Três cartas de Clarice Lispector: o imprevisto

Três cartas de Clarice Lispector: o imprevisto
As três irmãs: Elisa (ao centro), Tania (à esquerda), e Clarice, em setembro de 1927

 

1. Alô, queridíssima

Fazenda Vila Rica, Estado do Rio, janeiro de 1942

A moça Clarice Lispector, que acabara de completar no mês anterior os seus 21 anos, escreve a sua “queridíssima” irmã Tania.

Não se trata da primeira carta de que se tem notícia escrita por Clarice a uma irmã sua. Aliás, esta e outras cartas foram publicadas no volume Minhas Queridas (organizado por Teresa Montero e publicado em 2007). Há nesse volume 120 cartas publicadas. Há mais 12 cartas de Clarice às irmãs publicadas no volume Correspondências (organizado também por Teresa Montero, publicado em 2002), perfazendo assim um total de 132, dentre as 180 cartas de que se tem notícia. Assim sendo, 48 cartas de Clarice às irmãs permanecem ainda inéditas na íntegra, sendo que trechos de algumas delas foram transcritos no livro de Olga Borelli intitulado Clarice Lispector – Esboço para um possível retrato, publicado pela editora Nova Fronteira em 1981.

E, infelizmente, as cartas das irmãs para Clarice até hoje não apareceram…

Datadas de 1940, há também duas cartas enviadas a sua irmã Elisa, a mais velha das irmãs: em 17 de maio, para “a querida Elizinha” (sic) que se encontrava em Juiz de Fora, a trabalho; e em 22 de maio, para a “querida Elisa”, que passava férias em Miguel Pereira.

Nessa última, Clarice dá notícias da doença do pai e da irmã Tania, anuncia que irá ao baile no sábado, pede notícias dessa irmã Elisa, que carinhosamente chama de “bichinha”, à moda nordestina; e lhe dá conselhos para que aproveite bem as férias, ao “não fazer nada”. Mas também anuncia fato importante: o conto que encaminhou à revista Pan será publicado. E comenta: “Ou o homem está louco ou sou eu quem está.” Trata-se do conto “Triunfo”, que foi efetivamente publicado três dias depois dessa carta, em 25 de maio de 1940, e que figura como o marco inaugural de uma longa carreira de escritora.

E há uma carta de Clarice dirigida à irmã Tania, ao marido de Tania, William Kaufmann, e à filha de ambos, Marcinha, datada de início do ano seguinte, 7 de fevereiro de 1941, também anterior, pois, à de 1942. Nesta, Clarice se refere a notícias sobre o seu próprio trabalho na Agência Nacional, em que reclama da brutalidade e do autoritarismo dos seus chefes, que parece não aceitarem a reivindicação da moça Clarice de voltar às reportagens. Clarice, nesse período, aguarda a resposta da agência A Noite, onde efetivamente passará a atuar em breve. No mais, dá notícias da casa da família Kaufmann, onde Clarice e Elisa passam a morar depois da morte do pai, ocorrida em agosto de 1940. Faz também referência irônica ao namoro com o diplomata Maury: “desde que estou namorando o Itamarati tenho ficado com gosto especial pelas palavras de gíria, bem vulgares… Comecei a reagir.” E Clarice ainda afirma que escreve a carta ouvindo “Morte de Isolda”, que tomará banho e depois irá almoçar no Praia Bar.

Voltamos à carta que mais nos interessa hoje. A que Clarice escreveu a sua irmã Tania, em janeiro de 1942. E que escreveu ao passar férias na fazenda Vila Rica, em Avelar, perto do Rio de Janeiro. Pois bem. Nessa carta, depois de reclamar de ter recebido apenas duas cartas da irmã, dá notícias mais específicas sobre seu estado de espírito. E afirma:

“Não escrevi uma linha, o que me perturba o repouso. Eu vivo à espera de inspiração com uma avidez que não dá descanso. Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor.”

Eis aí um testemunho de que, mal completara 21 anos, a moça não só tinha perfeita consciência do seu desejo – o de escrever –, mas também considerava essa atividade como sendo mais importante do que o amor. Estava aí praticamente definido o seu futuro de escritora.

Curiosamente, logo em seguida passa a falar do namorado, de quem recebera “cartas formidáveis”, e da briga que com ele tivera, por carta, e porque “ele interpretou como literária uma carta que eu mandei.” E explica: “Você bem sabe que isso é a coisa que mais pode me ofender. Eu quero uma vida-vida e é por isso que desejo fazer um bloco separado da literatura. E além do mais, eu tinha escrito a carta com uma espontaneidade integral.”

Quanto a separar literatura e vida, eis uma questão com a qual Clarice há de se deparar ao longo da vida toda, sem conseguir resolver esse dilema. Ao escrever crônicas para o Jornal do Brasil, atividade que manteve de 1967 a 1973, volta reiteradamente a esse assunto, ciente da dificuldade de separar esses dois territórios. Segundo a própria cronista, não conseguia deixar de ser pessoal.

Já quanto ao fato de a carta ser ou não ser “literária”, há aí dois pontos de vista. Seria literária, do ponto de vista do namorado Maury. Admitindo-se essa hipótese, se Clarice escrevera a carta com “espontaneidade integral”, conforme ela afirma, pode-se concluir que escrevera espontaneamente um texto de qualidade, ou seja, escrevera como escritora… Uma briga entre namorados acaba confirmando, assim, o seu talento de escritora.

Se o leitor estiver curioso e quiser comprovar a ‘literariedade’ ou não das tais cartas da namorada e o diálogo entre os dois, basta percorrer a série de quatro cartas de correspondência ativa (de Clarice para Maury) e passiva (de Maury para Clarice), todas de janeiro de 1942, e publicadas no já citado volume Correspondências.

De fato, logo no início da primeira carta, a namorada descreve, com tons literários, sua chegada à estação e o seu percurso, de carroça, até a fazenda. Eis o trecho:

“Tudo muito poético. Uma chuva enorme me esperando na estação, um carro descoberto pra me conduzir à Fazenda (…). E os solavancos. E a sensação de perigo (quase nenhum, felizmente) ao atravessar o riozinho. Por um triz – uma aventura! Faltou justamente o carro virar e a donzela cair desmaiada sobre a terra, os loiros cabelos misturados à lama.”

O trecho revela, sim, pendores literários, na descrição da cena ‘poética’ e já à moda de Clarice: passa do relato do fato (o percurso da estação à fazenda), para o que não aconteceu mas poderia ter acontecido (a aventura e a ocorrência de um acidente, imprevistamente). Essa passagem de um campo mais factual para o do imaginário haverá de marcar muitas das suas crônicas, como, por exemplo, a intitulada “Esclarecimentos. Explicação de uma vez por todas”, publicada no Jornal do Brasil e, posteriormente, em A descoberta do mundo. Depois de apresentar alguns dados biográficos, Clarice passa a indagar: o que seria ela se não tivesse sido quem foi? Mistério, conclui a cronista.

A suposição desse ‘pendor literário’ não existe só no ponto de vista do Maury, pois a própria namorada indaga, mais adiante: “Estou sendo literária? Juro, faço o possível para mergulhar bem fundo dentro de mim e retirar belas coisas simples.” Mais um registro do seu procedimento de escritora ao traduzir o método da ‘pesca’ da matéria a ser escrita, extraída nas profundezas da sua intimidade, e flagrada aí em momento descontraído de uma simples carta de namorada. Que o namorado, de certa forma, retribui, ao contrário, quando afirma, num post scriptum em carta de resposta à que lhe enviara a namorada: “Aviso aos leitores. Perigo de vida – esta carta está cheia de má literatura.” O namorado sente a diferença de linguagens e de procedimentos.

Mais adiante, a matéria das cartas de Clarice é novamente questionada pelo namorado, que, diga-se, escreve bem e com ironia. De fato, ele afirma, em carta de 7 de janeiro de 1942: “Menina, não bula comigo. Eu sou um bom rapaz, sem sombra de intelectualismo. Detesto me definir.” E mais: “Então você pensa que me apanha numa definição? As definições são asfixiantes e eu gosto de liberdade.” Mas nas duas cartas seguintes, depois de se sentir pequeno em relação às questões universais propostas pela namorada, pois, segundo o namorado, “aquela carta não foi para mim, foi um panfleto dirigido a toda a HUMANIDADE”, o namorado se recompõe: confessa os seus sentimentos pela namorada e louva o fato de a moça haver assimilado “boa literatura”.

E o casamento com a escritora Clarice acontecerá no início do ano seguinte: janeiro de 1943.

Entre afagos e rixas, desvenda-se a escritora Clarice, não só no desejo explicitado de escrever, que considera mais importante que tudo, até do amor, e sim em certos procedimentos que anunciam a futura Clarice ficcionista: o dilema entre ser ou não ser pessoal naquilo que escreve; a tendência a escapar do factual para mergulhar no imaginário; a busca de matéria no mergulho da sua própria intimidade; e a vocação para abordar grandes questões que afetam a humanidade.

 

2. Fernando

Washington, 21 setembro 1956, sexta-feira

Essa carta de Clarice Lispector endereçada a Fernando Sabino é escrita um dia depois de receber as “notas” ou observações do amigo referentes ao seu romance A veia no pulso, terminado enquanto Clarice morava nos Estados Unidos e que será publicado depois de longa espera, apenas em 1961, com o título de A maçã no escuro.

A amizade entre esses dois escritores tem vida longa. Fernando Sabino ganhara um exemplar de Perto do coração selvagem com dedicatória datada de 8 de janeiro de 1944, quando tinha vinte anos. Mas só foi apresentado à escritora quando ela voltou ao Brasil, em 1946, num intervalo entre sua estada em Nápoles e a futura estada de três anos em Berna, onde ficaria até 1949 acompanhando o marido diplomata. E foi Rubem Braga – que a conheceu enquanto ela morava na Itália, durante a Segunda Grande Guerra – que os apresentou, um ao outro. Posteriormente, na casa de Fernando Sabino, Clarice conheceu os amigos mineiros do amigo mineiro Fernando: Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos. Mais tarde conheceria também outro mineiro, Hélio Pellegrino.

De volta a Berna, inicia-se um período de 33 anos de troca de correspondência, somando um total de 50 cartas, o maior conjunto de cartas de Clarice com diálogo (ou seja, de correspondência ativa e passiva) de que se tem notícia e que foram reunidas no volume Cartas perto do coração, organizado pelo próprio Fernando Sabino e publicado em 2001.

A história dessa correspondência é também a história de uma amizade profunda entre jovens que foram se acompanhando, por carta, até se tornarem adultos: quando se conheceram, contava ela 25 anos de idade, e ele, 22. E as últimas são escritas na maturidade. A última carta de Clarice a Fernando Sabino data de 11 de março de 1959, contava ela 38 anos, escrita de Washington, onde permaneceria até junho desse ano. E a última carta de Fernando Sabino para Clarice será escrita dez anos depois, em 29 de janeiro de 1969, ele com 45 anos, emitida do Rio de Janeiro, com suas impressões sobre o livro Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, publicado nesse mesmo ano de 1969, carta que o amigo escreve “logo em seguida a uma absorvente e perturbadora primeira leitura” desse romance.

A amizade revela-se não só na regularidade das cartas ao longo de 23 anos, mas no que vem dentro delas: relato de momentos bons e de momentos ruins; impressões sobre qualquer coisa, desde livros lidos, até descrições de pessoas vistas na rua, lugares percorridos, notícias de amigos comuns, opiniões críticas de cada um referentes a textos escritos pelo outro.

Entende-se a razão pela qual o amigo Fernando dedica-se a ler com tanto empenho o romance que Clarice lhe envia – então com o título A veia no pulso: a amizade e admiração, tantas vezes por ele explicitada ao longo dessa correspondência. Pelos mesmos motivos, inclui em carta datada de setembro de 1956 nada menos que 204 notas de leitura ou sugestões que Clarice acata e comenta. E a amiga romancista afirma, comovida, quando recebe dele um telegrama, em que tece elogios ao livro: “(…) para dizer a verdade, parece que me emocionei ainda mais com a amizade que com a referência ao livro.”

De fato, a carta de 21 de setembro de 1956, escrita sob o impacto das anotações que recebera do amigo, leva-a a questionar certos procedimentos que adotara na escrita do romance, alguns referentes a um tom conceituoso.

“Eu queria me pôr completamente fora do livro, e ficar de algum modo isenta dos personagens, não queria misturar ‘minha vida’ com a deles. Isso era difícil. Por mais paradoxal que seja, o meio que achei de me pôr fora foi colocar-me dentro claramente.”

E, no final, esclarece: “Todo mundo sabe que ‘alguém’ está escrevendo o livro, por que então não admiti-lo?”.

Ao que Fernando responde, em carta seguinte, datada de 26 de setembro do mesmo ano, ao contestar que tenha considerado o livro conceituoso, a não ser em certas expressões, por ele anotadas:

“Ora, seu livro, da primeira à última linha, não é outra coisa senão alguém escrevendo um livro – e isso devido à sua concepção peculiaríssima, à técnica que você adotou, etc. – nunca porque você o diga a toda hora. O importante não é dizer, é saber.”

E finaliza, com mestria.

“Certas coisas não se dizem, porque dizendo, deixam de ser ditas pelo não-dizer, que diz muito mais.”

Não só pelo que escrevem como pelo que não escrevem, em romances e cartas, parece estarem juntos, tal como observou Clarice, em carta ao amigo datada de 8 de janeiro de 1957: a propósito do romance Encontro marcado, reconhece “alguma coisa essencial que você pegou, e que me deu essa impressão de ‘estarmos todos no mesmo barco’”. Ao que Fernando responde, logo em seguida, no mesmo mês: “Nada melhor você poderia dizer do que descobrir afinidade entre meu livro e o seu.” E completa: “Enfim, estamos maduros…” E Clarice responde, em 27 de janeiro:

“O meu livro é uma ‘verdade’ minha, mas errei, e por covardia tornei dentro de mim uma ‘verdade apenas de arte’. Me escondi de mim o quanto pude. Sofri com ele e nele, mas não saí livre.” E conclui: “O livro que você escreveu pareceu me libertar mais do que o livro que eu própria escrevi. Eu não sei ‘me dar’. Você soube ‘se dar’.”

Essa história de correspondência não é só, pois, uma história de amizade, de profunda amizade. É também uma história de afinidade. Um se encontrando no outro ao compartilharem ideias, opiniões, sugestões, mediante diálogo respeitoso, profícuo, enquanto troca intelectual e sem assumirem ares de profissionalismo.

A carta de agradecimento de Clarice às sugestões que recebe terão efeito prático: refaz oitenta e três páginas do romance, dentre as mais de quatrocentas. E de Chevy Chase, perto de Washington, onde residia, envia as alterações ao amigo, para que ele as registre nos originais. Aliás, é esse amigo que, além de ler o romance e fazer sugestões, registra as alterações acatadas e enviadas pela amiga e ainda não mede esforços para conseguir um editor para o romance.

Entre amigos envolvidos por tamanha proximidade afetiva e intelectual, cabia também escrever cartas até sem se ter o que dizer. Um ano depois que Clarice parte para os Estados Unidos, Fernando Sabino lhe escreve carta datada de 8 de agosto de 1953 em que lhe comunica as providências que ele estaria tomando para que ela publicasse crônicas na revista Manchete, o que, na verdade, nessa ocasião, acaba não acontecendo. Ao iniciar a carta, afirma: “Infelizmente a carta que eu queria escrever a você não posso escrever.” E mais: “Eu não devia mandar esta carta. Tenho tanta coisa para lhe dizer.”

Fernando Sabino reluta em mandar a carta que, segundo seu entendimento, não traduz o que ele quer dizer. Também Clarice, cercada de neve, no inverno de Washington de 11 de janeiro de 1954, arrepende-se de escrever uma carta ao amigo e lhe conta, um tanto desesperada:

“Onde estava você? (…) Aonde você está, heim, Fernando? Que sensação engraçada: não sei se esta carta chega ou não, e gasto quase uma página para dizer isso.”

E acrescenta, finalmente:

“Nunca esqueci de um filme que vi há séculos, em que uma pessoa bota uma carta no correio e se arrepende e sai correndo atrás dos cavalos na neve e não consegue recuperar a carta.”

Cartas que não foram escritas. Cartas que foram escritas mas não deveriam ter sido enviadas – porque não se disse o que se queria ou porque se disse o que não se queria dizer. Cartas que foram enviadas, mas, depois de um arrependimento pelo envio, não foram recuperadas a tempo. Cartas que foram escritas, foram enviadas, em que se disse o que se queria dizer, mas não foram recebidas.

Como toda escrita, a carta, desenhada nesse vaivém da ausência, não foge ao jogo das disjunções entre o desejo e o que efetivamente se tem, entre o que se quer e o que se consegue ou não se consegue atingir.

É desse desencontro marcado que vem o elogio de Fernando Sabino a uma das cartas que lhe escreve Clarice Lispector. Depois de curto período no Brasil, de janeiro a setembro de 1954, ao voltar para os Estados Unidos com o marido, Clarice estranha que Fernando Sabino não tenha lhe telefonado, já que ela lhe pedira para não ir ao aeroporto. Por causa disso, ela lhe escreve logo após sua chegada em Washington, tentando desmanchar esse desconforto. E ele responde, em 19 de outubro de 1954, refutando as “complicações”, que “não são tolas, mas inúteis”, e afirma:

“Mas valeu o desencontro porque forçou uma carta tão boa que parecia uma carta de Mário de Andrade: isso é elogio.”

Logo em seguida, em carta de 25 de outubro, Clarice afirma: “Estou escrevendo pra você mas também não tenho nada o que dizer. Acho que é assim que pouco a pouco os velhos honestos terminam por não dizer nada. Mas o engraçado é que não tendo absolutamente nada o que dizer, dá uma vontade enorme de dizer. O quê? Quando não tenho o que dizer, fico com vontade de ‘passar a limpo’ tudo ou então de ‘apagar tudo’ e recomeçar, recomeçar a não ter o que dizer. (…) E assim é que, por não ter absolutamente nada o que dizer, até livro já escrevi, e você também. Até que a dignidade do silêncio venha, o que é frase muito bonitinha e me emociona civicamente.”

E num postscriptum, afirma, ainda ironicamente: “Com o maior tato e savoir-faire, informo-lhe que deve existir à venda nas boas casas do gênero algum ‘manual de perfeito correspondente’ e que ajuda muito nas missivas sobretudo quando não se tem o que dizer.”

Fica um mistério, algo não nominado, que lembra a observação de Richard Ellmann (o biógrafo de Joyce e Oscar Wilde): “O biógrafo moderno está ciente de que a carta é uma forma literária através da qual o escritor e o que recebe jogam um jogo de dissimulação e revelação. O que temos de ler na correspondência é o que não está escrito lá.” Abre-se a perspectiva para se considerar que na ficção o escritor mais abertamente se revela, livre de pressões interiorizadas.

Coincidentemente, tal afirmação nos remete à própria produção jornalística e ficcional de Clarice: quando não fala de si, parece falar; quando fala, parece sempre escapar do nosso alcance e nos ludibriar.

 

3. Olga Borelli

[Rio de Janeiro], 11 de dezembro de 1970

A carta que escreve para Olga Borelli em 11 de dezembro de 1970, publicada em 1979 na revista paulistana Polímica e em 1988 na revista madrilenha El Paseante, não leva o nome da destinatária. Por que essa omissão? De qualquer forma, é um dado imprevisto, uma exceção à regra desse tipo de gênero epistolográfico. Eis um primeiro imprevisto que encontramos nessa carta.

Numa primeira linha Clarice explica as circunstâncias em que escreve: “Datilografo esta carta porque minha letra anda péssima.” De fato, nessa época Clarice tem dificuldades de escrever tanto à mão quanto à máquina, em decorrência de um acidente ocorrido no seu apartamento, em 1966: dormiu com o cigarro aceso, tentou apagar o fogo com as mãos, ficou gravemente ferida e teve de fazer algumas cirurgias reparadoras.

Também por esse motivo, precisou recorrer à ajuda de pessoas justamente para secretariá-la no registro dos seus textos. Esse foi o papel que Olga desempenhou desde quando recebeu essa carta até o falecimento de Clarice, em 9 de dezembro de 1977.

Carta de Clarice a Olga Borelli, dezembro de 1970 (Arquivo Nádia Battella Gotlib)
Carta de Clarice a Olga Borelli, dezembro de 1970 (Arquivo Nádia Battella Gotlib)

O gesto inicial parte de Olga Borelli, que, depois de ver Clarice num programa de televisão, convida-a a autografar seus livros para crianças acolhidas na Fundação Romão de Matos Duarte. Clarice aceita. Em seguida Clarice convida Olga a ir ao seu apartamento. Ao lá chegar, segundo depoimento da própria Olga Borelli, Clarice lhe diz: “Entre. Sente-se.” E lhe entrega a carta, que deixa Olga muito surpresa. Mais um dado imprevisto, o segundo: entregar pessoalmente a carta ao destinatário.

E há mais outros dados que poderiam ser considerados imprevistos e que surgem no trecho seguinte da carta.

“Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. Você me quer como amiga mesmo assim?”

Ao dirigir-lhe o convite, tenta esboçar um autorretrato da intimidade pautado não na sua força, mas nas suas fraquezas. É o que aparece lindamente resumido na frase: “Não tenho qualidades, só tenho fragilidades.” Apontar para vícios e não virtudes poderia ser mais um dado imprevisto, caso não fosse Clarice a autora da carta. Pois aflora aí um dos traços marcantes da sua personalidade: a consciência da falta, da frustração, como elemento instigador da própria criação – de textos e de amizades. E depois de observação mais banal referente à acentuação de palavras do seu texto, feita não por ela própria, mas pelo tipógrafo, recai em dois pilares fortes: a esperança e a morte, além das qualidades da amiga.

“Mas às vezes (não repare na acentuação, quem acentua para mim é o tipógrafo) mas às vezes tenho esperança. A passagem da vida para a morte me assusta: é igual como nascer do ódio, que tem um objetivo e é limitado, para o amor que é ilimitado. Quando eu morrer (modo de dizer) espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte.”

E finaliza lembrando o dia do seu aniversário.

“Você foi o meu melhor presente de aniversário. Porque no dia 10, quinta-feira, era meu aniversário e ganhei de você o Menino Jesus que parece uma criança alegre brincando no seu berço tosco. Apesar de, sem você saber, ter me dado um presente de aniversário, continuo achando que o meu presente de aniversário foi você mesma aparecer, numa hora difícil, de grande solidão.”

Mas o final da carta revela mais uma surpresa, ou melhor, mais um dado referente ao imprevisto.

“Precisamos conversar. Acontece que eu achava que nada mais tinha jeito. Então vi o anúncio de uma água de colônia da Coty, chamada Imprevisto. O perfume é barato. Mas me serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. Você, por exemplo, não era prevista. E eu imprevistamente aceitei a tarde de autógrafos.

Sua,

Clarice”

Nesse final de carta não é só a ‘candidata a amiga’ que escreve. É a escritora que recorre a um simples perfume barato para traduzir com otimismo a possível surpresa de um ato que pode ter efeitos positivos.

Aliás, é o que acontece em muitas ações de personagens de sua ficção. No romance A paixão segundo G. H., a personagem G. H. acaba inusitadamente comendo o interior de uma barata e assim experimenta a selvageria da matéria ‘viva’ pulsando, de que todos nós, humanos e não humanos, somos feitos. E segundo depoimento da autora Clarice, ela também ficou surpresa com esse final, que surgiu inesperadamente. Imprevistamente.

A essa altura, a fragrância de um perfume traduz mais que uma sensação: revela uma poética, ou o modo como o artista é, ele próprio, flagrado pela sua arte. E como cultiva essa técnica, ao usar essa espécie de poção mágica que reativa os fluidos positivos do curso da vida.

Olga Borelli cumpriu o destino desejado por Clarice, pois acompanhou os últimos momentos de vida da amiga. E lhe fez homenagem digna, quatro anos depois da sua morte: publicou em 1981 o livro Clarice Lispector, esboço para um possível retrato, em que tenta registrar, segundo palavras da própria Olga no prefácio, a ‘trajetória espiritual’ de Clarice. Trata-se de uma primeira incursão na ‘vida da escritora’, que abriu perspectivas para se conhecer os seus hábitos – quando e como escrevia, o que pensava sobre vários assuntos, mediante depoimentos tanto de Clarice quanto de Olga a respeito de Clarice. E na parte final do livro incluiu cartas de Clarice às irmãs, pela primeira vez levadas a público. O livro ganhou edição francesa, em 2003, com o título de D’une vie à l’autre, com tradução de Marivonne Pettorelli e Véronique Basset. Esse livro constitui um marco histórico e merece ser reeditado em português.

Três cartas, três diferentes destinatários, em três diferentes décadas, com três diferentes propostas. Numa primeira, Clarice, em carta para a irmã Tania Kaufmann, anuncia seu projeto de vida: a literatura. E discute as relações entre literatura e vida. Numa segunda, Clarice, em carta para o amigo Fernando Sabino, acata as tantas sugestões que ele lhe faz sobre o seu romance A veia no pulso, que ganharia o título de A maçã no escuro. E discorrem sobre as cartas sem assunto. Numa terceira, Clarice envia convite para que uma determinada pessoa, Olga Borelli, se torne sua amiga. Discorre sobre a esperança e a morte. E anuncia um modo de se reagir diante de momentos difíceis, ao ser tocada pelo Imprevisto.

Entre irmãs, o pendor para a literatura, que aflora com ímpeto. Entre escritores, também amigos, a crítica que vem e que é bem recebida. Entre amigas, uma estratégia de ação positiva, enquanto lição de vida e procedimento poético.

Em todas elas, a presença da literatura, ora como um projeto de vida, ora como um exercício crítico, ora como uma estratégia de ação na rotina e na arte. É a força da vocação de escritora, que se revela em diferentes instâncias do seu repertório epistolográfico.


NÁDIA BATELLA GOTLIB é professora livre-docente da Usp, autora de Clarice, uma vida que se conta (Edusp) e Clarice fotobiografia (Edusp)

(1) Comentário

  1. considerando uma carta pessoal (mesmo que venha a falar de negócios) de uma autora, como Clarice, ou quem sabe Drummond entre outros. Sendo para mim Rilke o mais fácil de comprar e ler e demonstrar que um autor, um escritor por mais que tente não se separa do seu talento para escrever uma carta… Sei por mim, quando nem sabia o que era metáfora, qualquer bilhete tinha o ar do meu sonho de ser escritora, que vou insistir até o fim cada vez mais próximo (72) de mim…

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