‘Situação sociopolítica influencia a vida dos indivíduos’, afirma psicoterapeuta

‘Situação sociopolítica influencia a vida dos indivíduos’, afirma psicoterapeuta
O professor e psicoterapeuta Rubens Kignel (Reprodução/YouTube)

 

Em um momento como o atual, em que o caos domina a esfera política e a polarização dificulta o diálogo saudável, não é surpreendente que um sentimento de angústia tome conta da população. Em busca de compreender este contexto, um grupo de psicoterapeutas de diferentes países se reunirá no evento Caos e Rigidez, que acontece entre 27 e 29 de abril, em São Paulo. Ao todo, 12 profissionais ligados à saúde mental e à filosofia corporal conversarão sobre rumos e saídas possíveis para o que parece ser um momento de obscuridade total.

“No Brasil, temos enfrentado uma situação sociopolítica muito complicada, que acaba influenciando a vida dos indivíduos, da família e até da comunidade como um todo”, diz o professor Rubens Kignel, psicoterapeuta e idealizador do evento. “Essa situação foge da esfera econômica e ataca o emocional. Sem exceção, todos somos afetados por esta instabilidade, mas não sabemos sequer conversar sobre isso. O Caos e Rigidez é um começo”.

Para isso, conferencistas da Itália, da França, da Holanda e do Brasil se encontrarão na Unip Paraíso, na região central de São Paulo, para conversar sobre suas angústias e colocar em pauta seus pensamentos em relação ao que acontece no mundo e ao futuro. Entre palestras, conversas e workshops, profissionais de diferentes áreas tentarão “trazer perspectivas diversas para a conversa”. Entre eles, por exemplo, estão o psiquiatra e transgênero Gabriel Graça de Oliveira, o neurologista Ivan Izquierdo (especialista em memória), e a psicoterapeuta Marisa Correa da Silva, focada em racismo e vivências negras.

“O evento será voltado principalmente para os direitos humanos. Trataremos de questões sobre diversidade sexual, preconceito étnico e violência religiosa”, diz Kignel. Na abertura do evento, a professora Flavia Piovesan, membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, falará justamente do impacto da instabilidade atual sobre as chamadas minorias políticas.

A ideia da conferência surgiu em conversas de Kignel com amigos do exterior, durante as quais o psicoterapeuta compreendeu que, mesmo fora do Brasil, existe um caos político e social que afeta emocionalmente as pessoas. “Eu e alguns colegas ficávamos horas discutindo as mesmas questões: inseguranças frente ao mundo turbulento, angústia gerada pelas incertezas políticas, medo do futuro nebuloso. Então, pensamos em juntar todo mundo que propunha essa conversa para debater com o público”, conta o psicoterapeuta, para quem o evento deve ser servir não só aos profissionais da saúde mental, mas principalmente ao público geral. “Afinal, são eles que, em geral, não têm contato com o inconsciente, o irracional, a psiquê”, explica.

Também por isso, o corpo será um assunto debatido no evento: além dos psicoterapeutas e psiquiatras, participarão do Caos e Rigidez alguns filósofos do corpo, dedicados ao estudo sobre as conexões entre o emocional e o corporal, como o professor Menno de Lange, da Holanda. “As pessoas não têm tempo de perceber o próprio corpo. Consequência disso é o nível altíssimo de obesidade e doenças como a anorexia, ou mesmo o número assustadoramente alto de alterações plásticas”, exemplifica Kignel. “Entrar no mundo do sensível, ouvir o corpo, e sair um pouco do racional, do consciente, pode ser uma saída”.

Nesse sentido, o nome do evento, Caos e Rigidez, é simbólico. Segundo Kignel, frente às pressões do dia a dia, as pessoas podem se defender de duas maneiras: “Ou de forma rígida, dura; ou de modo caótico, ou seja, sem tomar posição nenhuma, sem se vincular a nada. São duas posições polares, mas ambas impedem uma possibilidade de diálogo, e isso atrasa a busca por uma solução”.

Para Kignel, o evento Caos e Rigidez é importante justamente por propor um “olhar para si” que a maior parte das pessoas vê como um “luxo dispensável”: “São poucas as pessoas que têm acesso ao próprio emocional, e menos ainda fazem algum tipo de terapia. Várias não fazem questão de mudar nada, com medo de piorar as coisas, e outras sequer têm tempo de pensar nisso. No Caos e Rigidez, a ideia é propor um olhar para dentro”, resume.

Caos e rigidez – o que estamos fazendo pelo nosso futuro?
De 27 a 29 de abril na Universidade Paulista (Unip) Paraíso – Rua Vergueiro, 1211 – Paraíso, São Paulo (SP). Inscrições pelo site do evento.

(1) Comentário

  1. Apreensão sensível de uma torção tecnopolitica que poderá submeter a vida humana nos próximos tempos. Importante iniciativa essa conversa aberta por Rubens Kignel.

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