A cumbuca de dar é a mesma de receber

Edição do mês
A cumbuca de dar é a mesma de receber
mauricio pokemon/acervo nêgo bispo
  Antônio Bispo dos Santos, Nêgo Bispo (1959-2023), viveu com os pés, as mãos, o pensamento, a vida e o desejo de luta firmados na terra, na roça. Aqui seguimos seus passos na tentativa de reverberar a herança que ele nos deixou, a partir de seu modo de viver, lutar e pensar, e das maneiras como relacionou tudo isso. Para adentrar no horizonte deste dossiê, é preciso primeiro atrasar o ritmo e firmar o corpo, a partir da lavra que ele reivindicou. Não se trata aqui de uma recepção acadêmica convencional, das que tentam converter o mestre em um “autor” palatável para o mercado das ideias. O que se apresenta nestas páginas é o Acontecimento Nêgo Bispo: uma irrupção telúrica que rasura o pacto narcísico da branquitude e convoca o pensamento a pisar, com os dois pés, o chão da roça. Portanto, não partimos aqui de nenhuma noção deleuziana de acontecimento – estamos muito mais em confluência com a noção que Beatriz Nascimento apresentou em seu artigo “O conceito de quilombo e a resistência cultural afro-brasileira”, no qual ela entende “o acontecimento como vinculado com os sentidos dignificantes da capacidade de resistência ancestral”. Este dossiê não se cria a partir de uma curiosidade diletante, mas da consciência de que estamos em meio a uma guerra que nunca cessou. O colonialismo, para nós e para as vozes que aqui confluem, não é um registro datado nos livros de história, mas uma tecnologia de terror que se capilariza no cotidiano, tentando adestrar nossos nomes e modos de nomear, nossos corpos e nossa imaginaçã

Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »

TV Cult