Tire o seu “tudo bem?” do meu caminho

Tire o seu “tudo bem?” do meu caminho
(Arte Andreia Freire/ Revista CULT)

 

“Tudo bem?” – continuamos a perguntar isso a todas as pessoas que encontramos. Antes, durante e depois da conversa, seja ela mais longa ou brevíssima. Usamos essa perguntinha para interromper uma conversa, para iniciar outra. Poucas vezes buscamos realmente saber se está “tudo bem” – ou “tudo bem” – com nosso interlocutor, por mais que a ênfase numa das palavras possa levar a engano, por mais que muitas vezes já saibamos o que vai bem e o que vai mal por aí.

Já virou quase um vício, algo incontrolável, um cacoete. Mesmo quando nossa razão diria que não faz sentido perguntar “tudo bem?”, num velório, no corredor tenso do hospital ou aguardando a polícia chegar após alguma ocorrência, tascamos um “tudo bem?” para cada pessoa que chega perto. Está lá a pessoa, imersa no seu sofrimento, e chegamos como quem não sabe do que se trata: “tudo bem?”

Lembro sempre da forma como um amigo costuma (ou costumava?) responder a essa perguntinha: “tudo é um exagero”. É uma forma estranha, mas justamente por isso bem eficiente de desarmar a pergunta e sair com algum riso dessa situação. Mas há também aqueles que levam a pergunta a sério e começam a enumerar o que vai bem e o que vai mal, os sucessos e os fracassos, as vitórias e as derrotas todas.

É destes que quero falar, porque, nos últimos tempos, dramáticos e pesados, a pergunta “tudo bem?” vem assumindo essa função de questão profunda, grave, quase humanitária, como se, ao final do “tudo bem…”, tivéssemos colocado um reforço: “tudo bem mesmo?”. Quem pergunta, agora, pesa a voz ao lançar um “tudo bem?” e, de outro lado, quem responde também se sente instado a levar a pergunta a sério. E, de repente, aquela perguntinha, que podia ser dita sem cuidado e tantas vezes ouvida sem atenção, mostra-se capaz de disparar conversas nada amenas sobre a vida.

Claro, essa função é bem mais complexa do que a de saudação-indagação superficial, pela qual demonstramos alguma preocupação com o bem-estar do nosso interlocutor. Agora, mesmo quando dita sem tanto peso, a perguntinha escava nossas angústias diante dos desafios individuais e coletivos que se avolumam.

Por exemplo, você encontra um amigo saindo do barbeiro e lança um “tudo bem?” cordial. E então ele começa a contar que vai mudar de barbeiro, depois de anos, porque o atual passou todo o tempo falando sobre as armas que pretende comprar, para ele e sua esposa, agora que “o Bolsonaro ganhou”, além de reclamar do tamanho da fila para fazer o procedimento exigido pela Polícia Federal… De fato, não está tudo bem para ele, não está tudo bem para nós, porque lembramos que, aqui bem perto do nosso corpo, todos os caras do bairro que você sabe que vão querer comprar armas são justamente aqueles que jamais deveriam ter uma arma nas mãos.

E também não está tudo bem para um outro amigo, que passou a levar marmita para o trabalho porque, nas redondezas do escritório, os restaurantes insistem em deixar a TV ligada, com o volume alto, para temperar a comida com a cara, o nome, as “ideias” e a voz do novo presidente. Aliás, sabemos que não está tudo bem quando reparamos no nome que é dito na sequência de “o presidente eleito”…

É por isso que, quando alguém dirige a você um “tudo bem?”, sua cabeça logo começa a buscar algo que sustente uma resposta simpática ou leva a outro assunto, mas inevitavelmente a memória castiga, por exemplo, jogando luz sobre a existência de um vizinho médico, garoto ainda, que alterna o uso do jaleco branquinho e da camiseta preta com a cara do Bolsonaro, e então você engasga. Você lembra das vezes em que algum amigo ou conhecido disse “mas o Bolsonaro tem razão quanto a…” (complete com o que quiser, será sempre um erro), e engasga mais ainda. Você lembra da entrevista do filho do presidente que vê comunismo por todos os lados – e já é mais que difícil responder ao “tudo bem?” sem dizer “como assim?”.

Quem pergunta “tudo bem?” não tem culpa, é claro. Talvez não saiba que, com essas poucas palavras seguidas de um sinal de interrogação, vai disparar um processo violento da consciência que, apenas no campo político brasileiro, traz à tona os diálogos de Sérgio Machado e Romero Jucá, Michel Temer e Joesley Batista, os discursos todos da votação do golpe contra Dilma Rousseff, Rocha Loures correndo com uma mala de dinheiro, o apartamento-cofre de Geddel Vieira Lima, as decisões teratológicas (juristas adoram essa palavra) dos nossos tribunais, os debates sobre o triplex e o sítio de Lula, a prisão de Lula e a ginástica dos juízes para mantê-la, Aécio, Serra e todos os tucanos que riem soltos das acusações que pesam contra eles, a vitória de Bolsonaro com quase 58 milhões de votos, os tuítes de Bolsonaro, os ministros de Bolsonaro, os filhos de Bolsonaro, os aliados de Bolsonaro, Paulo Guedes, Janaína Paschoal, Alexandre Frota, Sérgio Moro, Maitê Proença, Olavo de Carvalho, os generais e coronéis todos, o chanceler que é “trumpista convicto”, e por aí vai nosso tormento.

No meio dessa avalanche, perguntar “tudo bem?” é quase uma crueldade, uma covardia, uma forma de tortura, ainda que involuntária. Amigos que já perceberam isso passaram a se cumprimentar sem interrogações, dizendo apenas “tá foda”, a que se seguem variações como “vai ser foda” e, mais triste ainda, “vai foder tudo”. E não pense o leitor que isso resulta de algum conformismo com a situação. Pelo contrário, é assim que se afirma, quero crer, a solidariedade que pode muito bem ser o ponto de partida, de união, para resistirmos ao que nos impede de dizer “tudo bem”.

Ouvindo esse “tá foda” por todos os lados, é impossível impedir a memória de ir até aquele texto em que Nuno Ramos, já em 2014, cravou: “suspeito que estamos fodidos”. Ou ainda antes, em 2008, ao poema de Reynaldo Damazio que radicaliza a conversa travada de “Sinal fechado” (Paulinho da Viola, 1969): “tá foda, mano/ é, tá foda/ tá muito foda/ é, muito/ tá foda pra caralho/ é, fodeu mesmo/ mano, tá muito foda pra caralho/ é, encaralhou de vez” (“Entropia”, no livro Horas perplexas).

Poetas são antenas, como um outro poeta já disse, antenas muito sensíveis, capazes de pegar no ar do futuro o que vai nos abater num dia qualquer, por isso era tão difícil, para tanta gente, reconhecer em 2014 – e ainda mais, muito mais, em 2008 – que esses poetas tinham razão no diagnóstico. Hoje, na transição tenebrosa de um 2018 de derrotas para um 2019 que não deve ser nada melhor, ainda deve existir quem considere que esses poetas e tantos outros exageraram. Devem ser as mesmas pessoas que ainda não se sentem constrangidas ao ouvir um “tudo bem?”. Ainda.


> Leia a coluna de Tarso de Melo, quinzenalmente, às terças, no site da CULT

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