Zeladora de memórias

Zeladora de memórias
(Foto: DIvulgação)
    Quem iria imaginar uma situação dessas? Parece o nazismo que a gente vê nos filmes. Esses milicos endoidaram (Bernardo Kucinski, Júlia: nos campos conflagrados do senhor) O Brazil não conhece o Brasil (Aldir Blanc, “Querelas do Brasil”)   Desde sua estreia na ficção, em 2011, com K: relato de uma busca, romance que alcançou enorme repercussão, Bernardo Kucinski vem se destacando como uma das mais importantes e potentes vozes da literatura brasileira contemporânea, sobretudo no que concerne ao enfrentamento de forças ultraconservadoras que assolam nosso país. Em muitas narrativas, como Você vai voltar pra mim (2014) e Os visitantes (2016), além do romance inaugural, o autor confronta o apagamento dos eventos traumáticos (“o mal de Alzheimer nacional”) do extenso período da ditadura civil-militar brasileira, marcado por um cômputo terrível de vítimas sequestradas, torturadas e assassinadas pelo aparelho repressor. Com absoluto domínio técnico na condução de suas histórias, construídas com estrutura fragmentária e sintaxe predominantemente concisa, Kucinski exuma os horrores da ditadura, escancarando a sordidez de seus meandros, sem resvalar em nenhum sentimentalismo apelativo.  Com frequência, o autor lança mão do recurso da ironia para potencializar o efeito de assombro e perplexidade, mobilizando o leitor. Em A nova ordem (2019), por exemplo, espécie de distopia política que eleva ao paroxismo as mais terríveis reminiscências da ditadura, um dos principais personagens, o general Lindoso Fagundes, cuj

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