O Brasil não é dirigido por uma elite

O Brasil não é dirigido por uma elite
‘Plutocracia e Pirataria’, de G.K. Chesterton, 1928 e ‘Aristoteles’, de Ludwig Seitz, 1883 e 1887 (Arte Revista CULT / Reprodução)

Observando a linha de argumentações dos defensores do golpe, particularmente em relação ao assassinato de Marielle e à prisão de Lula, chega-se a conclusão de que não temos no comando do país uma elite.

Estes foram os argumentos dos golpistas:

1 – Tentativas de desqualificação do presidente Lula: bêbado, vagabundo, não trabalha, desocupado, bandido etc

2 – Tentativas de desqualificação da vereadora Marielle Franco: foi casada com traficante, defendia bandido etc

3 – Tentativas de desqualificação política de Lula: é apoiado por vagabundos que ganham Bolsa Família, apoiado por pessoas que não querem trabalhar, pessoas ignorantes, etc

4 – Tentativas de desqualificação política de Marielle Franco: sua campanha foi bancada pelo crime organizado

5 – Tentativas de qualificação dos algozes do Poder Judiciário: pessoas que estudaram, que deram “verdadeiras aulas” de Direito, etc

6 – Tentativas de desqualificação da condição de vítima de Marielle Franco: “Não só ela, mas muita gente morre assassinada e ninguém fala nada”

7 – Tentativas de desqualificação da condição de vítima de Lula: “Ele teve acesso a todos os recursos judiciais ao contrário da maioria da população”

O que estes argumentos têm em comum? Aquilo que o pensador Giorgio Agamben, no livro Hommo Saccer (1995),  fala da divisão da condição humana em vidas qualificadas (as que têm voz na esfera pública) e vidas nuas (as que têm meramente garantida a sua existência sem ter direito a participar da pólis).

A base epistemológica desta visão de Agamben remete à filosofia de Aristóteles. Para o pensador grego, a vida humana teria três instâncias ou “bios”: o bios theoretikos (dimensão da contemplação do mundo); o bios apolaustikos (dimensão do prazer corporal) e o bios politikos (dimensão da ação na polis, na esfera pública). Em todas estas instâncias da vida humana, o objetivo é a busca do Bem e da Felicidade.

Entretanto, esta condição humana não é universal: refere-se apenas ao que Aristóteles classifica como “homens livres”, ou aqueles que participam do Ágora. Portanto, as vidas humanas que estão fora da polis – mulheres e escravizados e escravizadas – estariam classificadas em outra categoria, a das vidas nuas, em que suas existências são meras existências.

Lula e Marielle Franco, na perspectiva dos defensores do golpe, não teriam direito a participar da polis, pois não se encaixam no perfil desejado das “vidas qualificadas” (homens brancos e pertencentes as classes mais abastadas). Por exemplo, chamar o Lula de “cachaceiro” virou lugar-comum, assim como Marielle de defensora de bandidos. Ninguém chama Fernando Henrique Cardoso de “drogado” (apesar dos boatos de que ele usou cocaína) ou Alexandre Moraes de “defensor de bandidos” apesar de ele já ter sido advogado de defesa de pessoas envolvidas com o PCC.

Poderíamos, assim, na mesma lógica argumentativa dos defensores do golpe, dizer que um defensor de bandidos (Alexandre Moraes) negou o habeas corpus a Lula atendendo ao desejo do partido de um drogado (FHC). Por que isto não é dito? Porque Alexandre Moraes e Fernando Henrique Cardoso têm um perfil típico do que as classes dominantes brasileiras consideram adequado às vidas qualificadas – o que permite que eles possam ter o comportamento que quiserem.

Assim, no fundo, o que move o pensamento dos golpistas é o preconceito expresso pelo incômodo em ter que aturar pessoas com o perfil de Lula e Marielle Franco participando também da esfera pública política.

Chama a atenção, entretanto, que esta restrição da esfera política não está vinculada a uma pretensa competência dos que que teriam direito a participar da polis estariam buscando o Bem e a Felicidade. A ideia de política para os defensores do golpe é justamente o contrário do que defendia Aristóteles no seu bios politikos, cujo pensamento baseava-se na premissa que o homem, para exercer seu pensamento, necessitava se libertar das tarefas braçais.

Basta ver o perfil dos que comemoraram a prisão do Lula e até o assassinato de Marielle Franco – tinham argumentos simplistas, autorreferentes, reforçando estigmas e estereótipos, sempre na lógica de desqualificar o outro. Uma total inversão do bios theoretikos, a contemplação não é produto de uma transcendência intelectiva no sentido platônico, e sim percepções fugidias das aparências. É o fundo do caverna de Platão.

Um dos ápices da expressão catártica dos defensores do golpe foi a festa promovida por um proprietário de prostíbulo em São Paulo, que ficou exibindo cartazes gigantes da presidente do STF e do juiz Sergio Moro, junto com o fornecimento de objetos cervejas como instrumentos de prazer e seres humanos mulheres como objetos mercantilizados. A busca do prazer corporal se insere na lógica de exercício do poder do Capital: poder comprar o prazer do álcool e do corpo feminino para usufruto.

Por tudo isto, o que se tem no comando da sociedade brasileira não é uma elite se levarmos em conta a definição originária desta palavra. Sócrates definia elite como o que existe de melhor em um grupo social. A palavra vem do latim eligere, que quer dizer “escolhidos”. Durante o século 18, era usada para definir aquilo que era de qualidade excepcional. Se os que possuem qualidade excepcional são aqueles que comemoram o assassinato de uma mulher negra, a prisão sem provas de uma liderança popular e que comemoram suas vitórias em um prostíbulo, a humanidade afundou-se mais ainda nas trevas da caverna.

(3) Comentários

  1. A Cult abandonou seu viés literário e cultural, e acima de tudo apartidário? Para se tornar panfletário de um partido ou de um grupo que assalta os cofres públicos? Lamentável!

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