Escritora mapeia produção literária de mulheres negras da Bahia

Escritora mapeia produção literária de mulheres negras da Bahia
Calila das Mercês, idealizadora do projeto Escritoras Negras da Bahia (Foto Jemima Bracho)

 

 

“De quais escritoras negras brasileiras você já ouviu falar e quantas já leu?”. A pergunta, direta, vem da escritora e jornalista baiana Calila das Mercês. Cansada de ver mulheres negras excluídas dos círculos literários, ela decidiu tomar o problema pelas próprias mãos e propor uma solução.

Calila lança nesta sexta (7), no Mês Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, o site Escritoras Negras da Bahia, que apresenta a produção literária de contistas, poetas e romancistas negras do estado. Há nomes pouco conhecidos do grande público, como Rita Santana, Mel Adún e Celeste Pacheco.

“Sempre senti falta de mulheres que me representassem no campo literário. Na Bahia, um estado em que a população negra é maioria, prestigiamos grandes escritores homens, mas temos também grandes mulheres negras escrevendo”, afirma Calila, que é doutoranda em Letras pela UnB.

Em 2015 ela lançou um projeto semelhante, o Escritoras Mulheres na Bahia, que catalogava a produção de cinquenta autoras do Estado, mas sem o recorte de raça.

“Quando você faz só o recorte de raça [no mercado editorial], deixa de fora as mulheres negras, porque os homens negros são mais publicados que nós. E quando faz o recorte de gênero, são as mulheres negras que ficam de fora de novo, já que mulheres brancas estão mais inseridas que as negras no meio literário. Precisamos de um espaço nosso”, diz Kênia Freitas, doutora em Comunicação e Cultura da UFRJ, e uma das colaboradoras do projeto.

Além do portal, o Escritoras Negras da Bahia traz um e-book em português e em inglês com artigos acadêmicos sobre negritude e escrita, perfis de autoras negras e uma lista de intervenções artísticas na Bahia.

Calila também promove, até o dia 20 de julho, um ciclo de oficinas e palestras gratuitas voltadas a mulheres de comunidades afro-indígenas com temas ligados a literatura, cinema e tecnologia.

Para Kênia Freitas, esse contato representa o momento mais importante do projeto, com o qual será possível de fato ouvir as autoras: “Não queremos chegar com um discurso acadêmico pronto, mas construir junto com elas.”

A ideia é propor uma troca: levar algo às mulheres dessas comunidades, mas também trazer vivências, práticas e ideias de volta para a academia. As oficinas acontecem no extremo Sul da Bahia, nas cidades de Alcobaça, Caravelas e Prado.

“As trocas são indispensáveis para o projeto ganhar força. Estamos criando uma vanguarda que não se enquadra nos velhos moldes burgueses, por estar sendo feita pela comunidade negra e principalmente pelas mulheres”, afirma Raquel Galvão, doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ.

A ideia é, mais tarde, estender o mapeamento para outros estados do país, com parcerias locais. Isso porque o objetivo do projeto vai além da literatura, segundo Calila, e busca “empoderar” as autoras para que elas mesmas compreendam que são capazes de ingressar de maneira profissional no meio literário.

“Ao reconhecer a invisibilidade das mulheres negras, tanto em legitimidade no campo literário quanto na representação em obras, nota-se que a lacuna segue diretamente proporcional em relação ao que a sociedade já oferece a nós”, define.

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