Angela Davis: radical e libertária

Angela Davis: radical e libertária
A ativista e filósofa Angela Davis (Foto: Cortesia de Angela Davis)

 

Um ataque terrorista marcou de forma dramática a história da cidade de Birmingham, no sul dos Estados Unidos. Em 15 de setembro de 1963, a Igreja Batista da 16th Street, um ponto de encontro de militantes pró-direitos civis, foi bombardeada por uma conhecida organização supremacista branca, a Ku Klux Klan. Addie Mae Collins, Cynthia Wesley, Carole Robertson e Carol Denise McNair, com idades entre 11 e 14 anos, foram mortas e outras 22 pessoas ficaram feridas. O caso foi considerado um dos crimes mais chocantes da história estadunidense.

Foi nessa cidade que nasceu, em 26 de janeiro de 1944, a filósofa Angela Yvonne Davis. Época em que a segregação racial institucionalizada vigorava a partir de um conjunto de leis conhecidas como Jim Crow, que restringiu os direitos da população negra no sul do país entre 1876 a 1965. Birmingham, em especial, era considerada a cidade mais segregada dos Estados Unidos. Mais do que um fato isolado, o atentado à igreja revelou o clima que reinava no lugar. As quatro meninas mortas eram amigas da irmã mais nova de Angela, Fania Davis. Angela é a mais velha de quatro irmãos de uma família de classe média negra. Sua mãe, Sallye Davis, participou de organizações do movimento pelos direitos civis e era uma ativista na comunidade negra local. A trajetória de Sallye não foi uma exceção; o movimento pelos direitos civis esteve organizado a nível comunitário por mulheres negras, ainda que as figuras proeminentes tenham sido masculinas. Fannie Lou Hamer, Ella Baker, Diane Nash, Amelia Boynton, Rosa Parks, Septima Clark, por exemplo, foram mulheres fundamentais para a organização e construção do movimento, ainda que pouco citadas nas narrativas mais usuais sobre o período.

Em 1959, aos 15 anos, Angela ganhou uma bolsa de estudos e mudou-se para Nova York com a intenção de cursar o Ensino Médio na Elisabeth Irwin High School, uma escola muito peculiar que abrigava professores de esquerda marginalizados no sistema público de ensino americano por suas ideologias políticas. Em 1961, iniciou a graduação em Literatura Francesa na Universidade Brandeis, em Massachusetts. Durante o primeiro ano na universidade, recebeu uma nova bolsa de estudos que possibilitou seu intercâmbio por um ano na Sorbonne.

O seu interesse pela filosofia apareceu nessa época. Angela teve a oportunidade de conhecer o professor alemão Herbert Marcuse que a orientou nos estudos paralelamente à sua graduação. Ele se tornaria uma referência importante para ela e para muitos militantes da New Left americana. Em 1965, terminou a sua graduação obtendo a qualificação magna cum laude no exame profissional – o equivalente a um prêmio de distinção por excelência no desempenho acadêmico. Por meio de outra bolsa, dessa vez outorgada pelo governo da Alemanha Ocidental, pôde continuar os estudos em filosofia na Universidade de Frankfurt, onde foi aluna de Theodor Adorno e Jürgen Habermas. Regressou aos Estados Unidos em 1967, dessa vez para San Diego, na Califórnia, onde terminaria a sua pós-graduação sob a orientação de Marcuse.

As motivações que a trouxeram de volta aos Estados Unidos não foram acadêmicas, mas políticas. Angela já tinha alguma proximidade com a militância política em sua infância, por conta de sua mãe e de toda a movimentação comunitária em torno da questão dos direitos civis. A experiência de engajamento continua durante a adolescência, em Nova York, quando se aproxima de uma organização juvenil ligada ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Mais tarde, no período em que esteve na França, conviveu com estudantes argelinos e conheceu a luta de libertação contra o colonialismo francês. Na Alemanha, participou das movimentações estudantis contra a Guerra do Vietnã. Porém, ainda não estava integrada a nenhum partido, movimento ou organização. Sua atuação política aprofundou-se no contexto de seu retorno.

Quando retornou, encontrou nos Estados Unidos uma conjuntura política muito singular. Em 23 de julho de 1967, ocorreu em Detroit a maior rebelião urbana do país no século 20. O estopim foi a violência racista da polícia contra membros da comunidade negra – um padrão de comportamento recorrente por parte dessa categoria. Não só essa, mas outras revoltas negras aconteceram em Watts, Newark, Harlem, Chicago. Curiosamente, nenhum desses lugares estavam no sul do país, onde a segregação era legalizada. Todas essas revoltas foram alimentadas pelo racismo estrutural e forte insatisfação popular. Para a população negra, a igualdade social, jurídica e política assegurada no plano legal não garantiu o fim do racismo, da desigualdade, da marginalização. Além disso, descortinava-se a situação do norte e outras regiões do país, onde ainda não havia segregação racial institucionalizada.

Para se ter uma ideia do ambiente de tensão da época, basta recordar que entre os anos de 1963 a 1968, contabiliza-se, aproximadamente, mais de trezentas revoltas. Simultaneamente, havia também uma forte organização política dentro das comunidades negras, em alguns casos originárias do movimento pelos direitos civis e outras que surgiam naquele momento. A partir de 1966, sobressaiam distintas orientações políticas no movimento; havia uma percepção compartilhada acerca da necessidade de um programa político negro autônomo, no entanto, existiam divergências ideológicas sobre a definição das prioridades, dos objetivos e das estratégias das novas organizações. As orientações giravam, resumidamente, em torno de ideais como nacionalismo, separatismo, retorno à África e socialismo.

Panteras Negras

Panteras Negras e Angela Davis são associados automaticamente por muitas pessoas. Contudo, é necessário desvendar melhor essa relação. Inicialmente, ela esteve no Comitê Estudantil de Coordenação Não Violenta (em inglês, Student Nonviolent Coordinating Committee – SNCC), de Los Angeles, organização estudantil nacional fundada em 1960 que lutava pelo fim da segregação racial no sul do país e advogava a favor da resistência pacífica. O SNCC foi muito importante para o movimento pelos direitos civis e ficou conhecido por organizar as famosas jornadas da liberdade (Freedom Rides) em 1961. Porém, em 1966, rompeu com a mencionada estratégia, passando do discurso integracionista para adotar uma vertente mais nacionalista negra. O SNCC de Los Angeles durou pouco, havia problemas internos e a questão de gênero era um deles. As militantes opunham-se ao sexismo das lideranças masculinas, que designavam a elas atividades de escritório e assuntos internos, enquanto eles discursavam e apareciam para o público.

Em 1968, Angela Davis entra simultaneamente no Partido dos Panteras Negras e no Partido Comunista. Em suas palavras, a relação com os Panteras oscilava, como consta em A taste of power (1993), de Elaine Brown: “Meu status era permanentemente ambíguo no Partido dos Panteras Negras, alternou entre ‘filiada’ e ‘companheira de luta’. Eu estava em ação quando se tratava da organização da comunidade – por um tempo dirigi o programa de educação política da sede no West Side (localidade de Los Angeles) –, porém estava sempre à margem das disputas internas do Partido”. Saiu em 1969 por decorrência de desacordos ideológicos.

Angela Davis, 2006 (Foto: Cortesia de Angela Davis)
Angela Davis em 2006 (Foto: Divulgação)

Em suas narrativas da época, Angela menciona o sexismo presente em muitas organizações negras. Ela, em especial, sofreu constantemente por não exercer as funções ditas femininas. Alguns grupos, como os Panteras, defendiam retoricamente a igualdade de gênero, ainda que a prática pouco conciliasse com esse discurso, enquanto outras nem sequer consideravam ou pensavam no tema, como a Organization US, de Maulana Karenga, por exemplo. Existia por parte de muitos militantes uma visão distorcida sobre as mulheres e o seu papel na luta política. Em alguns casos, a luta pelo poder negro (black power) era confundida com o poder para o homem negro e não para a comunidade. A orientação política patriarcal atravessou quase todos os movimentos políticos da época. Uma frase conhecida do período e constantemente dita pelos militantes brancos do movimento antiguerra elucida o problema: girls say yes to boys who say no (“garotas dizem sim para os caras que dizem não [à Guerra do Vietnã]”).

Apesar das proximidades e passagens por esses grupos, Angela elegeu o Partido Comunista, organizando-se no Coletivo Che-Lumumba, formado por militantes negros do Partido Comunista em Los Angeles. A sua relação com o partido sempre foi vista com desconfiança por alguns setores do movimento negro, que consideravam o marxismo incapaz de combater o racismo, além de ser uma ideologia europeia. Para Angela, contudo, o racismo estava dentro das estruturas do capitalismo estadunidense; ela considerava que, para derrubar o racismo, o capitalismo e o imperialismo, eram necessárias alianças entre classes e comunidades oprimidas. Davis acreditava que o discurso nacionalista negro considerava a raça separada das classes e das relações de produção, por isso, na avaliação da filósofa, não seria suficiente. O Partido Comunista dos Estados Unidos teve um papel importante nas décadas anteriores na luta contra a segregação racial, no entanto, na década de 1960, encontrava-se fragilizado, entre outros motivos, pela perseguição política violenta que sofrera na década de 1950. Angela manteve-se no Partido até 1991, chegou inclusive a ser candidata à vice-presidência dos Estados Unidos nos anos de 1980 e 1984. Passou a militar nas organizações The Committees of Correspondence for Democracy and Socialism, em 1991, e no Critical Resistance, em 1997.

Perseguição e paranoia

Ameaças de morte, cartas raivosas, ligações intimidadoras. Foi assim que Angela foi recebida como professora assistente de Filosofia na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Foi necessário andar armada para se defender. Embora possa soar estranho no contexto brasileiro, o porte de armas é um direito assegurado por meio da Segunda Emenda da Constituição nos Estados Unidos. Ela travara uma batalha legal para lecionar na instituição. Ronald Reagan, governador da Califórnia à época, tentou expulsá-la da UCLA, alegando que Angela era comunista e, portanto, não poderia ensinar na universidade. Ele se baseava em uma regulação de 1949 que proibia a contratação de professores comunistas naquela universidade. O processo teve uma grande repercussão e protestos em sua defesa ocorreram dentro e fora da universidade. A sua imagem foi projetada para além do circuito da militância política, do movimento negro e da intelectualidade de esquerda. Os tribunais declararam que tal ação era inconstitucional, pois feria o direito de liberdade de expressão garantido pela Constituição. Após o incidente, Angela ganhou popularidade no campus. Seu curso “Recurring philosophical themes in black literature” abordava a escravidão e a liberdade a partir da filosofia negra, recorrendo a textos autobiográficos escritos por ex-escravos. Esses temas eram tratados pela primeira vez na universidade. O curso foi disputadíssimo, com turmas sempre superlotadas. Por ter assumido publicamente que era comunista, sua vida passou a estar em risco. O ambiente de perseguição política e a paranoia contra os comunistas vinha desde a década de 1950, com o macarthismo, e não se dissipara totalmente. Somase, ainda, todo o estigma alimentado contra os militantes negros, definidos à época como radicais e violentos.

O ano de 1970 foi importante para a sua trajetória política. Angela começou a dedicar-se mais ativamente à luta contra a repressão política e “ironicamente” tornou-se vítima dessa mesma repressão. Iniciou a sua participação no Comitê de Solidariedade aos Presos Políticos da Penitenciária Estadual de San Quentin, na Califórnia. Lá estava preso George Jackson, acusado de roubo com uma história quase idêntica a de muitos outros jovens negros que receberam penas altíssimas por pequenos delitos. Como também ocorrera com outras militantes negros, George teve o seu amadurecimento político na prisão, tornou-se uma liderança política e intelectual entre os detentos e membros do Partido dos Panteras Negras. Desse contato afetivo e político evidencia-se, para Angela, a continuidade entre duas instituições: a escravidão e a prisão. O encarceramento em massa da população negra é um dos temas centrais em sua produção intelectual. Seu livro Are prisons obsolete?, de 2003, é uma referência sobre o assunto. A autora advoga o abolicionismo penal, não só no sentido da negação e destruição das prisões, bem como no sentido propositivo de construção e criação de novas instituições. O sistema prisional, em sua avaliação, está relacionado ao lugar para onde vão as pessoas vitimadas pelo fracasso em se produzir a democracia para as pessoas negras no período pós-abolição. As cadeias comportam hoje, nos Estados Unidos, em torno de 2,5 milhões de pessoas, o número de afro-americanos presos é desproporcionalmente maior a outros grupos étnicos. Esses debates são, para Angela, também uma maneira de discutir os problemas da democracia estadunidense e o capitalismo contemporâneo. A sua militância política atualmente incide fortemente na luta por um mundo sem prisões.

Da relação com George Jackson desponta também a questão das representações em torno das mulheres negras. A forma como ele retrata a sua mãe – uma matriarca dominadora e castradora – é estendida às mulheres negras em geral. A discussão pode ser examinada a partir da correspondência trocada entre eles, publicado em Soledad brother: the prison letters of George Jackson. Ele responsabilizava a sua mãe, em parte, por suas dificuldades como homem negro. Essas não eram opiniões exclusivas de George, que depois mudou de posição, mas uma percepção recorrente sobre as afro-americanas em geral. O estudo feito para o programa de guerra à pobreza do presidente Lyndon B. Johnson, em 1965, por exemplo, repetiu as mesmas opiniões. A publicação chamava-se The negro family: case for national action e consistia em análises feitas pelo político e sociólogo Daniel P. Moynihan sobre as pesquisa a respeito das famílias negras. A tese do autor era que os problemas e o “comportamento patológico” da comunidade negra não tinham raízes na deterioração econômica, no racismo estrutural, nem tampouco na segregação, mas na “degradação moral“ das famílias chefiadas e sustentadas por mulheres negras. O relatório oficial reafirmava os clichês preconceituosos sobre a família negra.

Angela refuta todos esses argumentos indicando que não houve “colaboracionismo” da escrava com o “seu senhor” que lhe garantisse algum tipo de poder ou benefício. Ela exemplifica citando a separação imposta entre mãe e filho recém-nascido e introduz a discussão do estupro como um ato de contrainsurgência do “proprietário” contra a escrava, uma tentativa de levá-la à condição animalesca, de desumanizá-la, para quebrar a sua resistência e da sua comunidade como um todo. O estupro, nessa análise inovadora proposta pela autora, seria visto como um método terrorista de controle com especificidade de gênero. E ainda ressalta que a contribuição das mulheres negras em resistências, rebeliões e ações cotidianas contra a escravidão foram pouco consideradas. Toda essa discussão serviu posteriormente como base para o seu pioneiro artigo escrito na época da prisão, Reflections on the black woman’s role in the community of slaves, de 1971. O artigo, como aponta a cientista política Joy James, é “uma das primeiras análises do cruzamento do racismo, sexismo e capitalismo dentro da comunidade de escravos e um dos primeiros ensaios sobre a teoria feminista antirracista contextualizada na experiência negra nas Américas”.

Há outros estudos pioneiros feitos por Angela, que abordaram, por exemplo, o blues e seu legado ao feminismo negro. Esse estilo musical foi a primeira expressão artística do pós-abolição, e nele se pode “escutar” as narrativas das mulheres negras pobres que tratavam abertamente da sexualidade – um tema tabu. A liberdade sexual era um dos poucos campos onde havia parcial liberdade, se contrapondo a outras esferas da vida cotidiana privadas da liberdade.

Angela Davis no Festival Latinidades, em Brasília, em 2014 (Foto: Valter Campanato / Agência Brasil)
No Festival Latinidades, em Brasília, em 2014 (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

A mulher mais procurada

Terrorista, assim lhe chamou o então presidente Richard Nixon quando o FBI apanhou Angela, aos 26 anos. O seu nome entrou para a lista dos dez criminosos mais procurados pelo FBI. Foi presa em outubro de 1970, em Nova York, em companhia de seu amigo David Poindexter, depois de dois meses na clandestinidade. O presidente parabenizou publicamente o FBI pela captura. A razão pela qual foi considerada uma ameaça tinha motivações políticas, em um nítido esforço de incriminá-la e conter a sua influência dentro da comunidade negra. É bem conhecido o empenho em criminalizar militantes negros na época. O FBI criou, em 1956, o Programa de Contrainteligência (COINTELPRO), com o objetivo de desestruturar o movimento pelos direitos civis. Posteriormente, o programa foi usado para conter as atividades dos Panteras Negras, em especial, e de outras organizações consideradas subversivas pelo governo estadunidense. A particularidade do programa é que se valia de ações ilegais e clandestinas para alcançar seus objetivos, que eram expor, enganar, provocar desentendimentos, destruir a credibilidade, como também neutralizar organizações e lideranças. Sabe-se, hoje, que o programa esteve envolvido no assassinato de líderes e militantes dos Panteras e de outros grupos e foi responsável pela prisão de pessoas inocentes por motivações políticas – alguns se encontram presos até hoje.

A prisão de Angela Davis esteve vinculada ao rapto, ao assassinato e à conspiração ocorridos no tribunal de San Rafael na Califórnia, comandados por Jonathan Jackson – irmão mais novo de George, de 17 anos –, que utilizou a arma registrada no nome dela para executar uma ação cujo objetivo era libertar seu irmão e os outros presos políticos. Jonathan e outros três homens sequestraram o juiz, o promotor e alguns jurados e os levaram até uma caminhonete que os esperava. Porém, quando todos estavam dentro do carro, um guarda que estava na rua começou a atirar. Como resultado final do tiroteio, Jonathan, o juiz e os dois presos foram mortos e os demais feridos. Angela foi acusada pelas mortes ocorridas porque a arma era sua, mas ela sempre alegou inocência, afirmando que a arma foi pega sem sua autorização. Ficou presa durante um ano e meio, a maior parte do tempo na solitária. Nesse período, produziu muitos artigos e trabalhou em sua própria defesa. Além disso, foram feitas campanhas nacionais e internacionais pela sua libertação, intituladas Free Angela. Recebeu apoio de figuras importantes da comunidade afro-americana, como Coretta King, Roberta Flack, Aretha Franklin, entre outras.

O julgamento ocorreu em junho de 1972 e a inocentou, tendo sido ela própria integrante da equipe de defensoria no julgamento. Durante todo o processo, Angela afirmava a sua inocência contra as acusações plantadas, em suas palavras, pelo Estado da Califórnia, ressaltando que havia um caráter misógino nas acusações, pautadas no argumento de que sua suposta paixão desenfreada por George a teria levado a cometer o crime. George foi assassinado dentro da prisão de San Quentin por guardas, em 21 de agosto de 1971. Ele também foi vítima da repressão orquestrada pelo COINTELPRO.

Angela era uma “mulher livre” quando a sentença final a declarou inocente, em 4 de junho de 1972. A campanha internacional Free Angela foi determinante para a sua libertação, bem como para mitificação da sua figura, que se celebrizou em quase todo o mundo. Para se ter uma ideia da proporção, a banda Rolling Stones e o músico John Lenonn fizeram canções em sua homenagem. Isso ajuda a entender a popularidade que Angela ganhou. O comitê de apoio para a campanha de sua libertação serviu de base para a criação da National Alliance Against Racism and Political Repression (NAARPR), organização que tinha como propósito apoiar os presos políticos criminalizadas pelo racismo.

Professora emérita da Universidade de Santa Cruz na Califórnia, com livros, artigos publicados e traduzidos, Angela permanece envolvida com diversas causas políticas e sociais acreditando em lutas coletivas que podem transformar a realidade social. Participou ativamente do movimento contra o apartheid na África do Sul e hoje está comprometida com o movimento internacional em solidariedade à Palestina. É referência teórica para o feminismo negro, para os estudos sobre complexo carcerário industrial e o para o abolicionismo penal. A sua trajetória intelectual e política sempre esteve unida e vinculada ao que o intelectual palestino Edward Said considerou a tarefa dos intelectuais engajados nos movimentos sociais: “Criar as condições sociais para a produção de utopias realistas.”

Distanciando-a das idealizações e mitificações, Angela continua ativa, otimista, militando, escrevendo, viajando e inspirando. Mais do que uma representação isolada, ela é parte de uma bela tradição de mulheres negras ativistas comprometidas com as transformações radicais e libertárias. Em uma conversa, a jornalista afro-americana Lori S. Robinson a definiu assim: “Ela é uma das nossas melhores mentes. Conecta o acadêmico e intelectual com as raízes.”

RAQUEL BARRETO é historiadora, doutoranda pela UFRRJ e autora da dissertação “Enegrecendo o feminismo ou feminizando a raça: narrativas de libertação em Angela Davis e Lélia Gonzalez”.


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