Arcas de Babel: Adelaide Ivánova traduz Dragica Rajčić Holzner

Arcas de Babel: Adelaide Ivánova traduz Dragica Rajčić Holzner
Adelaide Ivánova e Dragica Rajčić Holzner (Fotos: Jakob Ganslmeier e Florian Bachmann)

 

A poesia leva ao que há de mais singular em cada língua e desafia a experiência da tradução. Entretanto, muitas e muitos poetas traduzem, e às vezes a escrita poética surge junto com um olhar estrangeiro para a própria língua, vem com a consciência de sua singularidade, entre tantas outras. Esse estranhamento intensifica as forças de transformação no interior das línguas, estendendo seus limites, ampliando seus horizontes. E nunca precisamos tanto dos horizontes que a poesia projeta, agora que uma nuvem pesada encobre perspectivas de futuro… Talvez traduzir poesia seja um modo de contribuir para a construção, não de uma torre, mas de uma ponte ou de uma arca utópica que nos ajude a atravessar o dilúvio. Que nela, aos pares, as línguas se encontrem, fecundas.

A série Arcas de Babel acolhe semanalmente traduções de poesia e está aberta também a testemunhos sobre a experiência de traduzir.

Nesta edição, a poeta, jornalista e ativista pernambucana Adelaide Ivánova transcria a poesia da iugoslava Dragica Rajčić Holzner, que vive na Suiça e escreve em alemão. Adelaide traz ainda um belo ensaio que apresenta a autora migrante, refletindo sobre seu uso poético da língua estrangeira.

Adelaide Ivánova edita o zine de poesia radical “Mais nordeste, por favor!”. Em 2018 ganhou o Prêmio Rio de Literatura por seu quinto livro, O martelo, publicado no Brasil, Portugal, EUA, Reino Unido e Alemanha. Em 2020 foi indicada ao prêmio Derek Walcott de poesia. Desde 2011 vive em Berlim, onde ganha seu pão como babá e garçonete.

***

Dragica Rajčić Holzner cresceu na Croácia (então Iugoslávia). A primeira vez que se mudou para a Suíça foi em 1978, onde trabalhou como faxineira, passadeira e cuidadora. Em 1988 ela volta a seu país natal, onde funda um jornal e trabalha como jornalista. Em 1991, durante a guerra civil iugoslava, Rajčić foge para a Suíça com seus filhos. É importante dizer que uma onda significante de imigração da antiga Iugoslávia para a Suíça aconteceu ao longo do século 20, mas se acentuou drasticamente nos anos 1990 e começo dos 2000, em consequência das guerras na região.

Em seu livro Glück, Rajčić Holzner dialoga com essa “tradição” e nos conta a história de Ana Jagoda – ou, ainda, Ana Jagoda conta sua própria história. Depois de uma série de eventos típicos da vida de uma mulher (desde abuso sexual infantil, passando por se apaixonar loucamente e chegando à gravidez indesejada e ao aborto), Ana emigra da vila de Glück, na Croácia, para terminar num abrigo para mulheres em situação de vulnerabilidade em Chicago, nos EUA. É deste abrigo que Ana nos consta da sua vida, da vidas das mulheres nas várias comunidades por onde ela passou e da luta permanente que atravessa essas biografias, ao longo de gerações.

(Glück significa felicidade, sorte, ventura em alemão. Nos três poemas do livro aqui presentes, “traduzi” o nome da cidade croata para Venturosa – uma homenagem à cidade do agreste pernambucano que leva esse nome. Os nomes próprios que aparecem no original, escrito em alemão, são nomes croatas, que adaptei para nomes próprios brasileiros, assim como fenômenos naturais europeus foram traduzidos para a realidade nordestina.)

A linguagem, nos textos de Rajčić, é usada com bastante precisão, de forma afiada e na medida certa. No decorrer da obra, Ana Jagoda encontra um jeito de discernir os ciclos de violência que permeiam as vidas das mulheres da classe trabalhadora mundo afora, usando uma linguagem desarticulada tanto no aspecto formal quanto no aspecto poético. É a própria autora quem chama a língua que na qual ela fala e escreve de “Gastarbeiterdeutsch” (algo como “alemão de trabalhador convidado”), que é uma descrição perfeitamente autoagenciada. A tradução literal de “Gastarbeiter” seria “trabalhador/es convidado/es” (o plural é o mesmo que o singular). Refere-se às pessoas que fizeram parte dos programas de recrutamento de trabalhadores para reconstrução da indústria e reurbanização alemã, principalmente nos anos 1960 e 1970. Este programa foi iniciado através de acordos bilaterais com diversos países, incluindo a antiga Iugoslávia.

O alemão de Rajčić Holzner e de Ana Jagoda parece perfeito, para mim, não porque elas seguem regras gramaticais ou porque as declinações estão corretas, mas simplesmente porque eu consigo entendê-las de forma fluida. Assim, o texto de Rajčić Holzner soa muito natural, muito correto – porque soa como a realidade.

Existe um preconceito inerente no ato de escolher qual língua está correta e qual não está. Alguns chamam isso de “acentismo” (do inglês, accentism), mas eu não gosto do nome porque essa interpretação dos fatos pode ser enganadora: preconceito contra sotaques falam mais sobre a forma como as pessoas se sentem em relação aos seus falantes, do que sobre o sotaque em sim. Muitos desses julgamentos são tendenciosos e revelam sentimentos racistas, ou simples ódio de classe. Um bom exemplo disso é o preconceito demonstrado contra os inúmeros sotaques dos nove estados do nordeste (preconceito esse que pode se manifestar tanto de forma violenta, como em forma de infantilização e ridicularização de seus falantes).

Em Cartas à Guiné-Bissau: registros de uma experiência em Processo, o também pernambucano Paulo Freire termina o livro com a seguinte frase: “De fato, o problema da língua não pode deixar de ser uma das preocupações centrais de uma sociedade que, libertando-se do colonialismo e recusando o neo-colonialismo, se dá ao esforço de sua re-criação. E neste esforço de re-criação da sociedade a reconquista pelo Povo de sua Palavra é um dado fundamental”. Podemos dizer, portanto, que Ana Jagoda faz exatamente isso – mesmo num contexto de abandono, violência de gênero e xenofobia, ela re-conquista sua palavra e, consequentemente, o seu mundo. E nos leva junto com ela.  – Adelaide Ivánova

 

Trecho de “Glück”

È senza fiato, sera, irrespirabile,
Se voi, miei morti, e i pochi vivi che amo,
Non mi venite in mente
Bene a portarmi quando
Per solitudine, capisco, a sera.

A noite fica irrespirável, sem ar,
Quando vocês, meus mortos, e os poucos vivos que amo,
Não me vêm à mente
Trazendo-me a sorte quando,
Por solidão, entendo que é noite.
Giuseppe Ungarettti

 

Tudo que eu ainda consigo lembrar dos conhecidos de Venturosa
é o tom de sua voz
ou a cor de seus olhos.
Nossas vozes perdidas
umas nas outras
no fim das contas nenhum de nós pode, sozinho,
desatar o nó da ficção
que constrói essa coisa frágil
que a gente chama de Eu.
Nas noites insones
escuto todas as outras vozes dentro de mim
e pode ser
que agora mesmo essas vozes me escutem falar
e me recitem dentro delas.

Mãe não é vista
Quando tinha visita de Venturosa lá em casa deles
os pais colocavam outro tipo de
máscara
risonha na cara
e as palavras eram ditas mais alto.
Quando eles estavam sozinhos em casa
então davam ordens em frases curtas
com lábios tensos.
Às vezes mãe se escondia
atrás das portas dos quartos
e não saía por horas.
Quando ela finalmente saía e
aparecia
com olhos inchados e lábios finos
a cara da cozinha voltava ao normal.
A rara lembrança dela sorrindo
quando cruviana cantava
ela brincava e ria
sentia o vento no corpo.
O cheiro do suor dela
e os cabelinhos no sovaco
quando ela nos dava banho.
Quando ela ganhou óculos de leitura
então seus olhos ganharam proteção contra o mundo.
Junto com pai vinha pra casa também o silêncio.
O guardião da família
o príncipe com olhos azuis
o pai alheio e enorme
que criava leis e regras
que nenhum dos filhos conseguia seguir direito.
O sorriso dele era uma perda de tempo
só Maria a vizinha fazia ele dar umas risadinhas de vez em quando.
Ele mostrava o dente de ouro enquanto falava
e o de prata que ficava no fundo da boca dele aparecia
quando falava palavrão.
Nele fervia uma sopa de raiva
que a qualquer momento podia explodir
como leite esborra quando ferve.
Ele sempre podia justificar isso
tu não tinha olho na cabeça?
Ele amava dar palestra
no ouvido dos outros
Já nós filhos não podíamos falar nada
ao contrário servíamos de receptores das promessas de pai.
Ele tinha que expurgar das crianças
todas as maldades de todos os homens
a tempo
expurgar a tempo
o primitivismo do vilarejo
de uma vez por todas bani-lo das crianças
O vilarejo Venturosa
no qual ele via apenas seres primitivos.
No Natal ele se jogava na atuação de bom pai
porque é de bom-tom
porque ele gostava de se ver no papel de pai festeiro
porque era Natal
e as crianças deviam se lembrar do Natal
porque ele tinha bebido dois copos de 51
e porque ele tinha explicado pras crianças a história
de como ele arrancou o rabo
de um lobo guará
no açude.
As crianças não acreditavam nessa mudança dele
e sentavam no seu colo
prontas pra sair correndo
a qualquer momento.
Mãe e vó
não se deixavam levar pelo clima bom
avisavam a ele do álcool
que já tinha estragado famílias inteiras
e não faz bem pro estômago dele.
Pai explodia em ira
arrancava os filhos do colo.
Vocês não me deixam curtir nada
quando foi que eu já fiquei bêbado nessa vida?
Os filhos desejavam profundamente um pai bêbado
de quem pudessem contar histórias e fazer piada.
Depois as tardes
quando os filhos rezavam pra Deus e pediam
e imploravam
que Ele desse um sumiço em pai
ele tem que morrer, Deus querido
mas Deus não pode trair a gente
e dizer que tinha sido um pedido nosso.
Horror desse ódio
que machucava seus corpinhos
tal qual a dor do cinto
que machucava e deixava listras vermelhas na sua pele
Cinto era da companhia de trem EFCP
Cinto era feito de couro de boi
e essa duração longa da dor
será devolvida
mais tarde pra outra pele
que transmitirá a dor
Mais tarde o cinto irá novamente alcançar
reconhecimento na calça de pai.
Pai precisa apenas curvar a mão
ela não precisa ir longe
pra alcançar cinto.
Pai pega o cinto e faz um laço
e pega a minha mão
e na outra mão e está seu cinto
que se move como cobra
ele tem cinto na mão
ele me tem
eu fico em pé não estou autorizada a me mover
meu coração vai pular pela boca
as primeiras marcas aparecem no meu rosto
Mãe não é vista.

Na carteira de pai
Parece que uma vez pai disse
nós vamos pra Pedra Seca.
Ele apontou pra mim e disse
eu fiz identidade
Ana vem junto.
Dessas palavras nasceram
uma ansiedade crescente e silenciosa
nos olhos ouvidos
e coração
que embaixo do sutiã
batia até as costas.
Viagem de trem amanhã.
Na carteira meu pai me guardou
primeira foto de meu rosto
Carteira de identidade
de funcionários ferroviários para benefício de familiares.
Ele me levava e a identificação sempre consigo
essa criança
que eu vejo
é uma criança fechada em si mesma com uns olhos grandes e escuros
cabelo curto
dividido pro lado esquerdo
alisado e penteado
corte de cabelo de menino
casaquinho
e acaba a foto.
Criança olha pra dentro de si
ausente
questionadora.
Orelhas de abano
grandes.
Obstáculo pr’um casamento
apesar de mãe colá-las pra trás com bandêide
para que as chances de encontrar marido
pra mocinha aumentem.
Eu olho pra essa criança em mim
e me parece impossível entender
que o mesmo Eu nessa criança
hoje foi salva em mim.
Pai vestia uniforme de trem, azul escuro
com botões de bronze
e camisa de trem, azul.
Na jaqueta do uniforme tinha
escrito em letras amarelas
EFCP
Estrada de Ferro Central de Pernambuco.
Nos meus ouvidos esse nome soava misterioso.
Venturosa distante
se esparramava pelo olhos
pra dentro pra fora
Viagens de trem.
De medo
sozinha no corredor
que fedia à benzina
nunca mais saí do vagão para o banheiro.
Pai vai contar essa história pra sempre quando a gente voltar.
Cheiro de cabine de trem
Urina madeira casas
Oleosas que viajavam junto
voavam do lado de fora
e acompanhadas das árvores
os postes pareciam lápis
era criança obediente
aguentei a viagem muito bem
como uma adulta
Pai vai dizer
e das palavras de Pai
eu me lembro.
Chegada.
Subir uma escada.
Escada de madeira.
Homem magro
que eu devia chamar de tio
Tio Titio
Que não podia ter filhos
e fazia muita cosquinha em mim.
Eu chorava de rir.

Amiga de mãe
Depois de tanger o gado Mãe voltou
Disse
bichinha de Ágata bichinha de Ágata.
se enforcou no bebedouro das vacas.
Tu não pode ir pro enterro
não nesse estado
disse Pai pra Mãe.
Ágata que aos 13 anos
foi raptada de casa
e na mesma noite estuprada pelo noivo.
O rapto da jovem menina
talvez o ponto de partida pra desgraça de todo o vilarejo.
Ágata foi amarrada a um cavalo
eles mentiram pra ela
ela devia ser levada para a casa da irmã dela em Venturosa.
A jovem criança
com cabelo preto maravilhoso
tinha viúvo velho de olho nela.
Ágata cuidava das ovelhas
e brincava com as outras crianças do vilarejo.
O viúvo
que a raptou
bebia vinho na frente da casa do tio dela
ele falava sobre o preço do gado
e que esse ano mal tinha dado pra ganhar dinheiro
e por isso ele ia trazer Ágata pra sua meia-irmã em Venturosa
pra ajudar.
Ele queria estar em Venturosa
antes de escurecer
e imaginou
como a menina sentaria no cavalo diante dele
as mãos dele no peito dela.
Os gritos dela naquela noite
foram ouvidos em toda Venturosa
aumentaram e cessaram
sem receber socorro.
Ágata ficou louca depois dessa noite.
Ela deu luz a dois filhos
marido tirou dela os filhos
pobre Ágata tão burra.
Não quero a história dela
confesso
dor se espalha
como jararaca no ataque
de uma época pra outra.
Quando uma geração acaba de pagar, orgulhosa,
velhas dívidas
vêm os filhos e fazem novas.

 

***

 

Auszug aus  “Glück”

 

È senza fiato, sera, irrespirabile,
Se voi, miei morti, e i pochi vivi che amo,
Non mi venite in mente
Bene a portarmi quando
Per solitudine, capisco, a sera.

Nicht atembar der Abend, kein Lufthauch,
wenn ihr, meine Toten, und ihr gezählte Lebende, die ich liebe
mir nicht in den Sinn kommt
glückbringend, während
ich begreife, aus Einsamkeit, abends

Giuseppe Ungarettti
Übersetzung Paul Celan

Alles was ich von Bekannten aus Glück noch fühlen kann
ist Erinnerung an Ton ihrer Stimme
oder Farbe der Augen.
Unsere Stimmen ineinander
unverloren
schließlich kann keiner von uns allein
das Knäuel von Fiktion
entwirren
die jenes wacklige Ding bilden
das wir Selbst nennen.
In den schlaflosen Nächten
höre ich alle andere Stimmen drin
es kann sein
dass diese Stimmen mich jetzt reden hören
und mich in sich aufsaugen

Mutter ist nicht zu sehen
Wenn Besuch aus Glück bei ihnen war
zogen die Eltern eine andere
lachende
Gesichtshaut an
und die Wörter wurden laut hinausgesagt.
Wenn sie allein Zuhause waren
dann redeten sie kürzeste Befehlsätze
durch geschlossene Lippen.
Die Mutter verschloss sich manchmal
hinter den Schlafzimmer Türen
und kam für die Stunden nicht heraus.
Wenn sie aus dem Zimmer endlich wieder in der Küche
mit geschwollenen Augen und schmalen Lippen
auftauchte
bekam die Küche normales Gesicht.
Die seltene Erinnerung ihres Lachens
beim Fallen des ersten Schnees
sie spielte und lachte
und warf die Schnee Bälle um sich.
Der Geruch ihres Schweisses
und Härchen unter den Armen
wenn sie uns wusch.
Als sie die Sehe Brille bekam
wurden ihre Augen vor der Welt geschützt.
Mit dem Vater kam die Stille ins Haus.
Der Wächter der Familie
der Fürst mit blauen Augen
der fremde überdimensionale Vater
welcher Gesetze und Regeln gab
die keins von Kinder gründlich ausführen konnte.
Sein Lachen wäre Verschwendung der Zeit gewesen
nur Nachbarin Jasna brachte ihn zu seltsamem Kichern.
Er zeigte den goldenen Zahn beim Reden
und einen silbrigen beim Fluchen
welcher weit hinten im Mund lag.
In ihm kochte Zornmilchsuppe
welche jederzeit überschwappen würde
wie kochende Milch.
Er konnte es auch immer begründen
hast du keine Augen in Kopf gehabt?
Er liebte lange Reden
vor den Ohren anderer
Wir Kinder hatten kein Wort
sondern dienten als Empfänger der Verheissungen des Vaters.
Er musste aus Kindern
die Schlechtigkeit aller Menschen
rechtzeitig austreiben
die Dorfprimitivität
ein für alle mal aus ihnen verbannen
Dorf Glück
in welchem er nur primitive Menschen sah.
Am Weihnachten verfiel er in die zur Schau gestellte Gütigkeit
weil sich so gehört
weil er sich in diese Rolle des feierlichen Vaters gefiel
weil es Weihnachten gab
und Kinder sollten sich an Weihnachten erinnern
weil er zwei Gläser bitteren Likör Pelinkovac getrunken hatte
und den Kindern die Geschichte erzählte
wie er einem Wolf
auf dem vereisten Fluss
den Schwanz aus dem Körper ausgerissen hatte.
Die Kinder trauten nicht ganz dieser Umwandlung
und sassen auf seinen Knien
jederzeit bereit
abzuspringen.
Die Mutter und Grossmutter
hängten sich nicht an die gute Stimmung an
warnten ihm vor Alkohol
welche ganze Familien schon zerstört hat
und es tut seinem Magen nicht gut.
Der Vater brach in Zorn aus
schüttelte die Kinder von seinen Knien.
Ihr gönnt mir gar nichts
wann war ich je betrunken ?
Kin der wünschten sich so sehr einen betrunkenen Vater
welcher Geschichten erzählte und scherzte.
Dann die Nachmittage
in welchen Kinder zum Gott gebetet haben
und ihn baten
den Vater zum Verschwinden zu bringen
er soll sterben lieber Gott
aber Gott soll nicht verraten
dass er auf Kinder gehört hat.
Schreklichkeit dieses Hasses
welcher ihre kleinen Körper zerschmetterte
genau so wie der Schmerz des Hosengürtels
ihre rot gestreifte Haut zerplatzte
Gürtel der Eisenbahngesellschaft ŽTP
Gürtel aus dem Haut vom Rind abgezogen
und diese lange Dauerhaftigkeit des Schmerzes
wird zurückgegeben
noch mal auf andere Haut
Schmerz zu übertragen
Später wird Gürtel Bestimmungplatz wieder
auf Vaters Hose ereichen.
Vater muss nur seine Hand biegen
sie nicht weit ausstrecken
um Gürtel zu holen.
Er wendet ihn und macht eine Schlinge
schnappt meine Hand
und in der anderen Hand ist sein Gürtel
wendet sich schlangenhaft
er hat ihn in der Hand
er hält mich
ich stehe und darf mich nicht bewegen
mein Herz springt durch Hals
erste Röte hat mein Gesicht erreicht
Mutter ist nicht zu sehen.

In der Geldtasche des Vaters
Einmal muss Vater gesagt haben
wir gehen nach Cacak.
Er zeigte auf mich und sagte
ich habe Ausweis gemacht
Ana kommt mit.
Von diesen Worten hatte ich
die geräuschlos steigende Aufregung
in Augen Ohren
mein Herz
unter dem vergilbten Unterhemd
klopfte bis in die Rücken.
Zugreise morgen.
In Geldtasche hat mich Vater gesteckt
erstes Foto mit meinem Gesicht
für die Vergünstigung
Familien Angestellten Ausweis der Eisenbahn Mitarbeiter.
Er trug Ausweis und mich immer mit sich
dieses Kind
welches ich sehe
ist ein in sich versunkenes Kind mit grossen dunklen Augen
kurz geschnittenen Haaren
Scheitel auf linke Seite
geölt gekämmt
Haarschnitt eines Jungen
schmale Pullover
dann hört das Foto auf.
Kind starrt in sich hinein
abwesend
fragend.
Abstehende Ohren fallen auf
grosse.
Heiratshindernis
obwohl die Mutter sie mit dem Wundpflaster zugeklebt hat
damit Chancen vegrössern
einen Bräutigam später für Mädchen ausfindig machen zu können.
Ich schaue in mir dieses Kind an
und scheint mir unmöglich zu begreifen
dass dasselbe Ich in diesem Kind
in mich heute über gerettet wurde.
Vater trug seine dunkelblaue Eisenbahn Uniform
mit den Messing Knöpfen
und blaue Eisenbahn Hemd.
Auf der Jacke der Uniform stand
mit gelben Buchstaben geschrieben
JZTP
Jugoslavensko zeljeznicko transportno poduzece.
In meinen Ohren klang diese Bezeichnung geheimnisvoll.
Fernglück
welches durch die Augen strömte
hinaus hinein
Reise mit dem Zug.
Aus Angst
allein in Korridor
des nach Benzin stinkenden Zuges
ging ich nie aus dem Abteil auf WC.
Vater wird das immer wieder nach der Rückkehr erzählen.
Geruch des Zugabteils,
Urin Holz ölig
Häuser welche mitreisten
draussen flogen
und von Bäumen begleitet wurden
Stromstangen wie Bleistifte
war folgsames Kind
unglaublich gut habe ich die Reise überstanden
wie eine Grosse
wird Vater sagen
an die Worte des Vaters
erinnere ich mich.
Ankunft.
Eine Treppe nach oben
Holztreppe.
Dünner Mann
welchen ich Onkel nennen sollte
Onkel Tetak
welcher keine Kinder zeugen konnte
und mich fest kitzelte.
Ich weinte vor Lachen.

Mutters Freundin
Mutter kam nach Hause von Viehaustreiben
sagte
arme Besa arme Besa.
hat sich bei Kuhtränke erhängt.
Du kannst nicht zu Begräbnis gehen
nicht in diesen Zustand
sagte Vater zur Mutter.
Besa welche mit dreizehn Jahren
von Zuhause gestohlen wurde
in der selben Nacht von ihren Bräutigam vergewaltigt.
Die Entführung des jungen Mädchens
vielleicht Ausgangspunkt des Unheils für ein ganzes Dorf.
Besa war festgehalten auf dem Pferd
sie haben sie belogen
sie soll zur ihrer Schwester nach Glück kommen.
Das junge Kind
mit wunderschönen schwarzen Haaren
auf sie hatte es alter Witwer abgesehen.
Besa hütete Schafe
und spielte mit anderen Dorf Kindern.
Der Witwer
ihr Entführer
trank Wein vor dem Haus ihres Onkels
er redete über die Viehpreise
und dass man dieses Jahr kaum etwas verdient hatte
deswegen er Besa zu ihrer Halbschwester in Glück bringen werde
auszuhelfen.
Er wollte vor Einbruch der Dunkelheit
in Glück sein
stellte sich vor
wie das Mädchen vor ihm auf dem Pferd sitzt
seine Hände eng an ihren Oberteil.
Ihre Schreie in dieser Nacht
hörte ganzes Glück
sie streuten sich und versanken
ohne Hilfe.
Besa verlor ihr Verstand nach dieser Nacht.
Sie gebar zwei Kinder
ihr Mann nahm ihr dann die Kinder
arme blöde Besa.
Ich will ihre Geschichte nicht übersetzen
muss ich sagen
immer wieder wie springender Leopard
vermehrt sich Leid
von einer Zeit in die andere.
Wenn eine Generation gerade stolz
eine alte Schuld abträgt
ihre Kinder tauchen sich in neue.


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