A central Bolsonaro de entretenimentos

A central Bolsonaro de entretenimentos
A atividade fundamental da equipe de Bolsonaro consiste em colocar os pés pelas mãos e passar vergonha (Arte Andreia Freire / Foto Marcelo Camargo / Agência Brasil)

 

Faz muito tempo que os que votaram para que houvesse uma mudança radical nas prioridades do governo, a maioria dos eleitores de 2018, estão esperando este governo acontecer. “Acontecer” quer dizer, identificar de maneira correta, enfrentar e, enfim, resolver os principais problemas do país, a começar pelos três temas substantivos (que também houve outros, não materiais, relacionados a sentimentos e percepção públicas) que explicam a guinada política recente: a avassaladora crise econômica do país, que gera desemprego e mantém as pessoas sem perspectivas; a corrupção público-privada, que drena para determinados indivíduos em posição de poder os recursos que deveriam estar no investimento público nas principais necessidades da população; e o crime urbano, cuja assombrosa escalada reduziu enormemente a qualidade de vida de todos. É o que me parece que desejava a maioria dos que apostaram neste governo e até quem nele não votou, por outras razões.

Bem, é fato notório que Bolsonaro tenha terceirizado a solução para os mais graves problemas nacionais, atribuindo à administração Moro o combate à corrupção e ao crime, e à administração Guedes a missão de resolver os problemas da economia do país. Não os chamo realmente de governos apenas porque Bolsonaro & Pupilos não entendem de gestão pública, nem de Economia, Direito ou Segurança Pública, mas são muito vigilantes no controle de afinação ideológica no recrutamento dos membros e auxiliares das equipes das duas administrações, como se viu no lamentável episódio envolvendo Ilona Szabó e um conselho da administração Moro, convidada por competência e desconvidada por ideologia. A autonomia de Moro, e de qualquer um, termina exatamente quando disparam os sensores ideológicos da matilha dos vigilantes digitais do bolsonarismo e os filhinhos do presidente vão lá no WhatsApp e no Twitter ver por que os cães estão tão agitados.

Pois cada um dos chefes setoriais está há quase quatro meses debruçado, com suas respectivas equipes, desenhando os seus “pacotes” que, enfim, foram apresentados nas últimas semanas. Não vou entrar aqui no mérito da qualidade intrínseca dos pacotes legislativos propostos. O propósito é fazer ver que a administração Bolsonaro, em virtude das suas, digamos assim, peculiaridades, não consegue manter o centro da atenção pública nas iniciativas legislativas que enfrentam os reais problemas do país. E não consegue isso porque a parte exclusivamente bolsonarista deste governo é uma espetacular geradora de barulho e distrações. Ou, emprestando a excelente caracterização feita por Miriam Leitão esta semana, em O Globo, a administração Bolsonaro é uma “central de entretenimentos que oscila seus estilos entre o hilariante, o nonsense e o desprezível”.

Enquanto os governos Moro e Guedes parecem ter um propósito claro e factível, ainda que discutível, relacionado aos problemas reais do país, a parte que cabe ao bolsonarismo tem o estranho propósito de transformar o Brasil em um país conservador, a ferro e a fogo. Com o resultado previsível de ter criado uma equipe de ministros e de funcionários de alto escalão cuja atividade fundamental consiste em produzir disparates, colocar os pés pelas mãos e passar vergonha. Nacional e internacionalmente.

Bolsonaro, os seus filhos, os minipresidentes da República, e metade dos seus ministros não se ocupam nem de economia, nem de infraestrutura, nem de segurança pública e combate ao crime organizado, nem mesmo de tocar o dia a dia da política internacional, da educação, da saúde ou do meio ambiente. Não, claramente chegaram ao governo com um propósito maior: reformar moralmente o Brasil de acordo com a ideologia ultraconservadora que professam e combater os valores e os comportamentos incompatíveis com as suas crenças, quer dizer, os valores liberais, iluministas e de esquerda.

Some-se a isso a peculiar dedicação dos minipresidentes e dos membros do círculo mais íntimo do governo à produção de escândalos decorrentes das práticas políticas mais desprezíveis, como desvio de verbas públicas e corrupção. A este ponto, apenas a duração do governo separa a famiglia Bolsonaro da pior caracterização dos petistas que eles tanto odeiam. Antes, pode-se dizer que os podres começaram a aparecer muito mais cedo no círculo mais próximo ao presidente do que nos governos Collor, FHC, Lula e Dilma, tidos e reputados pelos bolsonaristas como antros de ratazanas.

O que resulta disso, dessa hiperativa gestão usando de confusões e trapalhadas? Moro apresenta o seu pacote anticrime, estimado como o fármaco universal contra o crime de colarinho branco e o latrocínio, mas não se fala disso a não ser por um ou dois dias, pois logo aparecem as malandragens de Bebbiano, potencializadas pela descompostura pública de Carluxo, por um vídeo do presidente da República que não aguenta ver uma confusão que corre para se meter nela, e, enfim, por vazamentos de áudios de conversas de WhatsApp envolvendo o mais alto mandatário do país, como se o presidente da República e o presidente do seu partido, o PSL, fossem dois adolescentes trocando ofensas no grupo de WhatsApp do colégio. Da mesma forma, Paulo Guedes apresenta, enfim, a reforma da previdência, cuja promessa cristianizou o pagão Bolsonaro para os setores produtivos e financeiro do país, a solução de todos os nossos males passados e futuros e, quando se pensa que só se falará nisso, dois dias depois, a pauta pública já está em outro assunto, porque o bolsoministro #01, Ernesto Araújo, incentivado por Eduardo Bolsonaro e pela matilha bolsonarista digital, quer invadir Caracas para entregar, à bala,“ajuda humanitária” aos venezuelanos.

E assim que baixa um pouco a fervura da panela de pressão na fronteira com a Venezuela e você pensa que agora vamos voltar ao Brasil real, o que encontra pela frente? As presepadas do bolsoministro #02, Vélez Rodriguez, querendo reeditar os ritos de início de aulas no ensino fundamental e médio durante a Ditadura, só que agora com vídeos para comprovar que as criancinhas estavam se comportando direitinho e com o lema da campanha política do Nosso Líder Supremo. E isso porque não houve espaço na mídia para algum disparate da bolsoministra #03, Damares Alves, ou para o bolsoministro #04, Ricardo Salles, que não aguentam ver uma vergonha que já a querem passar.

E bem no meio ciclo normal de reações e recuos ante as inesgotáveis asneiras do ministro da Educação, aparece Eduardo Bolsonaro, representando o pai em um evento de trumpistas americanos em defesa do muro contra os mexicanos, gritando em castiço inglês-latino “Construam este muro! Nós os brasileiros apoiamos vocês! ”. Rá! Nós apoiamos a muralha da China contra os mongóis, disse o mongol Bolsonaro como se fizesse parte do Império. Aplausos!

E como nesse governo vergonha pouca é bobagem, aparece o discurso de Bolsonaro em Itaipu, mais uma versão do seu bolero “confesso que sempre te amei”, dedicado a mais um ditador dos tantos que a família curte, desta vez ao general Alfredo Stroessner. Sim, o mesmo Stroessner que assumiu a presidência do Paraguai em um golpe de Estado e por lá ficou por 35 anos, reconhecidamente corrupto, sanguinário e… pedófilo.

Tudo isso, meus amigos, em apenas três dias. Isso é que é governo trabalhando.

Tudo isso demonstra a mais óbvia das hipóteses: a parte bolsonarista do governo é a pior inimiga da outra parte, que, em princípio, estaria lidando com problemas reais. Para desespero dos que taparam o nariz e fecharam os olhinhos enquanto votavam em Jair Bolsonaro sonhando que, na verdade, estavam se jogando nos braços de Paulo Guedes. No que isso vai dar, não sei. Só sei que não se encaminha bem.


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