A tragédia, as narrativas e a exclusão discursiva no assassinato de Marielle Franco

A tragédia, as narrativas e a exclusão discursiva no assassinato de Marielle Franco
Narrativas sobre o assassinato de Marielle tentam deslocá-la do lugar de representante da periferia e das mulheres negras (Arte Revista CULT)

 

O assassinato de Marielle Franco (PSOL) no último dia 14 de março mobilizou corações e mentes em todo o país, extrapolando o circuito mais restrito da militância em torno das ideias da vereadora do Rio de Janeiro. Chama a atenção neste poder de mobilização o poder da consternação com a morte, produto da identificação de muitos com o perfil da vítima deste crime: mulher, negra, da periferia. E que, nesta condição, cumpria um papel de representação deste setor no Parlamento.

Por conta disto, as narrativas que tentaram deslocar este lugar da vereadora vieram de diversos lugares. Primeiro, a desqualificação, usando o velho argumento da criminalização da pobreza. Desde os mais notórios pitbulls da extrema direita até uma desembargadora e parlamentares apressaram a disseminar a informação (falsa) do vínculo da vereadora com o crime organizado, dando a entender que o assassinato seria um “acerto de contas” de facções criminosas. E neste delírio, tudo foi válido, até mesmo montagens fotográficas para sustentar a informação que ela teria sido companheira de Marcinho VP, conhecido membro do crime organizado no Rio de Janeiro.

O interessante nisto é a lógica do argumento: como se o fato dela ter sido companheira de uma pessoa vinculada ao crime justificaria o seu assassinato – a mesma lógica que a mídia hegemônica utiliza quando noticia chacinas e procura apurar se as vítimas tinham ou não passagem pela polícia. Indiretamente, sinaliza que ter uma “passagem pela polícia” (que, em sendo morador de bairro periférico, pode ser pela coisa mais bizarra, tipo estar portando algumas gramas de droga) justificaria ter sido assassinado.

Giorgio Agamben, em Homo Sacer, fala da distinção entre dois tipos de vida humana: a vida qualificada (a bios aristotélica) – que é usufruída pelos seres humanos que atuam na esfera pública (na pólis) e, portanto, são “animais políticos” no sentido dado por Aristóteles – e a vida “nua”, os excluídos da vida qualificada e da pólis, cuja existência é meramente biológica e, portanto, cujas mortes não são racionalizadas dentro da dimensão da esfera pública. Por exemplo, os inúmeros jovens mortos nas periferias que são meras estatísticas.

O movimento desta narrativa da desqualificação da extrema direita é, portanto, jogar Marielle Franco da vida qualificada (expressa pela sua condição de vereadora e pelo seu ativismo em prol das comunidades negras e periféricas) para o universo da vida nua (daí a necessidade de vinculá-la a pessoas do crime organizado cujas mortes não são sentidas ou problematizadas dentro da esfera pública).

As reações do universo político à sua morte incomodaram profundamente a extrema direita, daí que a este discurso da desqualificação se somou também uma outra narrativa, aparentemente positiva, de que haveria um “exagero” na comoção pelo assassinato da vereadora, uma vez que muitos outros anônimos morrem sem qualquer ação reativa da opinião pública. O interessante é que as pessoas que falam isto são as mesmas que defendem mais repressão policial – que, justamente, causa as mortes dos anônimos.

O esvaziamento de sentidos

No processo de esvaziamento de sentidos da morte de Marielle Franco, dois procedimentos foram notados. O primeiro é deslocar o assassinato da vereadora como produto de um “descalabro geral da violência no país”, como um indicador da “falência da segurança pública” em especial no Rio de Janeiro (que, em tese, fortalece o argumento da necessidade da intervenção militar no estado) e de que “ninguém está seguro neste país, nem mesmo uma parlamentar”.

Este deslocamento ocorre dissociando o assassinato do ativismo da vereadora que defendia as comunidades periféricas, as mulheres negras, a juventude negra contra a violência de Estado. Com isto, tenta-se uma certa “folclorização” da imagem de Marielle Franco, colocando-a como uma mulher que lutou e conseguiu (uma vencedora, uma heroína) e daí a justificativa de uma comoção geral.

Boa parte da mídia hegemônica embarcou neste discurso. E ele foi reforçado pelo segundo procedimento que foi a disseminação da informação de que a vereadora fora eleita com a maior parte dos votos nos bairros de classe média e não da periferia, não sendo verdadeiro, portanto, que ela é uma “representante” das comunidades periféricas. O conceito de representação é enviesado. O setor do agronegócio, por exemplo, tem representações claras nos parlamentos e é evidente que boa parte dos seus votos não vem apenas dos empresários agrícolas, pois caso assim fosse, não seriam eleitos. Mas a representação se constrói pelas posições e posturas de tais representantes que se aproximam ou distanciam das demandas daqueles que dizem representar.

E o mais interessante é que esta informação do perfil do eleitor de Marielle Franco foi divulgada junto com o “pacote” de desmentidos das fake news disseminadas pelos pitbulls¸ entre eles o suposto envolvimento com o crime organizado. Com isto, dentro da mídia hegemônica ficou-se no combate ao discurso da desqualificação com o discurso do esvaziamento político, demonstrando que dentro das narrativas dominantes existem procedimentos excludentes distintos, mas que se unificam no impedimento de que a periferia das vidas nuas rompa os muros da ágora da vida qualificada.

(3) Comentários

  1. Depois de executarem Marielle e Anderson, tentaram destruir sua reputação, só que, logo a verdade apareceu e, ainda repercute gestos de solidariedade a eles. Seus inimigos racistas, reacionários, não contavam com o revanche do povo que defende Marielle. Hoje, movimentos das minorias por vários países, também, homenageiam sua memória e cobram por justiça, não só para eles que que foram executados, mas cobram das autoridades respeito aos seus direitos etc..

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