Paul Preciado, pornografia e história

Paul Preciado, pornografia e história

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Certamente existem muitas abordagens possíveis sobre o que vem a ser pornografia.  A maioria delas imbuída de uma infinidade de paixões morais, reduzindo a discussão ao maniqueísmo do contra ou a favor. Nesse debate apaixonado, as posições favoráveis à pornografia são maldosamente transformadas em uma defesa da indústria pornográfica, da exploração de menores e do tráfico de mulheres, fazendo parecer que defender a pornografia significa o mesmo que defender tais atos. Nada mais desonesto do que isso.

Justamente, pelo fato de haver muita ignorância sobre a pornografia como linguagem, decidi dedicar minha coluna desta semana ao tema, tentando situar o debate não na indústria, mas na compreensão do que chamamos de pornografia e como essa “categoria” vem se transformando ao longo dos anos.

A pornografia é uma pedagogia sobre o corpo e o sexo. A massificação de conteúdos pornográficos modificou e segue modificando drasticamente a forma como o corpo, o sexo e o prazer são compreendidos, vividos e praticados.

O discurso da pornografia – seja em revistas, filmes ou XVideos – não se limita a reproduzir/expor/encenar o sexo. Ele cria, inventa e produz subjetividades e uma cartografia sobre o corpo. Onde colocar o quê. Como estimular isso ou aquilo. Como é esse ou aquele órgão e como deve ser utilizado.

Um pouco de história

Segundo Preciado, o termo “pornografia” era usado na Grécia antiga com o significado “registro da vida das prostitutas”, um instrumento confessional e de controle. No século 19, o termo é usado para nomear o local onde estava guardada parte das ruínas de Pompéia, consideradas impróprias para a exposição no Museu de Nápoles. Pornografia nomeava o que chamavam de “Museu Secreto”, cujo acervo poderia ser acessado apenas por homens nobres.

De partida, a noção de pornografia (muitíssimo diferente da que utilizamos hoje) diz respeito ao que não deveria ser acessado por todos e nem exposto ao público. É o espaço do secreto. A separação entre quem pode acessar o secreto da pornografia e quem não pode é marcada por diferenças de classe, raça, gênero e sexualidade.

Ainda nessa pornografia-museu, acessada apenas por homens nobres, uma diferença sobre se instala: o gozo público da possibilidade do prazer e de seus regimes de visibilidade anuncia o que Preciado chama de “política-orgástica” – qual corpo tem prazer em público e quais corpos não?

Ao longo do século 19 os sentidos da pornografia se modificam e passam a compor o discurso da higiene. Há pornógrafos e tratados médicos pornográficos, que consistiam em descrições da vida e dos hábitos das prostitutas e das formas de manter a higiene. Era, nesse sentido, uma forma de limpar o lixo social e de regular a sexualidade das mulheres no espaço público (das prostitutas).

A invenção da fotografia e do cinema dá ao registro do sexo outros sentidos, e os primeiros filmes “para solteiros” são produzidos. Películas curtas, já como estímulo audiovisual para o prazer sexual, de acesso restrito aos homens, obviamente. A pornografia como imagem-movimento e representação era, nesse momento, inseparável do uso médico-clínico desses mesmos instrumentos. Ela coincide com a invenção das patologias homossexuais, fetichistas, sadomasoquistas, histéricas. A medicina, ainda segundo Preciado, revela a verdade do sexo pela imagem e registro; a pornografia revela a verdade (e a normalidade ou os desvios) do prazer. Linda Willians chama a pornografia de uma técnica de confissão involuntária, revelando o desejo.

O avanço tecnológico, a comercialização do desejo, as transformações no capital e a vida social impactam certamente as formas de acesso e de produção do estímulo audiovisual e imagético do prazer sexual. Em Pornotopia, o filósofo queer Paul Preciado, pesquisando o surgimento e a ascensão da revista Playboy, propõe a existência de um corte na pornografia, pois, pela primeira vez, ela invade o lar das pessoas: há revistas no banheiro, na gaveta da escrivaninha do pai, debaixo da cama do filho adolescente. Ela segue sendo um segredo, uma prática por todos conhecida, mas por ninguém mencionada e, ainda assim, majoritariamente masculina.

A pornografia é produzida e produz corpo e subjetividade, expectativas, relações. Prepara para uma certa forma de sexo. Se antes a sexualidade era alvo de controle e, em seguida, uma técnica da verdade do sexo (a scientia sexualis de Foucault), com a pornografia o controle sobre a sexualidade, o sexo e o corpo se dá na própria captura das possibilidades de desejo. É na proliferação e na liberdade que as relações de poder constituem controle.

As formas anormais ou tomadas como patológicas (oficialmente ou não) do desejo são, de partida, pornográficas, porque não deveriam compor o universo imagético no qual se apresentam. Em “Testo Junkie”, Preciado chama a atenção para como a pornografia, do ponto de vista dos corpos desviantes, é uma forma de continuação das feiras freak e shows de horror. Contudo, como técnica e linguagem, a pornografia diz respeito à capacidade de certa imagem de provocar excitação, o poder de uma imagem de produzir corpo, de se incorporar.

Diferentemente do que apregoa o senso comum, a pornografia não é própria apenas das imagens de sexo ou nudez explícitas, ela opera em toda a cadeia de trocas e fluxos de imagens no nosso tempo. As dancinhas do TikTok e os comerciais de comida operam na lógica do pornopoder – a exploração de nossa capacidade orgásmica (o que Preciado nomeou de potentia gaudendi).

Obviamente existem problemas em torno da indústria pornográfica, da violência contra as atrizes e a ausência de proteções trabalhistas e de saúde. Há ainda, no que diz respeito a pornografia amadora, o risco de revenge porn, mas nada disso é componente sine qua non da pornografia. As discussões do pós-pornô empreendidas por Sam Bourcier e Maria Llopis revelam a possibilidade de construir outros campos de enunciação valendo-se de elementos da pornografia. Erika Lust, a pornógrafa, também tentou construir uma linguagem outra de pornografia. Penso que se trata muito mais de nos apropriarmos dessa linguagem e construir com ela outras narrativas que não aquelas da violência.

Quem define o que é pornografia?

Vocês lembram quando, em 2019, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o Bispo Marcelo Crivella, então Prefeito da cidade do Rio de Janeiro, tentou proibir uma história em quadrinhos da Marvel, devido ao beijo entre dois personagens homens, um “beijo gay”. O argumento de Crivella era o de que se tratava de “pornografia” e, portanto, um conteúdo impróprio para aquela Bienal.

Com base em que ele fez esta afirmação? Em sua própria homofobia. Quando relegamos ao Estado “patriarcal e homofóbico” o poder de determinar o que é pornografia e de proibi-la, abrimos espaço para situações como essa: tudo aquilo que escapar da norma será tomado por pornografia.

Helena Vieira é escritora, dramaturga, transfeminista e colunusta da Cult.


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