Quem tem medo de Simone de Beauvoir

Quem tem medo de Simone de Beauvoir
A filósofa francesa Simone de Beauvoir (Sipa Press/Rex Feature)

 

Se hoje em dia fizéssemos uma resenha de O segundo sexo, livro publicado por Simone de Beauvoir em 1949, portanto, há mais de sessenta anos, ainda estaríamos sendo atuais.

Há quem goste de dizer que O segundo sexo é um livro ultrapassado. Podemos nos perguntar, ultrapassado para quem? Certamente não para o Brasil, infelizmente, atrasado em tudo o que mais importa relativamente a gênero: questões como legalização do aborto, equiparação salarial e, em um nível cotidiano, a desigualdade doméstica que faz pesar em escala privada as naturalizações gritantes na escala pública.

O Brasil está afundando cada vez mais no obscurantismo no que tange ao tema gênero, sobretudo quando surgem fatos como a retirada do assunto das metas da educação nacional. Raça e classe social também são temas que precisam ser mantidos longe para a manutenção da miséria da educação brasileira que contribui, por sua própria inanição, para uma cultura cada vez mais empobrecida no que se refere à reflexão que, na base de tudo, poderia orientar ações em outra direção. Ora, fazer feminismo hoje implica perceber os arranjos da dominação de gênero e todas as demais formas de dominação.

Neste cenário, o conteúdo de O segundo sexo assusta. Salvo exceções, as feministas comprometidas com a teoria para o qual o livro é um clássico, ninguém leu as duas mais de quinhentas páginas. Dizer que é um clássico também pode ser pouco profícuo. Seria melhor que as pessoas tratassem O segundo sexo como auto-ajuda ou até como bula de remédio, perdessem o medo de Simone de Beauvoir, e o lessem de uma vez em favor da cultura.

Ele deveria ser lido não por feministas apenas, mas por mulheres, homens e todos as pessoas que, de um modo ou de outro, estão marcados pela questão de gênero, porque se trata de um livro básico, que nos ensina a pensar sobre as desigualdades e privilégios de gênero, aqueles que experimentamos como os mais naturais sem perceber como nos marcam. Em palavras bem simples: quem nunca se sentiu incomodada por ser “marcada” como mulher antes de ser uma pessoa como qualquer outra?

O livro de Simone de Beauvoir foi fundamental para colocar os pingos nos is dessa questão. Se o feminismo sempre foi a teoria que buscou legitimar a reivindicação de direitos para as mulheres, com Simone de Beauvoir ele se tornou a consciência crítica e, ao mesmo tempo, transformadora da desigualdade de gênero. A frase “ninguém nasce mulher, mas se torna” desmascara a invenção histórica que fez padecer “homens” e “mulheres” sob estereótipos em nada relacionados à sua auto-compreensão subjetiva. Com essa ideia começa o que muitos chamam de “segunda onda” do feminismo caracterizada justamente pela desmontagem da questão de gênero.

Quem defende ou elogia hoje a teoria queer, que realmente é uma teoria riquíssima, não se dá conta de que no Brasil não chegamos nem à básica teoria feminista de Simone de Beauvoir, que questiona a condição feminina que permanece naturalizada entre nós nos estratos mais fundamentais da cultura. A naturalização é o que experimentamos no dia a dia quando vivemos dentro do binarismo “homem-mulher” considerando todas as formas que não se encaixem nesse padrão heterossexual como inadequadas, senão como um erro da natureza. No que concerne ao gênero, isso implica divisão do trabalho, dentro e fora de casa, e um sistema de preconceitos que converge com os privilégios masculinos.

Simone de Beauvoir aposta na crítica do patriarcado enquanto analisa sua história e mais ainda, ela aposta na autocrítica da condição feminina e se afasta, por meio dela, da vitimização com que as mulheres, camuflando uma fragilidade totalmente fictícia, se protegeram dos homens. A vitimização é muitas vezes a estratégia de certos feminismos que não percebem sua armadilha enquanto, ao mesmo tempo, reproduzem o patriarcado por meio de sua sustentação.

Com isso, Beauvoir não quer dizer que não existam vítimas, mas que a vítima feminina é forjada dentro do patriarcado. E que as posturas que não a superam, reproduzem aquilo que gostariam de negar. Assim, a diferença entre uma vítima concreta e aquilo que podemos chamar de vítima ideológica, o sujeito da proscrição, precisa ser desfeita, pois essa estrutura acaba por se reproduzir simbolicamente fazendo repetir-se o próprio sistema em que é gerada. Para citar outros feministas, aqueles que publicaram a “Dialética do Esclarecimento” dois anos antes de O segundo sexo, o proscrito desperta o desejo de proscrever. Em palavras mais simples: uma mulher frágil desperta o desejo de fragilizar. Um vítima em potencial é um convite para a agressão. Por isso, cabe perguntar com Simone de Beauvoir, como a mulher faz o aprendizado da condição de frágil e de vítima? Se uma resposta já não pode se sustentar do ponto de vista da “natureza”, que cultura é essa que a inventa?

O que se ganha é a manutenção do poder na mão de homens, mas não só, na mão de todos aqueles que pregam a moral-violência machista contra a qual devemos sustentar uma ético-política feminista que inclua todos as pessoas em um cenário de direitos e de respeito à singularidade para além de marcações.

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