Clarice Lispector, ou a emergência

Clarice Lispector, ou a emergência
Os afetos do corpo e os eventos do mundo não raro conduzem os protagonistas e as vozes narrativas por caminhos aporéticos (Foto: Reprodução)

 

 

Esta história acontece em estado de emergência
e de calamidade pública. Trata-se de livro inacabado
porque lhe falta resposta. Resposta esta que espero
que alguém no mundo ma dê. Vós?

Clarice Lispector, A hora da estrela, 1977

 

Como em outras passagens emblemáticas da obra da autora, nas palavras da “Dedicatória do autor (na verdade Clarice Lispector)”, que abrem a narrativa de A hora da estrela, encontramos o que pode ser uma cifra do seu projeto estético. Com efeito, nessas poucas linhas lemos a tensão irresoluta entre a escritura e o silêncio, o narrar como um trabalho radical de suspensão da história, o endereçamento ao outro e, sobretudo, no caso, a proposição da afinidade da sua literatura com um estado de emergência.

O que surge então com este termo – emergência – se espraia, a meu ver, em seus textos, assim como em diversos depoimentos, recebendo, é claro, distintas formulações. Mas o que se destaca, afinal, é um sentido que não se confunde facilmente com a “urgência”, com o “alarme”, com o “caso de necessidade” etc. Ao contrário desses significados correntes – que, aliás, podem comodamente servir à lógica do noticioso, às pautas do polêmico, ao mercado do escândalo –, em Clarice Lispector a emergência designa o que da realidade emerge fora de nosso controle, ou seja, cada singular contingência que interrompe o controle contínuo e intencional da razão, ou em outras palavras, o que irrompe do fluxo no qual submergem os fenômenos.

Nesse sentido, embora muitas vezes seja considerada “intimista” e exemplar da técnica do fluxo de consciência, eu diria que a literatura de Clarice Lispector pode ser lida a contrapelo: como o rigoroso e pungente desdobrar de uma extimidade entranhada, ao mesmo tempo desconhecida e originária, sendo dessa maneira absolutamente comum, isto é, compartilhada por todos nós. Lemos em Um sopro de vida (pulsações), livro publicado postumamente: “Na verdade o pré-pensar é o que nos guia, pois está intimamente ligado à minha muda inconsciência. O pré-pensar não é racional. É quase virgem”.

Não nos deve surpreender, portanto, o fato de que se recuarmos dos últimos textos para as memórias dos gestos iniciais da escritora encontraremos já em seus primeiros exercícios modulações dessa emergência. Em mais de uma oportunidade lemos um relato de sua infância, quando ainda em Recife ela tenta publicar, sem sucesso, contos na página do Diário de Pernambuco que era reservada para jovens leitores. “Eu cansava de mandar meus contos, mas nunca publicavam, e eu sabia por quê. Porque os outros diziam assim: ‘Era uma vez, e isso e aquilo…’. E os meus eram sensações” (em Clarice, uma biografia, de Benjamin Moser).

Claro, o “era uma vez” tende a apaziguar o acontecimento num passado já encerrado, dócil, “eterno”; tende, também, a rumar protocolarmente para um “fim”, um “para sempre” do mesmo modo acomodado e como que previsto, enquanto meta, por sua lógica narrativa. As sensações – valeria dizer, toda emergência estética –, por outro lado, caracterizam-se notadamente por seu aspecto disruptivo, diante do qual nossos juízos e garantias se abismam. Como afirma o narrador de A hora da estrela, Rodrigo S. M., “experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e ‘gran finale’ seguido de silêncio e de chuva caindo”. Ou seja, talvez não haja nada mais distante da literatura de Clarice Lispector do que as leituras lineares e progressivas da história; leituras que – nas palavras de Walter Benjamin – acumulam e desfiam “entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário”.

Tudo se passa como se Clarice Lispector mantivesse a relação entre o sensível e o sensato por meio do que é, a rigor, uma não relação. Ao menos não se trata de uma relação dada de antemão e na qual a palavra seria a fiadora da continuidade do sentido: “à procura da própria coisa”, “da quarta dimensão”, do “instante já”, enfim, a linguagem é sempre indissociável do mais duro silêncio (como já destacaram Berta Waldman, Maria Lucia Homem e outras vozes críticas). Os afetos do corpo e os eventos do mundo não raro conduzem os protagonistas e as vozes narrativas por caminhos aporéticos, carregados de um sentido não sabemos se excessivo ou ausente; caminhos que aparecem em linhas de força intempestiva.

Em “Desenhando um menino”, texto recolhido em Fundos de Gaveta, segunda parte de A legião estrangeira, de 1964 (o conto seria republicado em 1969, no Jornal do Brasil, com o título “Menino a bico-de-pena”), nos deparamos com as palavras iniciais, significativamente marcadas pelo não saber: “Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio. Quanto a mim, olho, e é inútil: não consigo entender coisa apenas atual, totalmente atual”. Isso é o que leremos, em outros termos, em Água viva: “A palavra apenas se refere a uma coisa e esta é sempre inalcançável por mim. […] Procuramos desesperadamente encontrar uma identidade própria e a identidade do real. […] mas a realidade não tem sinônimos”.

Água viva foi publicado em 1973; mas em julho de 1971 já contava com uma versão cujo título é significativo para o que tento apontar aqui: Atrás do pensamento. Em seu formato final, a narrativa se mantém na tensão constante entre diferentes linguagens (música, pintura e literatura) e se aproxima daquilo que Benjamin chamou de a construção da história como “um tempo saturado de ‘agoras’”. “Tente entender o que pinto e o que escrevo agora. Vou explicar: na pintura como na escritura procuro ver estritamente no momento em que vejo – e não ver através da memória de ter visto num instante passado. O instante é este. O instante é de uma iminência que me tira o fôlego. O instante é em si mesmo iminente. Ao mesmo tempo que eu o vivo, lanço-me na sua passagem para outro instante”.

Na verdade, a epígrafe de Michel Seuphor escolhida pela escritora já anuncia, como uma espécie de signo que rege a narrativa, a suspensão em questão: “Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura – o objeto – que, como a música, não ilustra coisa alguma, não conta uma história e não lança um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência”. De fato, a estética de Clarice Lispector (pois poderíamos considerar dessa forma também as suas pinturas) parece avessa ao programa da história universal e suas legitimações. Vemos que seu procedimento é outro: busca a emergência do “pré-pensar”; a iminência que assoma atrás do pensamento sem ter sido pela razão domesticada.

 

***

 

No prólogo ao seu livro Emergenza (2016), ainda sem tradução para o português, Maurizio Ferraris especula: “o que é uma emergência se não um evento que acontece revelando a possibilidade do impossível? E o que é mais emergente do que o real, que quebra os jogos do possível e se apresenta com clareza imprevista, com ameaças e com recursos inimagináveis?” Essas linhas ancoram a posição realista assumida pelo filósofo. Lemos na sequência: “A consciência, o saber, os valores e os filósofos transcendentais são fragmentos de realidade, assim como a eletricidade, a fotossíntese e a digestão, e emergem da realidade assim como os cogumelos crescem. O mundo inteiro, ou seja, a totalidade dos indivíduos, é o resultado de uma emergência que não depende do pensamento ou de esquemas conceituais, embora estes possam, obviamente, conhecê-lo”.

Do Big Bang ao Big Data, quer dizer, como acúmulo ou registro dos acasos e das necessidades que se chocam e se estendem num espaço-tempo extremamente dilatado, o que o mundo nos dá emerge independentemente dos arrogos da razão esclarecida e seus esquemas de inteligibilidade. É somente a partir das múltiplas interações do que existe (a ontologia) que surgirão – talvez mais tarde, talvez nunca – o saber (a epistemologia) e o que fazemos como “agentes livres ou presumíveis agentes livres” (a política).

Dessa maneira, pode ser que o gesto mais radical da literatura seja mesmo aquele que persegue até o limite e afinal confina com essa emergência, a qual, quem sabe, posteriormente, poderá franquear um saber e uma ação. “Sem enfrentar o real, você não pode transformar o mundo: você simplesmente acredita que está transformando o mundo. O real é a resistência, e por isso mesmo é a maior forma de revolução”, escreve Maurizio Ferraris.

Tal é, a meu ver, o realismo presente na estética de Clarice Lispector. Como em “Mineirinho”, “Literatura e justiça” (ambos de A legião estrangeira) e outros textos publicados originalmente no Jornal do Brasil, em A hora da estrela ele não se refere apenas a essa abertura acentuada para as questões sociais, como se num gesto de condescendência da autora, que teria por um momento se afastado das preocupações mais “intimistas”, “sentimentais” ou “existenciais” que marcariam, em geral, sua obra.

Não se ajusta a esse “engajamento” mais imediato ou pragmático o realismo em questão: aponta, sim, de maneira aguda que “a vida é um soco no estômago” – como nos diz Rodrigo S. M. –, ou seja, que em sua emergência sempre singular ela escapa aos nossos marcos conceituais e ao a priori do andamento causal e evolutivo da história. Que venhamos a saber e a fazer algo de revolucionário a partir disso – eis o que significa levar às últimas consequências o trabalho exigente da leitura, antes que o mundo se deteriore irremediavelmente, e só então esteja ao nosso alcance, como cúmulo dos despojos produzidos em nome da civilização.

 

Artur de Vargas Giorgi é professor de Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)


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