Zama, à espera
Uma nova tradução de Zama foi publicada pela Editora da UFSC no final do ano passado. O lançamento reinscreve no panorama crítico contemporâneo o fundamental romance do argentino Antonio Di Benedetto, publicado primeiramente em 1956, quando o autor tinha apenas 33 anos. Publicação que é resultado de um trabalho excepcional do tradutor, Byron Vélez Escallón, Professor de Literatura Hispano-Americana da UFSC, que há tempos estuda a obra de Di Benedetto, com um olhar rigoroso e renovador.
Abro esta breve nota destacando a tradução porque, como diversas vezes já foi apontado, em Zama a materialidade da linguagem se impõe e cobra sentido, sendo mesmo um aspecto crucial do romance. Compreender seu funcionamento e sua peculiaridade, à luz de uma situação histórico-cultural específica, e então traduzi-la, reconfigurando, na língua de chegada, assim como em outra situação, suas idiossincrasias e seu impacto – sem dúvida, essa não é uma tarefa fácil. Mas qual seria, afinal, a singular linguagem de Zama?
Liliana Reales, pesquisadora que é referência na obra de Di Benedetto, destaca esse aspecto no texto introdutório ao volume, intitulado, precisamente, “Zama, a invenção de uma língua”. Em diálogo com outros intérpretes canônicos da fatura do autor – como Jorge Monteleone, Julio Premat, Jimena Néspolo e Noé Jitrik –, Reales afirma sobre o romance: “A palavra justa, muitas vezes anacrônica, rebuscada, esquisita, uma sintaxe surpreendente que obriga o leitor a reordenar mentalmente a frase ou relê-la para encontrar o fio de sentido, um uso expressivo (não necessariamente ajustado à convenção gramatical) da pontuação e dos tipos, são os eixos fundamentais que organizam a escritura no romance que é, de todos os seus escritos publicados, a obra mais complexa no que se refere ao tratamento da linguagem”. Daí o enorme desafio que se impõe à tradução.
O romance se passa entre 1790 e 1799, recortando três momentos da vida do personagem Diego de Zama, protagonista e narrador, em uma cidade afastada do centro, que era o Vice-Reinado do Rio da Prata (Buenos Aires). Nessa cidade precariamente estabelecida e nunca nomeada – mas que fica sugerida (Assunção do Paraguai) –, o assessor letrado da coroa espanhola, criollo (espanhol nascido na América), vive rebaixado, sem o prestígio do seu anterior posto de corregedor: agora, diminuído e empobrecido, não pode mais ascender na carreira, impedido pela nova ordem centralizadora da coroa espanhola, que privilegia os nascidos na península. Nessa condição, Don Diego de Zama – algo distinto e orgulhoso, mas também torpe e ressentido – espera, quase sem esperança, uma mudança: alguma providência que o leve a Buenos Aires, ou a Santigo, ou quem sabe, mesmo, à Espanha.
Dedicado por Di Benedetto “às vítimas da espera”, o romance é conduzido por esse narrador vacilante, em uma linguagem absolutamente peculiar: minuciosa, rara, depurada de excessos, mas que produz um efeito de objetividade e de estranhamento, ao mesmo tempo. Em seu texto de apresentação, Liliana Reales retoma algumas linhas célebres de Juan José Saer que reforçam esse procedimento de invenção de uma língua na língua, por assim dizer, operado por Di Benedetto. Segundo Saer, “A língua em que está escrito não corresponde a nenhuma época determinada e, se por momentos desperta algum eco histórico, quer dizer, o eco de uma língua datada, ela não é de modo algum contemporânea aos anos em que supostamente transcorre a ação (1790-1799) e sim anterior em quase dois séculos: é a língua clássica do Século de Ouro”. Reales sintetiza a operação, afirmando que, em Zama, o “efeito de real” se manifesta “através de uma espécie de bruma que cobre a narrativa”.
Desse modo, o romance coincide com a criação de uma voz magnética, que arrasta o leitor pelo percurso de decaimento do próprio narrador. Tal percurso, que culmina desastrosamente continente adentro, traduz a sina de um personagem cada vez mais distante de suas aspirações iniciais, cada vez mais abatido por seus equívocos e pelas contingências, e não obstante cada vez mais próximo de um autorreconhecimento de grande importância – para ele e para nós, leitores latino-americanos. Pois, já no limite de suas tentativas de reaver algum brio, Diego de Zama, despossuído, mutilado pela guerra e abandonado no ermo, finalmente se vê no espaço ameríndio, ou seja, enfim vê a si mesmo como pertencente à terra onde sempre viveu, agora obnubilado pela natureza e pelo contato com os indígenas:
“Voltava do nada.
Quis reconstruir o mundo.
Descolei as pálpebras tão pausadamente como se elaborasse a alvorada.”
Nesse ponto último, portanto, o romance prepara um outro começo. Zama: “Z e A se sobrepõem na cena final, em que se conjugam a escatologia e a gênese”, escreveu Byron Vélez Escallón no ensaio “‘Todavía no’: Zama, un criollo, um índio”, de 2022, publicado na Argentina. É assim que “se esboça a continuação de uma vida que desde a sua fundação se entendia como detenção e ainda não ser”. Mas não se trata, claro está, de um desfecho apaziguador: “distante da fusão, em Zama a diferença colonial é uma ferida aberta”, segue o crítico e tradutor. Isso significa que não encontraremos no romance de Di Benedetto nenhuma fórmula tranquilizadora para a violência que constitui a história da América Latina. Em outras palavras, não há no livro celebração da mestiçagem, do multiculturalismo, do hibridismo, ou qualquer síntese de caráter universalizante e abstrato: ao contrário das vias da assimilação, prevalece, nesse vir a ser avesso à lógica do progresso (Z – A), a heterogeneidade dos mundos, isto é, a pluralidade das formas de vida que coexistem em tensão, em conflito, em uma situação específica.
Por outro lado, Zama pode ser lido, sim, em chave alegórica, como uma crítica dos projetos fundacionais. Sabemos que o tópico da fundação foi recorrente entre nossos intérpretes: para além dos indianismos românticos, seus signos e seus ritos foram pensados, em distintas chaves de leitura, de Sarmiento a Ángel Rama, passando por Euclides da Cunha, Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido, Lezama Lima, Severo Sarduy, José Luis Romero, Lúcio Costa, David Viñas, entre muitos outros. Seja como for, aqui interessa frisar que, se as imagens do “sertão” e do “deserto” foram tão frequentemente associadas, na modernidade latino-americana, ao “atraso”, ao “nada”, ao “vazio” do espaço e da cultura sobre o qual a civilização europeia deveria se impor – valendo-se, para isso, da fundação de cidades e de instituições, da cruz e da espada, das letras e das armas –, em Zama a resposta ensaiada é diversa.
Publicado no momento em que se aprofunda o problema da dependência local, nos marcos de uma reorganização geopolítica do capitalismo, Zama é uma cifra da exploração e da violência estruturantes de nossa região e nossa história. Novamente, é Vélez Escallón quem o explicita, no ensaio anteriormente citado: trata-se “da duração de instituições e regimes de produção que se encontram entre o final de uma situação (Z) e o começo de outra (A). Em 1799, essa permanência se expressava como vida póstuma da encomienda nos estertores do sistema colonial. Em 1956, ano de publicação do romance, a ficcionalização do atavismo pode ser associada ao contexto da dependência latino-americana”.
Nesse sentido, a leitura do decaimento-reconhecimento do personagem, no momento imediatamente anterior aos processos de independência latino-americanos, é também uma leitura do atraso-impasse do nosso ser em comum, no momento em que se estabelecem as condições para uma dominação global do capitalismo “democrático”. As vítimas da espera – à espera do fim dessa herança colonial –, desse modo, somos todos nós.
Antonio Di Benedetto, nascido em 1922, em Mendoza – cidade-oásis que confina com o deserto e a Cordilheira dos Andes – teve uma atuação decisiva no jornalismo e na crítica de cinema. Detido no mesmo dia do golpe cívico-militar na Argentina, em 24 de março de 1976, “foi um dos primeiros escritores a serem presos e torturados pelos militares”, afirma Liliana Reales. Depois de 17 meses detido sem acusações formais, com a pressão de personalidades nacionais e internacionais, foi liberado e partiu para o exílio, fixando residência em Madri até 1984, quando retornou a Argentina. Faleceu em Buenos Aires dois anos depois. Para Reales, “hoje não resta nenhuma dúvida de que Antonio Di Benedetto se tornou inimigo da ditadura argentina quando, desde sua função de subdiretor de Los Andes, estimulou e autorizou a publicação de matérias que denunciavam os crimes da ultradireitista e sinistra Triple A (Ação Anticomunista Argentina) e os abusos e desaparecimentos de pessoas pela polícia local, nos meses que antecederam ao golpe militar”.
Zama é, para muitos, a obra máxima do autor, que se coloca entre outras figuras incontornáveis da nossa literatura, como Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa e Juan Rulfo. Agora, com esta excelente tradução (que traz ainda um “Apêndice crítico” de grande relevância para pesquisadores), diríamos que, do começo ao fim, e do fim ao começo, a obra redobra sua aposta em nosso reconhecimento, à espera de novas leituras e, quem sabe, de alguma esperança.
Artur de Vargas Giorgi é professor de Teoria Literária da UFSC. É bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. É autor do livro Sobre arte e vida em comum (ensaios breves) (EdUFSC, 2026)





