Um sardo no mundo grande e terrível

Um sardo no mundo grande e terrível
Giulia Schucht com seus filhos Delio e Giuliano, anos 1930 (Foto: Reprodução)

 

“Apesar de tudo, não consigo sufocar o desejo de seguir, embora muito aproximativamente, aquilo que acontece no mundo grande e terrível”
Carta de Gramsci a Tania Schucht, 20 de fevereiro de 1928

Na prisão à qual foi condenado pelo fascismo, Antonio Gramsci manifestou repetida preocupação com a educação de seus filhos e sobrinhos. Em uma carta a respeito, endereçada a sua esposa Giulia Schucht no ano de 1936, escreveu que o filho de sua irmã não havia vivido “fora da vida mesquinha e estreita de uma cidade da Sardenha, sem comparação com uma cidade mundial onde confluem enormes correntes de cultura, interesses e sentimentos”.

Gramsci sabia sobre o que estava escrevendo. Quando muito jovem deixou sua Sardenha natal para realizar seus estudos em Turim, carregava consigo uma visão de mundo meridional, profundamente ancorada na vida de sua terra e dos problemas do Mezzogiorno. Na cidade mundial encontrou uma cultura cosmopolita, a qual se expressava naquelas duas grandes instituições que tanto o impressionaram: a universidade e a fábrica. Seu meridionalismo, entretanto, não desapareceu. Temperado pelo cosmopolitismo urbano, perdeu seu caráter mesquinho e estreito, tornou-se consciente de si e fundiu-se aos poucos com uma cultura tendencialmente internacional. A guerra e a revolução na Rússia foram os catalisadores dessa consciência.

Nesse amálgama de uma cultura local com forças internacionais está uma das razões para a vitalidade que o pensamento de Antonio Gramsci demonstra na periferia do capitalismo, oitenta anos após sua morte. Há um pouco de Mezzogiorno em cada cultura subalterna. Algo que permite nos identificarmos empaticamente com o sardo. No “mundo grande e terrível”, como gostava de dizer, é possível encontrar um refúgio naquela cultura local ou nacional na qual a experiência vivida moldou um modo de ser e pensar. Mas é apenas nesse mundo ameaçador que uma cultura pode se converter em uma força hegemônica. É apenas quando supera os estreitos, marco do localismo, que ela pode se universalizar e tornar-se dirigente.

Nacional e internacional

Essa tensão entre o nacional e o internacional que caracteriza o pensamento de Antonio Gramsci também pode ser encontrada nos estudos dedicados a sua obra. O ritmo de desenvolvimento desses estudos é desigual e combinado. Itália é, obviamente, um centro irradiador, mas contraditoriamente é nesse centro que o caráter nacional se manifesta com maior intensidade. Quando em meados dos anos 1990 Guido Liguori escreveu Gramsci contesso, um livro no qual procurava fazer o sumário dos estudos gramscianos na Itália, concluiu-o apontando que um novo ciclo de estudos estava dando seus primeiros sinais. Livres dos constrangimentos da política imediata, as pesquisas puderam se voltar com mais paciência ao próprio texto, evitando forçá-lo para fazê-lo concordar com teses previamente definidas. Na filologia histórica, essas pesquisas encontraram um método capaz de incrementar o conhecimento do autor, incorporar inovações temáticas e enfrentar novos problemas de investigação. Os avanços na pesquisa documental, a descoberta de novas fontes e critérios mais rigorosos na definição da autoria dos textos criaram um contexto favorável para esses estudos.

Esse novo ciclo culminou na nova Edizione nazionale degli scritti di Antonio Gramsci, publicada pelo Istituto della Enciclopedia Italiana. Trata-se de uma iniciativa aprovada pelo Senado da República e levada a cabo por um comitê científico reunindo os principais estudiosos da Itália. A nova edição pretende reunir pela primeira vez todos os escritos de Gramsci e sua correspondência, organizando-os criticamente. Está dividida em três seções, a primeira destinada aos escritos reunindo os artigos que escreveu para a imprensa, os documentos partidários que redigiu e o ensaio sobre a questão meridional, com sete volumes; a segunda aos Cadernos do cárcere, incluindo os inéditos cadernos de tradução, com outros sete volumes; e uma terceira seção com o epistolário, com nove volumes.

Até o momento foram publicados os Cadernos de tradução, dois volumes do epistolário e um volume com os escritos do ano de 1917. O impacto dessa publicação será notável e visível nos estudos gramscianos futuros. Os primeiros sinais desse impacto podem ser vistos na identificação pela pesquisadora Maria Luisa Righi de algumas cartas de amor que eram endereçadas por Gramsci a Eugenia Schucht, irmã de Giulia, com quem afinal se casou. Trata-se de um episódio biográfico interessante, que pode ter tido algum impacto nas complexas relações que se estabeleceram entre a família Schucht e o sardo quando ele estava na prisão. O cartão-postal endereçado a Eugenia é o documento-chave de um interessante livro recentemente publicado por Noemi Ghetti, La cartolina di Gramsci.

As pesquisas em torno da edição nacional também alimentaram a biografia político-intelectual que Leonardo Rapone escreveu sobre o “jovem Gramsci” (O Jovem Gramsci: cinco anos que parecem séculos 1914-1919) e a biografia de Giuseppe Vacca sobre os anos do cárcere (Vida e pensamento de Antonio Gramsci 1926-1937) ambas traduzidas para o português e publicadas pela editora Contraponto, bem como a aguardada biografia escrita por Francesco Giasi, que deverá sair em breve na Itália.

O período no qual o sardo viveu em Viena e Moscou, até agora pouco conhecido, tem recebido novas luzes com essas pesquisas. Sabe-se mais hoje a respeito de sua proximidade com o grupo de intelectuais que se organizava em torno de Anatol Lunatcharski, do seu interesse pelo debate dos linguistas russos e, principalmente, a respeito de sua atividade como representante do Partido Comunista da Itália no Comitê Executivo da Internacional Comunista na segunda metade de 1922.

A maior expectativa, como era de se esperar, está na nova edição dos Cadernos do cárcere, preparada por Gianni Francioni, Giuseppe Cospito e Fabio Frosini. Na prisão Gramsci registrou sua reflexão em cadernos escolares com uma letra caprichada e perfeitamente legível. O texto praticamente não tem rasuras indicando que a escrita era precedida de longa reflexão. Mais tarde reescreveu muitas dessas notas em cadernos chamados especiais, reagrupando-as tematicamente, fundindo textos e aprimorando argumentos. Uma vez que se trata de uma obra inacabada e aberta, a sequência cronológica das notas tornou-se de grande importância para revelar o ritmo do pensamento, identificar ênfases e estabelecer as formulações mais elaboradas.

Gramsci escrevia em vários cadernos ao mesmo tempo, alguns eram subdivididos em várias partes, fazia anotações nas margens, pulava às vezes as folhas iniciais para preenchê-las mais tarde. Esse modus operandi provocou enormes dificuldades para a datação dos diferentes parágrafos que compõem o texto. A ordem cronológica dos cadernos, já identificada em edições precedentes, não é igual à ordem da escrita. A nova edição nacional dos Cadernos do cárcere procurará recompor essa ordem cronológica da escrita, preservando a unidade de cada caderno e rearranjando os blocos de parágrafos no interior destes.

A publicação dos Cadernos de tradução já permitiu uma visão mais completa do trabalho de Gramsci. Até então prevalecia a ideia de que esses cadernos registravam apenas exercícios com vistas ao estudo do russo, do alemão e, em menor medida, do inglês. Eles reuniam, entre outros textos, a tradução de um número da revista Die Literarische Welt, sobre a literatura norte-americana; fábulas dos irmãos Grimm; um livro de linguística histórica de Franz Nikolaus Finck; e uma coletânea de textos de Marx. Quando esse elenco de obras é comparado com o plano de trabalho que Gramsci redigiu na primeira página dos Cadernos percebe-se, como apontou Giuseppe Cospito, “uma série de analogias não causais” entre a escolha dos textos traduzidos e aquele plano de trabalho. Essa pequena descoberta jogou uma nova luz sobre a variedade das fontes utilizadas pelo prisioneiro durante sua pesquisa.

Espera-se agora a publicação dos cadernos miscelâneos, aqueles que reúnem notas esparsas, prevista para abril deste ano, e dos cadernos especiais, nos quais Gramsci procedeu à reorganização temática. Para a comunidade de pesquisadores, as principais descobertas, referentes à datação dos parágrafos e ao seu reordenamento no interior de cada caderno, não serão novidade. Já foram apresentadas pelos organizadores em artigos e discutidas pelos investigadores que têm acompanhado o trabalho editorial. Mas o impacto para um número maior de estudiosos, principalmente jovens, pode ser importante.

O trabalho editorial não deixa de ser uma leitura do texto. Principalmente em uma situação como esta, na qual se trata de uma obra inacabada e fragmentária. Vozes importantes, entre elas a do falecido Valentino Gerratana, questionaram o projeto afirmando que este considerava  verdadeiras hipóteses de datação que em alguns casos não poderiam ser materialmente comprovadas. Mas, depois de quase trinta anos de discussões, um certo consenso foi sendo construído em torno dos critérios da nova edição nacional. Seu principal mérito está em permitir uma reconstrução mais acurada da história interna dos Cadernos, destacando fortemente a dimensão diacrônica do texto gramsciano em detrimento daquela sincrônica. Perde força, assim, a ideia de que Gramsci produziu uma obra sistemática e valoriza-se seu caráter fragmentário e incompleto, mas nem por isso menos elaborado ou instigante.

A publicação da nova edição italiana dos escritos de Gramsci é também um risco. Quando o interesse pela obra do sardo arrefeceu em seu país natal, em grande medida devido ao colapso daquele que havia sido seu partido, foram os estudos levados a cabo no exterior os responsáveis pela maior difusão de seu pensamento. Na Argentina, no Brasil, no Chile e no México foi valorizado o pensamento político e historiográfico de Antonio Gramsci, e importantes estudos sobre a formação social desses países foram levados a cabo ao mesmo tempo que ele se tornou imprescindível para pensar a democracia na América Latina. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, suas ideias inspiraram os estudos culturais e abriram as portas para abordagens inovadoras e extremamente influentes. Na Índia, os subaltern studies promoveram uma abordagem original para o estudo dos grupos sociais subalternos.

Traduzido para diversos contextos nacionais, o pensamento gramsciano internacionalizou-se. Não foi apenas uma simples operação técnica de passagem de uma língua a outra, mas sim uma verdadeira tradução cultural na qual o texto, lido em diferente contexto, adquiria novos significados. Embora extremamente originais, essas abordagens resultantes da internacionalização dos estudos gramscianos nem sempre foram fieis à letra do texto. O caso mais notável talvez seja o da noção de hegemonia, a qual adquiriu, a partir de Raymond Williams, um significado muito diferente daquele que tinha nos Cadernos do cárcere. Apesar disso, frequentemente, autores anglo-saxões citam Williams para se referir ao “conceito de hegemonia de Antonio Gramsci”.

Nas últimas duas décadas, entretanto, novos pesquisadores fora da Itália assumiram o pensamento de Gramsci como um objeto de estudo e não apenas uma fonte de inspiração. O resultado tem enriquecido o debate internacional e contribuído de maneira importante para trazer novos temas à agenda de discussão e empurrar o pensamento de Gramsci para “fora da vida mesquinha e estreita”. A intensa circulação de pesquisadores entre Europa, Estados Unidos, Austrália e América Latina tem contribuído para consolidar esse novo cenário.

Aqui aparece o risco da nova edição italiana, seu elevado custo e a escassa circulação restringirão enormemente seu acesso. Um novo distanciamento pode ocorrer entre os estudos realizados na Itália e no resto do mundo. Além da barreira linguística, obstáculos materiais podem dificultar o acesso aos novos materiais de pesquisa. O impacto negativo sobre os próprios estudos realizados na Itália seria notável.

Nos últimos anos, o ambiente cultural e político italiano alimentou uma série de polêmicas estéreis sobre a vida e a obra de Antonio Gramsci. Discutiu-se muito sobre um suposto caderno no qual Gramsci teria renegado o marxismo e que por isso teria sido surrupiado pela direção do PCI; debateu-se a respeito da conversão do sardo ao catolicismo no leito de morte; e, depois da descoberta da carta de amor a Eugenia, comentou-se sobre sua vida sexual. Tudo isso apareceu na imprensa diária sob a forma de pequenos factoides a respeito dos quais os pesquisadores mais sérios precisaram dar respostas investindo tempo e recursos. Afastadas dos estudos internacionais, as pesquisas realizadas na Itália podem ser rapidamente consumidas por esse tipo de discussões nas quais predominam pequenas questões biográficas ou filigranas filológicas.

Por sua vez, os estudos internacionais têm muito a perder afastando-se das pesquisas realizadas no país natal de Gramsci. Foi graças a essas pesquisas que se difundiu internacionalmente uma leitura que procura contextualizar eficazmente o texto, prestando atenção às fontes, ao ambiente cultural da época, aos problemas políticos que absorviam as energias do autor. Um intercâmbio com instituições desse país também permitiu o acesso a periódicos da época, às revistas culturais, a arquivos e a obras de difícil acesso. Mas tudo isso tinha como pressuposto a consolidação de uma linguagem comum e de um modo partilhado de pesquisar. O desaparecimento dessa linguagem comum pode se tornar um obstáculo para o desenvolvimento dos estudos gramscianos no exterior.

Não há, entretanto, como recuar. O desenvolvimento dos estudos gramscianos foi o responsável pela nova edição italiana e ela contribuirá de maneira decisiva para o futuro das pesquisas. Mas é preciso estar atento para evitar o isolamento. O lugar do pensamento de Antonio Gramsci só pode ser este mundo grande e terrível. É nele que esse pensamento pode realizar sua vocação.

ALVARO BIANCHI é professor livre-docente do Departamento de Ciência Política da Unicamp e autor de O laboratório de Gramsci: filosofia, história e política (Zouk, 2018)


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