Duas meninas, dois professores: interditos

Duas meninas, dois professores: interditos
Clarice Lispector, Rio de Janeiro, 1969 (Acervo IMS)
  Sofia “Os desastres de Sofia” é um dos contos mais intensos de Clarice Lispector. Insere-se, originalmente, em A legião estrangeira (1964). Em tom autobiográfico, a narradora reporta-se à singular experiência que tivera, aos nove anos, em sala de aula com seu professor. A estrutura ficcional inconfundível, constituída de uma sintaxe densa que registra certa turbulência interior atada a um fluxo de pensamento capaz de reverberar imagens contundentes, por vezes indigestas, abismais – não menos dotadas de sublimação –, confia materialidade à aventura errante dessa ex-aluna que recapitula seu mau comportamento em classe. Cáustica e implacável é a tarefa de Sofia, que expõe insistentemente aos colegas a fragilidade daquele senhor “gordo, grande e silencioso, de ombros contraídos” e com “paletozinho apertado”. As manhãs do mestre e da discípula plasmam-se desta forma: do fundo da sala, sentada na última carteira que lhe fora designada, ela fala alto e encara-o com desafio, inibe-o até ele perder o foco e gaguejar. Mas o faz movida por um impulso binário de raiva e amor, na confusa esperança de despertá-lo para a vida diante da qual – intui a pequena Sofia – esse sujeito que “passara pesadamente a ensinar no curso primário” se acovardou. O conto toma de empréstimo o título de uma novela escrita pela Condessa de Ségur (Les malheurs de Sophie ), obra, aliás, que muitos leitores adolescentes da geração de Clarice percorreram. Sucede que os desastres impostos à personagem clariciana ultrapassam as reinações

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