Pisar suavemente na terra: um relato

Pisar suavemente na terra: um relato

 

Estávamos na BR 155 (Bruno Malheiro, Bruno Erlan e este que vos escreve), há alguns quilômetros de seu cruzamento com a Transamazônica e um frigorífico anunciava a entrada em um mundo feito de sol e pasto. Logo, os dois lados da rodovia seriam tomados de enormes fazendas. A aridez do ambiente era embrulhada de um calor permanente em uma paisagem febril. Alguns quilômetros mais adiante, avistamos uma bela castanheira, árvore testemunho esquecida pela história bem no meio do pasto, e, ali, a exuberância elegante de sua presença ancestral fazia com que alguns bois se apertassem para tentar um lugar à sombra.

As cores da cena nos convidaram a parar o carro no único lugar com acostamento na rodovia, bem próximo à entrada de uma fazenda. Tiramos o drone da maleta, começamos a guiá-lo em direção à árvore. Antes mesmo dele ganhar altitude para fazer seu voo em busca da cena, um carro, que iria entrar na fazenda, ao nos avistar ali, para. O motorista nos olha fixamente por longos segundos. Sem saber o que fazer, pousamos o drone às pressas. Em tudo, naquele momento, víamos um signo de ameaça. Na região da Amazônia em que mais se matam lideranças e defensores dos direitos humanos e da natureza, um carro parado na sua frente pode significar muito mais que um olhar intimidador. Não gravamos a cena, mas sentimos que precisávamos contar aquela e outras histórias de uma Amazônia que padece com um projeto de morte produtor de fogo, fumaça, contaminação e sangue.

A pecuária extensiva, que abastece o frigorífico que avistamos no início daquela estrada, além de um sem-número de outros espalhados pela região do sul e sudeste do Pará, tem cada vez mais se interiorizado pelos rincões da Amazônia e alargado o desmatamento e os focos de incêndio. Mesmo assim, estamos na Amazônia e a vida da floresta ainda conclama os vivos para uma dança contra essa festa da ganância e destruição. Há alguns quilômetros distante daquela castanheira-testemunho, fomos ao encontro de um povo parente dos castanhais da região. De uma das terras indígenas mais impactadas do Brasil, que se impõe floresta entre fazendas de gado, linhões de transmissão de energia, ferrovias e estradas, floresce como rosa uma história que exige ser contada: a história da cacique do povo Akrãntikatêgê, Kátia Silene, que tantos a querem em silêncio, mas cuja voz continua a vibrar com a força de criar raízes. Kátia enfrenta em seu cotidiano a empresa Vale, que lucrou, nos três primeiros meses de 2021, em plena segunda onda do novo coronavírus em todo o Brasil, US$ 5,546 bilhões, um valor 2.220% maior do que o obtido no mesmo período do ano anterior. Um lucro seguido de morte que não intimida a cacique. Cada palavra dita por ela alargava nossas maneiras de sentir o mundo.

Foi pelos territórios Munduruku, nos entornos de Santarém, ainda na Amazônia brasileira, que novamente seríamos apresentados à tensão cotidiana de quem insiste em produzir vida na Amazônia. Depois de muito debater sobre se iríamos ou não avistar a última derrubada, pois a intimidação na região é palpável, por volta da 1:00 da manhã, decidimos que tínhamos que enfrentar os perigos e ir. Dormimos algumas horas e por um caminho alternativo chegamos à área recém-desmatada. A situação era tão tensa que nossos guias, os filhos dessa terra, receosos do pior, permaneceram no carro. O carpete de neblina matinal escondia os rastros de destruição que logo se dissiparia com os raios de sol. Estávamos numa parte do território indígena invadida por sojeiros. Sabíamos que a área plantada de soja no Brasil cresceu 166,5% entre 1999 e 2018 e que a soja, assim como o minério de ferro e outras commodities, atravessou as escolhas econômicas dos últimos governos na América Latina, não importando muito o espectro político. Entretanto, aquilo que a estatística aponta nem se aproxima da violência real vivida por quem está no caminho dessa expansão. Poucas horas tinham se passado desde que os tratores arrastaram uma imensa área de floresta para o chão e o cheiro da mata derrubada ainda tomava o ambiente – assim como o medo. Ninguém se sentia seguro para sair do carro, mas a urgência da cena, de seu registro, se impunha ao medo. O encontro com a floresta no chão, e com o semblante taciturno de quem não se sente seguro em seu próprio território, nos tomou da mesma sensação que sentimos quando olhamos os olhos do motorista que parou na nossa frente, naquela outra estrada. Ainda assim, sabíamos que era imperativo contar essa história.

Dali, daquele clima de tensão, outro personagem se apresentaria. Essa história será contada por um cacique que ainda teima em resistir diante das ameaças e invasões ao seu território, o Cacique Manoel do povo Munduruku.

Mas as taxas de desmatamento, os números de focos de incêndio, bem como a expansão dos monocultivos e da mineração, não se aceleram apenas na Amazônia brasileira. Os rios contaminados com resíduos de atividades econômicas, como o garimpo, também não se restringem à realidade de um país cujo governo incentiva o saque de matéria e energia, ao mesmo tempo em que corrói todas as garantias legais que ainda sustentam alguma segurança aos povos e às comunidades tradicionais – bem como às áreas de proteção ambiental. O capitalismo como uma guerra aos povos amazônicos é também um projeto de distintos governos que incentivam a barbárie capitalista na região, seja no Brasil, seja no Peru, na Bolívia, no Equador, na Venezuela, nas Guianas, no Suriname ou na Colômbia, para falar dos Estados que impõem fronteiras ao bioma amazônico.

Percorremos alguns desses países, palmilhamos entre as fronteiras inventadas por Estados Nacionais, conhecemos povos e nacionalidades indígenas que não se circunscreviam aos recortes coloniais. A ancestralidade amazônica se conecta por tantas formas, nossas histórias se enredam em tantas tramas, que o Estado passa a ser, pelas bandas de cá, uma invenção grosseira de um projeto grotesco e exclusivista, que sempre ignorou as outras possibilidades de ser dos povos originários. Talvez por isso, a violenta expansão capitalista na Amazônia sempre encontre respaldo dos Estados. A maior conexão real entre tantos povos, culturas e comunidades não é nenhum Estado, mas sim o rio Amazonas. E foi pelos meandros desse rio que chegamos a uma imagem amazônica bastante comum, mas que se anunciaria como uma terceira história necessária de ser contada. Já pelas bandas do Peru, conhecíamos um afluente do Amazonas, o rio Nanay e uma cidade erguida por sobre ele: Iquitos. O rio Nanay é fonte provedora das águas da cidade de Iquitos, mas o garimpo, assim como em tantas outras realidades amazônicas, e a atividade petroleira, parecem não se importar em nada com isso. Desse cenário, na proa de um barco, José Manuyama, el hombre del agua descendente Kukama e membro do Comitê de Defesa da Água em Iquitos, se ergue como uma personagem que nos conta sua história e nos faz repensar a nossa, com seus saberes nutridos da vida do rio.

Os rabiscos no papel ganhavam contornos reais com as expressões de personagens que enfrentam a barbárie capitalista na Amazônia. Ainda assim, não há como percorrer esses territórios sem, em algum momento, nos encontrarmos com quem há 40 anos conta tantas histórias amazônicas pelas ondas do rádio: a radialista Mara Régia. Por isso, a força da sua voz nos guiará nessa narrativa.

Feitas as filmagens, entre o Peru, a Colômbia e o Brasil, entre Santarém e Marabá, entre Iquitos e São Paulo, onde se inicia a edição, por um bom tempo, um hiato preencheria de incertezas o projeto de fazer esse filme: parecia que ainda faltava algo… Tínhamos a exata noção de que estávamos diante de personagens que enfrentam o sistema de morte e destruição que é o capitalismo na Amazônia. Possuíamos a exata noção da potência de sentido de cada voz, mas começamos, então, a mudar os termos e a profundidade disso tudo. Precisamos ouvir mais que falar, sentir mais que definir.

Em realidade, estávamos diante de histórias indígenas que adiavam o fim do mundo. Essa parecia ser a noção mais bela para a força que nos movia. Talvez, por isso, logo encontraríamos o pensamento de Ailton Krenak e sua voz soaria doce aos nossos ouvidos cheios de incertezas. Como um eco ancestral, seu modo de pensar foi delineando um passo importante do filme: falamos de três diferentes Amazônias, de três histórias de guerra, mas nossos personagens não se definem apenas pelos termos daqueles que querem invadir seus territórios. São mais que isso, muito mais que isso. Cada um e cada uma ao seu modo oferecem horizontes alternativos de saída ao caos sistêmico que vivemos. Suas ancestralidades apontam um jeito diferente de ver o mundo, um modo particular de sentir e pensar com a terra. Por suas próprias vozes e seus corpos-território, cada personagem convida o expectador para um giro de perspectivas, para ver vida onde geralmente não se vê, para escutar vozes, de onde geralmente nada se ouve, para sentir as sensações de pisar suavemente a terra, experiências que o concreto das cidades, e das horas, tem retirado de nossas vidas.

Caminhos diferentes se encontram, mundos distintos se aproximam e formam uma história que precisa alcançar-nos. O indígena Kukama (José Manuyama), que vive na Amazônia peruana, nas proximidades da cidade de Iquitos, à beira do rio Nanay, rio contaminado pelo garimpo e pela atividade petroleira. O cacique Munduruku (Manoel), confinado em seu próprio território ancestral, no oeste do estado do Pará, no Brasil, pela expansão vertiginosa do monocultivo de soja. A cacique do povo Akrãntikatêgê (Kátia), da terra indígena Mãe Maria, localizada nas proximidades da cidade de Marabá, também no Pará, na Amazônia brasileira, em um território cortado pela mineração, por estradas e por linhas de transmissão de energia. Cada um e cada uma são protagonistas de outras histórias possíveis para um mundo anestesiado por uma história única.

Por tudo isso, Pisar suavemente na terra não pretende apenas ser um alerta sobre a história capitalista da guerra aos povos amazônicos que, nesse momento, assume seu capítulo mais assustador. O filme pretende mais que isso! Quer fazer falar outros horizontes de sentido à vida, horizontes protagonizados por povos que, ainda no presente, carregam uma ancestralidade capaz de nos mostrar formas de ser e estar no mundo completamente distintas daquelas que escolhemos como sociedade ocidental, e que estão nos levando às ruínas. Mais que denunciar, o filme anuncia, pois se arvora a colocar no centro das nossas formas de pensar aqueles e aquelas que historicamente foram empurrados para as bordas do pensamento. São os povos indígenas os protagonistas de um futuro possível, pois, como diria Krenak, o futuro é ancestral e precisamos aprender com ele a pisar suavemente na terra.

 

Pisar suavemente na terra
Direção e Produção: Marcos Colón
Roteiro: Bruno Malheiro & Marcos Colón
Com Katia Silene Akrãtikatêjê, Mara Régia, Manoel Muduruku, José Manuyama e Ailton Krenak
Fotografia: Bruno Erlan & Marcos Colón
Coprodução: Amazônia Latitude Films
Duração: 75 minutos
Estreia: Novembro/2021

 

 

Marcos Colón coordena o Programa de Português no Departamento de Línguas Modernas e Linguística da Universidade Estadual da Florida e é diretor do documentário Beyond Fordlândia. Doutor em Estudos Culturais pela Universidade de Wisconsin-Madison.


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