Pai nosso que… estais no congresso?

Pai nosso que… estais no congresso?

 

No dia 17 de setembro de 2025, o plenário do Congresso Nacional assistiu a uma cena grotesca: deputados, recém-saídos da aprovação da chamada PEC da Blindagem, de mãos erguidas, entoaram em coro o Pai-Nosso. A imagem, transmitida em tempo real, buscava dar ares de bênção ao que, na essência, constitui-se como uma engenharia jurídico-religiosa de autoproteção. Tal ato de teologia política performada é antes de tudo, deformada, pois distorce a oração mais emblemática do cristianismo e demonstra que a mesma foi sequestrada como escudo contra, vejam só, a justiça. O episódio está longe de ser novo, mas ecoa um padrão histórico: quando a política brasileira se vê em crise, a fé é instrumentalizada. Do “Deus acima de tudo” do bolsonarismo à profusão de citações religiosas no impeachment de 2016, passando pela retórica messiânica da ditadura de 1964, a religião tem sido repetidamente mobilizada para legitimar o ilegítimo. O último evento em questão, porém, trouxe algo particularmente perverso no uso do Pai-Nosso: Uma oração cuja radicalidade é libertária, seja ela lida em chave sincrônica e diacrônica, tornou-se a antítese da autopreservação de elites.

Não é difícil desmantelar a lógica perversa dos falsos-cristos sem cruz e com gravata: a construção da linguagem nos ajuda e trecho a trecho, cai-se por terra a falácia: “Pai nosso”, que no plural, dissolve privilégios. Note que não é o “meu Pai”, objeto privado de corporações políticas, mas o Pai de uma comunidade de destino, como lembrava o pai da teologia da libertação, Gustavo Gutiérrez. É exatamente a negação das castas religiosas e parlamentares, jamais sua legitimização. Quando deputados em assembleia legislativa recitam esse pronome, o som reverbera como denúncia: não se trata do nosso que inclui a todos, mas de um pai de poucos. Todos se achando, filho-único. O “Santificado seja o teu nome” exige coerência ética, jamais banalidade moral. Invocar Deus sobre um arranjo que fere o princípio republicano da igualdade perante a lei é tomar o nome divino em vão, justamente o que a tradição bíblica mais condena. A santidade em chave profética, não blinda poderosos, mas expõe estruturas injustas. O “Venha o teu Reino” não é carta branca para mandatos vitalícios ou para a imunidade seletiva. Reino de Deus nos evangelhos é pão para os pobres, liberdade para os cativos, reparação para os feridos. Vincular esse pedido ao gesto de blindagem é reduzir o conceito de Reino a um condado repleto de foro privilegiado. Aqui se cumpre o diagnóstico de Metz (1968): o cristianismo domesticado, convertido em religião civil, neutraliza a memória perigosa de Jesus.

Quando se pede “o pão nosso de cada dia”, é a partilha que se exige. Nenhum acúmulo contra a mesa comum, nenhuma política que favoreça apenas os já favorecidos. E no entanto, a mesma boca que pronuncia essa súplica sustenta a desigualdade como programa. A oração é convertida em retórica de ocasião e já se sabe entre crentes e descresntes: fé sem obras, é pura fraseologia. O “Perdoa as nossas dívidas” em nada tem que ver com anistia preventiva. Perdão não é blindagem, mas metanoia, recomeço e reparação. O que se encenou no plenário foi o avesso: absolvição antes mesmo que existisse qualquer arrependimento. Um perdão antecipado para crimes ainda em gestação. Em linguagem de Ellacuría (1990), trata-se da perversão do perdão em mecanismo de manutenção do pecado estrutural.

Nos encaminhando para o fim da oração, o “Não nos deixes cair em tentação” soa como ironia cruel quando recitado exatamente no momento em que se institucionaliza a tentação do privilégio. A súplica por livramento do mal é deformada em pedido de proteção contra as consequências do mal. A oração contra o mal é o mal político em si e o contrassenso é perverso: não livra do pecado, mas livra os orantes do plenário da justiça.

A cena parlamentar confirma a advertência de Marx: a religião pode ser suspiro do oprimido, mas também ópio que anestesia. No 17 de setembro, vimos o segundo uso: a fé como narcótico simbólico que legitima a ordem injusta. No entanto, a história da teologia latino-americana mostrou o contrário: religião pode sim ser ferramenta e fermento de libertação, como nas Comunidades Eclesiais de Base. O que diferencia ópio de fermento? A práxis. Fé que gera justiça é libertadora; fé como biombo é instrumento de opressão.

O Brasil conhece esse roteiro. Em 1964, as Marchas da Família com Deus pela Liberdade sacralizaram o golpe. Em 2016, o nome de Deus foi repetido à exaustão na sessão do impeachment, como véu para um processo de exceção. Entre 2019 e 2022, o bolsonarismo elevou a fusão entre palanque e altar à condição de método de governo, com o slogan “Deus acima de todos” e performances messiânicas que mesclavam fé com marketing. Agora, em 2025, o Pai-Nosso é transformado em colete à prova de lei. A lógica é a mesma: uma religião civil de direita que sacraliza o poder e demoniza adversários. Contra esse expediente, é preciso recordar que a oração ensinada por Jesus não foi dada para elites em autodefesa, mas para discípulos perseguidos, camponeses endividados, mulheres marginalizadas. Sincrônica e diacronicamente, o Pai-Nosso é programa de desprivilegização do mundo. É convocação à partilha, ao descentramento do eu, à justiça como critério histórico. Se tomada a sério, a oração desmonta a PEC da Blindagem ponto por ponto. O “Pai nosso” exige deselitizar a política. O “santificado seja o teu nome” demanda não usar Deus como lança. O “venha o teu Reino” chama a legislar pelos últimos. O “pão nosso” exige políticas de redistribuição. O “perdoa-nos as dívidas” supõe verdade e reparação, não imunidade. O “livra-nos do mal” pede enfrentamento das estruturas corruptas, não sua blindagem.

A Bíblia apresenta bem a cena que assistimos: fariseus que performam piedade enquanto negociam justiça. Jesus os chamou de sepulcros caiados. Os profetas advertiram contra festas religiosas que encobrem opressão: “Odeio vossas solenidades, antes corra a justiça como um rio” (Am 5,21-24). Definitivamente, o Pai-Nosso não é escudo parlamentar; é um grito contra blindagens. No fim, a imagem dos deputados de mãos erguidas não santifica; escandaliza. O ethos do Pai-Nosso não pede proteção contra a lei, mas nos compromete com o pão de todos, a justiça de cada dia e a libertação do mal comum. O resto é ruído ou como dizia o colega Jean Wyllis, é falsolatria.

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