1968, o ano erótico

1968, o ano erótico
Godard introduziu o corpo, o desejo a pornografia na sua visão de política (Foto: Fabrice Aragno)
  Laissez-moi vous dire au risque de paraître ridi(cul)e” (“deixe-me lhes dizer sob o risco de parecer ridí(cu)lo”). É com essa frase, na qual a palavra ridicule é escrita de maneira fragmentada sobre fotografias de Che Guevara, de guerrilheiros mascarados, de estudantes nas barricadas de maio de 1968 e do rosto do general Charles de Gaulle, que Jean-Luc Godard inicia seu cinétract nº 23 . A frase escolhida é uma das célebres citações de Ernesto Che Guevara e, como numa espécie de blague adolescente, o destaque da palavra cul (“cu”, em português) no meio de ridicule definitivamente afasta o adjetivo de seu significado original. O gesto político trazido por esse deslocamento de palavras é inegável: uma ação de separação e alargamento, um gesto que anuncia algumas transformações, imprime uma energia, declara e assume uma posição. O gesto coloca o cul em primeiro plano e reflete uma ruptura com a tradição da esquerda revolucionária. A presença dessa pequena palavra muda tudo, pois introduz desejo, pornografia, corpo e escatologia na política. Posição que denota uma ruptura com o Partido Comunista Francês (PCF) da época e sua visão causal e instrumental da relação entre arte e política. Época em que o significante – transfigurado na figura do autor, do falo e do pai – era tratado com reverência e respeito, da mesma forma que os intelectuais eram vistos como figuras portadoras de verdades acabadas e descendentes. Com tal gesto, Godard deixa o falo de lado para que outra coisa o substitua. Além disso, o artista torna-se

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