Vamos conversar sobre gênero?

Vamos conversar sobre gênero?

Teoria, ideologia e a urgente necessidade de pensar contra a má fé

O teólogo André Musskopf defende que os fundamentalistas têm ajudado o feminismo e os movimentos pela diversidade sexual e de gênero. Em artigo (que pode ser lido na íntegra aqui: http://andremusskopf.blogspot.com.br/2016/02/sobre-como-fundamentalistas-tem-ajudado.html), ele defende que “talvez o mais surpreendente seja que aqueles e aquelas que não queriam falar sobre o assunto de repente se veem obrigadas e obrigados a estudar e conhecer – e até falar sobre ele”. De fato, a gritaria de alguns pastores evangélicos, deputados e vereadores homofóbicos tem esse outro lado, um efeito inesperado de colocar a questão em pauta, de levar muita gente a repensar o modo como a questão de gênero afeta suas vidas cotidianas. A vida e a sociedade são dialéticas, digamos assim, tudo pode ter dois lados, e o olhar otimista ajuda todos os que sobrevivem a seguir na luta por direitos. Mas infelizmente há o lado péssimo de tudo isso, aquele que é vivido pelas vítimas desse estado de coisas, aqueles para quem não há justiça alguma.

Quem luta, não pode desistir. Enfraquecer o inimigo é necessário desde que não se menospreze sua força.

O caminho que devemos seguir quando se trata de pensar em gênero é aquele que reúne o esforço da crítica, da pesquisa, do esclarecimento, o esforço de quem se dedica à educação e à ciência, com o esforço da escuta. Quando escuto alguém falando de “cura gay” imagino o grau de esvaziamento de si, de pobreza subjetiva, que levou essa pessoa a aderir a uma teoria como essa. Infelizmente, esse tipo de teoria popular se transforma em ideologia enquanto, ao mesmo tempo, é usada por “donos do poder”, para vantagens pessoais.

Importante saber a diferença entre teoria e ideologia. São termos muito complexos. Incontáveis volumes já foram escritos sobre isso, mas podemos resumir nos seguintes termos: teoria é um tipo de pensamento que se expõe, ideologia é um tipo de pensamento que se oculta.

Há, no entanto, um híbrido, as “teorias ideológicas” que, por sua vez, expõem com a intenção de ocultar, ou ocultam fingindo que expõem.

Há teorias populares (que constituem o senso comum, as opiniões na forma de discursos que transitam no mundo da vida depois de terem sido lidas em jornais e revistas de divulgação) e teorias científicas (que estão sempre sendo questionadas e podem vir a ser desconstituídas, mas que escorrem para o senso comum e lá são transformadas e, em geral, perdem muito do seu sentido).

Ideologia, por sua vez, é o conjunto dos discursos e opiniões vigentes que servem para ocultar alguma coisa em vez de promover esclarecimento, investigação e ponderação.

A ideologia de gênero sobre a qual se fala hoje em dia, não está na pesquisa que o discute e questiona, mas no poder que, aliado ao senso comum, tenta dizer o que gênero não é.

Algo muito curioso acontece com o uso do termo ideologia quando se fala em “ideologia de gênero”. Algo, no mínimo, capcioso. Pois quem usa o termo “ideologia de gênero” para combater o que há de elucidativo no termo gênero procura ocultar por meio do termo ideologia não apenas o valor do termo gênero, como, por inversão, o próprio conceito de ideologia. É como se falar de ideologia de gênero servisse para ocultar a ideologia de gênero de quem professa o discurso contra a ideologia de gênero.

Não se trata apenas de uma manobra em que a autocontradição performativa é ocultada pela força da expressão, mas de uma caso evidente de má fé. E quando a má fé vem de pessoas (homens, sobretudo) que se dizem de fé, então, estamos correndo perigo, porque a fé do povo tem sido usada de maneira demoníaca.

Walmor Correa, Metaformoses e Heterogenia – MAM, SP, 2015

Obra

O papel ético e político de quem pesquisa, ensina e luta pela lucidez em uma sociedade em que os traços obscurantistas se tornam cada vez mais intensos é também demonstrar que percebemos o que se passa e que continuaremos do lado crítico a promover lucidez, diálogo e respeito aos direitos fundamentais, inclusive relativos à sexualidade e ao gênero, em que pese a violência simbólica a que estamos submetidos.

O Brasil retrocede em suas leis. No último dia 18, a Câmara dos Deputados em votação do texto base da MP 696/15, promoveu a retirada dos termos “incorporação da perspectiva de gênero” do contexto das atribuições do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos. No dia 16 de fevereiro a Câmara de Vereadores de Nova Iguaçu sancionou uma lei que veda a distribuição e divulgação de material didático contendo orientações sobre diversidade sexual e, entre outras pérolas do autoritarismo e da burrice sócio-política, proíbe o “combate à homofobia, de direitos de homossexuais…”.

Durante toda a minha vida lecionei em faculdades confessionais. Conheci muitos padres, freiras e pastores. Todos, sem exceção, ainda que religiosos, eram “gente como a gente” em todos os mais variados sentidos, com as mesmas paixões e os mesmos problemas relativos à sexualidade. Entre meus alunos pastores sérios, críticos e honestamente comprometidos com sua religião, surgiu a seguinte questão: como ajudar alguém que chega à igreja acreditando que está doente porque descobriu um desejo homossexual? Sempre trabalhamos a resposta na direção da desmontagem do ardil da sexualidade, seu uso pela igreja e a invenção da ideologia da cura. E sempre mostrei os teóricos que defendiam o prazer como uma saída razoável, porque as teorias servem para isso, para nos fazer pensar no que não estamos acostumados. Enquanto as ideologias servem para impedir o pensamento.

Minhas aulas sobre história do corpo que envolviam estudos sobre gênero e sexualidade (e evidentemente, as teorias de sua desconstrução) foram procuradas por pessoas que, na igreja, estão querendo realmente transformar a vida das pessoas para melhor. Há honestidade nas igrejas, ainda que atualmente os desonestos estejam na moda (e lucrem com isso).

Diante de exemplos assim, a defesa da reflexão, da discussão conceitual, da compreensão crítica das teorias continua urgente, mas isso tudo não basta. É preciso honestidade intelectual.

Para isso precisamos contar com a boa fé de tantos pessoas que se dizem religiosas no Brasil.

Infelizmente a má fé tem vencido.

Igrejas fundadas na má fé tem crescido a ponto de que Deus deve estar preferindo os ateus.

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