Kafka e a primeira dor

Edição do mês
Kafka e a primeira dor
Trapezistas em circo na Bélgica em 1951 (Nationaal Archief/Belgium)
  Em A construção, uma das últimas obras de Kafka, escrita já muito perto de sua morte, o problema com que se defronta um animal escavador é que a entrada por onde ele se introduz na construção, a entrada que é o seu começo, é também o buraco por onde entra o inimigo: a salvação é também a perdição. Esse não é o único problema, pois a construção, por mais profunda que seja, necessariamente confina, em toda sua extensão, com o espaço exterior, havendo sempre uma possibilidade de acesso para o outro que traz a destruição. A possibilidade de isolamento total é absolutamente negada; em última instância, porque a construção desse animal pode estar dentro da construção de um outro, e o colocar-se fora de perigo não passa do entregar-se como uma presa fácil. A vigilância, o dividir-se pela movimentação incessante em muitos, um estar simultaneamente em múltiplos lugares, que rouba a própria vida do animal, passa a ser o modo pelo qual ele tenta corrigir um erro da natureza. Mas o próprio pertencimento de dentro e fora faz com que esse animal, de tempos em tempos, queira sair da construção. Fora, no entanto, ele depara, em determinado momento, com a possibilidade de uma vigília total: pensa a possibilidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo: dentro da construção dormindo tranquilamente e fora da construção acordado vigiando o seu sono. Então, esse desdobramento passa a ser uma razão para não voltar para dentro. A insegurança do fora que exige um dentro passa a ser o lugar da máxima segurança. Ele quer ter tudo: o for

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