Acadêmicos criam escola de governo gratuita para jovens das periferias

Acadêmicos criam escola de governo gratuita para jovens das periferias
O castelinho da rua Apa, em SP, que a partir de março recebe a Escola Comum (Diogo Moreira/Divulgação)

 

Restaurado nos últimos anos pela ONG Clube de Mães do Brasil após um longo período de abandono, o Castelinho da rua Apa, na região central de São Paulo, recebe a partir de março uma escola de governo que tem como objetivo formar jovens com potencial de liderança política vindos das periferias da cidade.

Ao contrário de outras escolas do gênero – cujas mensalidades podem chegar a 500 reais -, a Escola Comum é gratuita, oferece vale transporte e almoço. Entre os professores confirmados, todos voluntários, estão Ruy Braga, Marcia Tiburi, Leonardo Sakamoto e Djamila Ribeiro.

Durante o curso, com duração de um ano, 30 jovens entre 16 e 19 anos têm aulas semanais teóricas e práticas sobre temas como economia, política, relações internacionais, direitos humanos e redes sociais.

O currículo, mais voltado para a prática e para o contexto dos alunos, é diferente de outras escolas de governo brasileiras, que começaram a surgir após a redemocratização do país, em 1988, com o objetivo de capacitar servidores públicos ou políticos carreiristas.

“Queremos formar alunos capazes de solucionar problemas cotidianos de seus bairros. No final, eles serão olhos e mãos locais com uma mentalidade global”, afirma o sociólogo Túlio Custódio, um dos criadores do projeto junto de Rosana Pinheiro-Machado, Esther Solano, Wil Schmaltz, Ana Paula Vargas, Elaine Lizeo e Fábio Bezerill.

O objetivo é buscar lideranças capazes de oxigenar a “envelhecida política brasileira”, diz Pinheiro-Machado, antropóloga e cientista social. “Nossas lideranças políticas, em geral, são medíocres na busca de soluções, burocratas com opiniões viciadas. O que nós queremos é criar uma boa base de conhecimento para que os alunos consigam procurar um caminho político de forma crítica e independente”.

A inspiração vem de iniciativas de formação de lideranças políticas internacionais, como a sul-africana Open Air e as escolas de governo das universidades de Harvard e Oxford. Embora existam outras escolas com propostas semelhantes no Brasil, a Comum é a primeira completamente gratuita e voltada para jovens da periferia.

“Não se trata de considerar esses sujeitos como páginas em branco, prontos para receber nossos ensinamentos. Sabemos que o potencial intelectual e crítico desses jovens cidadãos existe e é forte, mas ele é frequentemente ignorado ou minimizado pela sociedade. Queremos mudar isso”, explica Pinheiro-Machado.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 75% da população mais pobre do Brasil é composta por negros e pardos, mas são poucos os parlamentares não-brancos no poder – no Estado de São Paulo, por exemplo, entre os 94 deputados da Assembleia Legislativa, apenas quatro são negros.

Wil Schmaltz, advogado e um dos fundadores da escola, afirma que números assim dão uma boa ideia do problema da falta de representação política no país, apesar de “a relação entre raça e classe nem sempre se mostrar tão direta”.

“Basta comparar uma foto da composição do Tribunal de Justiça de São Paulo e a de uma cela de prisão, por exemplo. São dois retratos dessa desigualdade, que apontam que só homens brancos podem participar das decisões”, afirma.

Afastados das esferas de poder, esses jovens podem acreditar que a política não os pertence, o que coloca em risco a própria noção de democracia, afirma Schlmatz. É aí que podem ganhar força valores como o conservadorismo e a negação da própria política.

“Muitas vezes eles simplesmente não conseguem se conectar com o que está sendo feito nas esferas de poder, que parecem tão distantes deles, e acabam abrindo mão da participação política”, diz o advogado.

Durante o processo seletivo, a Escola buscou selecionar “jovens interessados no fazer político”, não necessariamente ligados a partidos ou ideologias. A ideia é estimular as bases para um pensamento crítico, sempre partindo do repertório e da vivência dos próprios alunos.

“Temos uma noção de desenvolvimento no sentido amplo da palavra, que vem de baixo para cima. Estaremos sempre buscando ouvir o que esses jovens sugerem e trazem. Trata-se de uma troca, e não de simples ensinamentos”, afirma Schmaltz. Já nas palavras de Túlio Custódio,”os protagonistas são eles, nós somos apenas os coadjuvantes”.

(16) Comentários

  1. Bravo! Todo o meu apoio. Tenho interesse em contribuir com voluntariado. Moro à duas quadras e sou aposentada. Grata mais uma vez pelo trabalho em pró de um futuro melhor.

  2. O Capital revela a violência oculta que deu início ao capitalismo, bem como as verdadeiras fontes da riqueza: o trabalho vivo, a cooperação, conhecimentos e habilidades de uma sociedade desenvolvidos através das gerações…, se a moçada transformar isso em prática…, beleza pura.

  3. Quebrando paradigmas, rompendo barreiras, exercendo antes da cidadania, a humanidade e o respeito! Bela atitude!

  4. Coloco-me à disposição da Escola para palestras sobre Abolicionismo, Legislação Antirracismo, Legislativo e temas de Direitos Humanos.
    [ ] Celso Fontana – autor de “Os Negros na Assembleia dos Brancos”, analista legislativo, integrante da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP durante os anos 80/90

  5. Parabens ao grupo pela iniciativa. Vou encaminhar para o Reitor da UFC.
    Voces nao poderiam fazer um contato com a Andifes? Seria tao maravilhoso que essa iniciativa se propagasse!

  6. Parabéns aos idealizadores e agentes de mudança pela valoroza iniciativa. Pena que não haja interesse na classe dominante que comanda a velha política em que iniciativas como essa sejam reproduzidas: não há interesse em se criar cidadãos pensantes e agentes de transformação da sociedade, pois isso atrapalharia a manutenção do atual status quo!

  7. Prezados (as)
    Parabéns pela maravilhosa inciativa.
    Desejo sucesso à todos.
    Que contagie outros acadêmicos. Essa é a verdadeira contrapartida de quem tem tanto conhecimento a partilhar.
    Abraços

  8. Que notícia boa. Esse espaço não poderia ser melhor utilizado. Só sinto não ser um desses jovens privilegiados. Bem que as aulas poderiam ser gravadas e disponibilizadas para que professores de outras escolas e até, cidades, como é o meu caso, pudesse estender para seus alunos e comunidades . Fica a dica e pedido.

  9. Experiência semelhante foi a de formação política de jovens integrantes do MST . Seria bom criar espaços de interlocução entre esses grupos, ampliando suas redes de conhecimentos e de relações.

  10. Ótima iniciativa! Parabéns a todos os envolvidos neste belo projeto! Muito sucesso pra essa nova perspectiva política

  11. Olá, gostaria de parabenizar pela iniciativa incrível. Como não tenho idade para participar desse projeto, gostaria de saber se seria possível assistir aos encontros como ouvinte. Obrigado e mais uma vez parabéns!

  12. Ótima iniciativa. Vamos ver se com essa ótima idéia seja possível, para as próximas gerações, uma nova leva de políticos mais éticos e assertivos e com compromisso majoritário com o coletivo.

  13. Fiquei muito emocionada em saber deste projeto!
    Sou estudante do 5° período de Ciências Sociais na UFSC e o direcionamento para o meu trabalho de conclusão vem de encontro ao projeto de vocês, pois a ideia de um projeto similar floresceu em mim há meses atrás e hoje tomei conhecimento do projeto de vocês. Fiquei bastante animada e pretendo conhecê-los em breve.
    De qualquer modo, quero parabenizá-los pela excelente iniciativa! Acredito que a única saída para auxiliar a transformar nosso país e deixá-lo mais diverso e inclusivo, é pela educação. E quando a educação é direcionada para o despertar da conscientização do potencial de liderança de cada jovem, é magnífico.
    Desde já me coloco à disposição para colaborar e aprender.
    Na próxima vez que for à São Paulo, farei contato.
    Parabéns e excelente sucesso a todos!

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