava os versos severinos ao violão. Porém, Chico Buarque revelou que, ao ver a estreia da versão para teatro no Odeon em Paris, o temido João Cabral derreteu-se. Não era de pedra, afinal.


4/4 — Pensando em João Cabral
Por Armando Freitas Filho

Um quarto sem memória.
Não há ar espaço aberto
onde só cabe a cama entre
quatro paredes brancas.

Dois quartos ligados
pela porta de comunicação
murmúrios gemidos
amiúde e choro noturno.

Três quartos separados
um ente em cada um
dois em cima pertos
outro em baixo longe.

Quatro quartos enfim
fixos em outro formato
amortecido – imóvel
na cama dura e justa.

Este poema, inédito, foi cedido gentilmente por Armando Freitas Filho. O formato celebra a obsessão de João Cabral com o número quatro. O tema, por sua vez, reflete a frugalidade em que vivia o grande poeta e também sua rigorosa economia de recursos no fazer poético.

 

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