A rebelião pela delicadeza
Edição do mês
Fabiane Secches, autora do romance ‘Ilhas suspensas’ (camila svenson)
Há várias formas de se fazer uma rebelião. Para Mariana, a protagonista do romance Ilhas suspensas – de Fabiane Secches, publicado pela Companhia das Letras –, a trilha é áspera, escarpada e reflexiva. Mariana deixou o Brasil, mudando-se com o marido e o cão Quincas para um país do Hemisfério Norte de idioma impenetrável (tudo indica uma língua germânica falada em algum ponto da Europa), migração que ocorre após duras perdas: a morte de sua mãe e de sua sobrinha de dois anos. Aos poucos, depois de várias tentativas de engravidar, algumas por meio de fertilizações in vitro (com matizes de crueldade), a protagonista irá se despedir do plano da maternidade.
Uma depressão se apresenta, engolindo parte de sua vida. A vizinhança estrangeira até parece amigável, mas a língua ali falada é uma pedreira de encontros consonantais (a princípio, intransponíveis); as palavras são como lanças – “o corpo e suas sensações, o mundo e seus nomes impossíveis”. Longe da língua materna, Mariana depara com mais uma fronteira. Imaginados como possível saída, o contato com o mundo e a língua estrangeiros causa outro choque, um estranhamento que exigirá novos arranjos e laços. Estamos no território da pulsão de morte.
O casamento com um parceiro afetuoso, a bonita amizade com o cão Quincas e os trabalhos com literatura e biologia formam uma primeira frente de cuidado consigo mesma: são apostas na vida. Às voltas com ideias de escritoras a respeito da maternidade e da relação humana com a própria existência e com outros seres
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