Um chamado aos brancos

Um chamado aos brancos
É possível aprender muito sobre a luta antirracista sem importunar nenhuma pessoa negra com demandas indevidas (Rio On Watch/Reprodução)

 

No supermercado Extra, um segurança estrangulou Pedro Gonzaga, de 19 anos, até a morte. Eu não estava lá, as imagens em vídeo são muito limitadas, e não é possível compreender a cena toda. Ainda assim, cabe perguntar: por que ninguém pulou sobre um dos seguranças que isolava a ação? Por que ninguém jogou nada na cabeça do assassino, na tentativa de obrigá-lo a soltar o garoto? Jovens negros que, em 2016, eram executados a cada 23 minutos, vão morrer em intervalo ainda menor se não tomarmos para nós a tarefa de protegê-los. Assim como as empresas privadas de segurança, o Estado não os defende. O Estado é quem mais mata.

Em 1966, nos Estados Unidos, um grupo cansado de lamentar assassinatos de negras e negros decidiu patrulhar os guetos para proteger a população da violência policial. Armados legalmente, seguiam viaturas policiais e desciam dos carros para acompanhar as abordagens. O objetivo não era atacar. Era proteger, assim como as panteras negras que só atacam humanos em caso de ameaça. O Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, conhecido como o Partido dos Panteras Negras, chegou a ter 2 mil membros.

Como podemos, no Brasil de 2019, nos inspirar nos Panteras Negras em defesa de nosso jovens? Sem armas de fogo, com organização e compromisso, conseguimos coibir a violência policial e das empresas privadas para que negras e negros possam viver? Corpos negros, mais vulneráveis, não precisam estar à frente, em autodefesa. Talvez esta seja uma boa oportunidade para brancas e brancos na luta antirracista: colocar a imagem de ser humano digno de respeito e de direitos a serviço de quem tem sua humanidade negada. Colocar o próprio corpo na frente. Atender aos chamados do movimento negro, não como protagonistas da luta dizendo o que precisa ser feito ou como, mas ouvindo, aprendendo, assumindo tarefas e responsabilidades que possam ser coletivamente atribuídas.

Quando uma denúncia de racismo explode, é comum a comoção de pessoas brancas de esquerda, demandando saber como combater o racismo em si e no entorno. Mas, quando outro dos nossos jovens é assassinado e o movimento negro convoca um ato, raras vezes encontramos alguma dessas pessoas ao nosso lado nas ruas. Encher-nos de perguntas, pedidos de referências e de revisão de textos quando julgam pertinente, no seu tempo, pode nos colocar, mais uma vez, no lugar de servir a que todos estamos acostumados. Que tal assumir uma postura antirracista desde este momento? Há muitos livros, artigos acadêmicos e textos de jornais e revistas disponíveis, além de cursos, palestras e seminários divulgados com frequência. Com um pouco de dedicação, é possível aprender muito sobre relações raciais no Brasil e a luta antirracista sem importunar nenhuma pessoa negra com demandas indevidas.

Recomendo fortemente a leitura de autoras e autores negros. Sueli Carneiro. Lélia Gonzalez. Abdias do Nascimento. bell hooks. Angela Davis. Fanon. Não me pergunte por qual texto começar, por favor. E, para compreender que branco também pode ser visto a partir de uma perspectiva racial e aprender sobre branquitude, recomendo o livro de Lia Vainer Schucman, Entre o encardido, o branco e o branquíssimo – Branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo, adaptação de sua tese de doutorado, publicado pela Annablume, em 2014.

Quem quiser dar um passo para dentro, ir além dos discursos teóricos e militantes para olhar para si sem medo de se perceber racista, recomendo inspirar-se no texto “Quando me descobri racista”, de Debora Pivotto, minha amiga desde a faculdade de jornalismo. Generosamente, ela cita o processo de me descobrir negra como uma das motivações para que ela mesma se olhasse com coragem e verdade. “Sempre tive muito orgulho de ver não só a Bianca, mas tantas mulheres que, nos últimos anos, se assumiram negras. Soltaram seus cabelos e suas vozes. É realmente lindo de ver. Mas, de uns tempos pra cá, tenho olhado mais para mim e entrado em contato com o meu próprio processo diante de toda essa transformação. E tenho lidado com algo bem complexo e profundo que é deixar de ser racista.”

Crie referências! Além das leituras, veja cinema pensado por pessoas negras. Vá a médicas, dentistas, terapeutas negras. Eduque seu olhar para que nem todas as pessoas com o mesmo tom de pele pareçam a mesma pessoa. Perdi as contas da quantidade de fotos minhas que já me enviaram em que não apareço. Concordo que não seja um problema grave. Mas é imensa a quantidade de mulheres e homens negros presos, condenados injustamente, por crimes que não cometeram, porque foram reconhecidos por testemunhas que achavam todos muito parecidos.

Para citar apenas um caso, a modelo Barbara Querino, de 20 anos, foi condenada a 5 anos e 4 meses de prisão por um assalto realizado em São Paulo, capital, em uma noite em que trabalhava no Guarujá. O irmão de Bárbara, acusado de outro roubo, foi levado para a delegacia. Mesmo sem qualquer envolvimento com a denúncia, Bárbara também foi levada e fotografada pelos policiais segurando um cartaz com seu nome completo, RG e data de nascimento. A imagem passou a circular ilegalmente pelo Facebook e em grupos de WhatsApp. Um casal, cujo carro havia sido roubado, recebeu a imagem no grupo do prédio onde são vizinhos de um delegado de polícia, e foi à delegacia declarar que haviam reconhecido os ladrões por fotografias, e dentre eles estava Bárbara. Seus cabelos pretos crespos e longos, sua pele parda não deixavam dúvidas, segundo as vítimas, de que ela havia participado do assalto. Bárbara está presa desde 15 de janeiro de 2018.

Casos como o de Bárbara são, infelizmente, comuns no Brasil e em outras sociedades racistas. Em 1974, James Baldwin publicou o romance Se a rua Beale falasse, traduzido no Brasil pela Companhia das Letras em 2019, quando foi lançado o filme de Barry Jenkins com o mesmo título. Na obra, Tish narra sua história de amor com Fonny, preso depois de ser reconhecido, em uma fila de homens negros, pela vítima de um crime hediondo que ele nunca cometeu.

Talvez dê para ligar os pontos e compreender por que importa tanto que pessoas negras sejam retratadas pelo cinema, televisão, publicidade sem a reprodução de estereótipos racistas. Precisamos ser vistas em nossa individualidade, com a nossa complexidade. Como seres humanos. Pessoas que não são o tempo todo confundidas com quem ocupa posição subalterna ou com quem comete crime. Humanos que não podem ser estrangulados até a morte em um supermercado.


> Assine a Cult. A mais longeva revista de cultura do Brasil precisa de você. 

(1) Comentário

Deixe o seu comentário

Setembro

TV Cult