O poder positivo: a questão do design conceitual

O poder positivo: a questão do design conceitual Lygia Clark, Óculos, 1968 (Foto: Fatima Pombo)

No Brasil atual, vemos o poder afirmar-se cada vez mais como violência. Mas será que é só isso? Será que é por estar associado à violência que tendemos a pensar que o poder é mau?

 

O ato de pensar é como o de projetar, no sentido de desenhar, aquilo que se quer que o mundo veja e que define como o mundo deve ser visto e assim apreendido desde o ponto de vista de seu “design”.

O poder positivo pode parecer título de auto-ajuda, mas vamos lá. Talvez o que o Brasil mais precise nesse momento é de alguma auto-ajuda política no mar da ignorância no qual estamos nos afogando. Verdade que toda reflexão sobre o poder que vise à sua tomada, terá que ser mais poética do que didática e mistificatória, nos esforcemos, portanto.

Os que estão mais tensos com o que vem acontecendo com o Brasil talvez desejem um pouco mais de ousadia na prática do que no campo dos conceitos. Mas sabemos que quando se trata de política, os conceitos movem tudo. A questão é como podemos acionar conceitos que permitam agir e em que direção isso é possível.

Escrevo agora pensando em meus estudantes, nas pessoas que buscam esclarecimentos na internet sobre conceitos políticos que, muitas vezes, soam como absolutos e são abordados sem reflexão alguma. Ofereço aqui um pouco das minhas reflexões sobre o complicado tema do poder, com a intenção de uma simples professora de filosofia: ajudar a pensar.

O problema dos conceitos

Tendemos a considerar conceitos como elementos puramente racionais. No entanto, os conceitos são carregados de afetos, isso quer dizer que são construídos a partir de emoções, sensações e impressões, e capazes de produzir e reproduzir aquilo mesmo que os impulsiona a existir. Ou seja, enquanto pertencem de algum modo ao campo dos afetos, os conceitos relacionam-se necessariamente ao campo da política, na qual devemos voltar a incluir a questão necessária da ética. Mas como o campo dos afetos corresponde ao nível estético da realidade, podemos dizer que os conceitos também tem um lastro estético.

É por nascerem em contextos estéticos e políticos que os conceitos podem ser manipulados ou controlados. Isso quer dizer que os conceitos não são inocentes. Eles são, sobretudo, úteis. Não servem apenas para mostrar algo da realidade, servem para interferências estéticas e políticas na mesma realidade.

Ora, conceitos são como peças de design. Com isso quero dizer que na base daquilo que usamos para interpretar a realidade há sempre um impulso estético-político e precisamos entender por que usamos esses ou aqueles conceitos quando nos expressamos se desejarmos que a reflexão crítica se realize.

O poder corrompe

Podemos pensar o que foi dito tendo em vista o conceito de poder. Como qualquer conceito, também o poder é construído e reconstruído historicamente. Não há um poder puro, nesse sentido. O conceito de poder é acompanhado de outros conceitos ao longo das épocas.

Tomemos um jargão bem conhecido para avançar um pouco. Há tempos se tornou comum entre nós dizer que “o poder corrompe”. Esse jargão se tornou um crença muito difundida e raramente foi questionada. O poder é entendido por meio desse jargão como algo que necessariamente corrompe, o que se alcança pela conjugação do verbo: “é”. Sendo que o significado de “corromper” é tão pouco claro quanto o do próprio poder.

Há nesse jargão um conceito de poder e um conceito de corrupção que serve para construir uma definição de poder. De um lado, as pessoas interpretam o poder como algo que necessariamente corrompe e a corrupção (seja lá o que isso signifique) como algo que vem do poder. Fácil fazer as pessoas odiarem o poder por conta disso. A quem serve esse ódio que o cidadão comum tem do poder?

Quem quiser pensar ao que serve o ódio que se tem ao comunismo, ao feminismo, aos direitos humanos, faça-o, por favor. É estratégico fazer com que as pessoas não gostem daquilo que poderia mudar os rumos do poder. Os discursos ajudam a pregar ideias prontas nas mentes desavisadas. Mas deixemos isso para pensar em outro momento mais oportuno.

De um modo simples, poderíamos fazer um experimento sociológico com um outro jargão para ver que efeito ele produziria na cabeça das pessoas. Sabemos que as verdades funcionam no senso comum por repetição e, nesse caso, poderíamos usar em nosso experimento a frase “a falta de poder é que corrompe” para ver se a sociedade mudaria sua visão do poder.

Será que, a partir de uma outra visão, seríamos capazes de ressignificá-lo? Não devemos nos perguntar sobre o uso que “o poder” faz de “o poder?”. Poder de quem, afinal?

Não seria justo dizer que os pensadores mais críticos do poder contribuíram para construir essa visão ruim do poder, mas é um fato que a interpretação negativa do poder, ou do poder como algo negativo, vingou entre nós desde os pesquisadores mais sérios até o senso comum mais vulgar.

Poder impotente?

De fato, talvez não haja conceito mais angustiante em nossa época do que o de poder e por isso não seja possível pensá-lo para além da negatividade. Mas a interpretação negativa do poder também é uma questão a ser colocada em cena para melhor compreendê-lo. Pois o poder é o núcleo do que entendemos por política e há uma continuidade entre a interpretação negativa do poder com a interpretação negativa da política como campo de ação do poder.  Ao mesmo tempo, notemos que, em uma escala social, há uma interpretação positiva da ética e, pasmem, talvez justamente porque nossa tendência seja a de interpretá-la fora da política. Verdade que o termo de ética é complicado demais e está fora de moda nesses tempos em que todos gritam contra a corrupção (outro jargão muito perigoso), mas mesmo assim, quando vem a tona, tende a ser significado como algo bom. Ao mesmo tempo, quem estuda a história dos termos ética e política, sabe que eles estão essencialmente ligados.

No Brasil atual, rasgada a constituição em mil pedaços, vemos o poder afirmar-se cada vez mais como violência. Mas será que é só isso? Será que é por estar associado à violência que tendemos a pensar que o poder é mau?

Lembro de Hannah Arendt a dizer que a violência não é o abuso do poder, mas sua destruição. Tendo a concordar com ela.

E nessa linha, me parece válido perguntar: o que significa viver sob violência? Essa pergunta requer muita reflexão. O uso da violência (a polícia contra o povo, por exemplo) transfigura o poder negativamente. A negatividade do poder serve àqueles que manipulam, no fundo, a violência estatal e governamental. Serve evidentemente àqueles que substituem o poder pela violência com seus atos espúrios.

Sempre é bom perguntar que tipo de poder é esse que precisa da violência? Ele não se transforma nela? Não estamos, na verdade, sendo governados nesse momento por impotentes que precisam da força bruta da violência para garantir-se no lugar do poder, mesmo que o poder não esteja mais ali?

O poder agora é um fantasma. Aquilo que alguns veem como sendo uma falta de rumo do país não seria, na verdade, uma falta de poder? Ora, onde está o poder?

Não seria a hora de perguntar onde está o povo de onde emanaria o poder? Talvez essa pergunta possa soar como pura retórica, mas vamos meditar nela mesmo assim.

Poder transformador

Gostaria de propor que pensássemos no poder a partir de uma palavra usada por Foucault e por teóricos depois dele, o dispositivo. Dispositivo é o arranjo em que tudo – discursos, práticas, situações, instituições, relações, documentos, textos, afetos – se move para as situações conjunturais. Desse ponto de vista, o poder pode parecer pura manutenção do poder. No entanto, a palavra dispositivo nos lança em uma relação com algo que vai além do momento negativo do poder. Ela não implica um necessário julgamento moral ou estético do poder. Antes, a palavra dispositivo remete ao modo como o poder opera e se efetiva.

Podemos, por isso, dizer que o poder tem seu próprio método. Que o poder é um método prático. Ora, o poder funciona, basicamente, fazendo com o que o negativo se torne positivo, o que percebemos desde o ato de tentar transformar uma desvantagem social em vantagem, até o momento em que sujeitos e minorias marcados pelas históricas violências epistemológicas, assumem as marcações (que são sempre negativas e visam desempoderar o outro) como forma de poder político. O que chamamos de “empoderamento” relaciona-se a tudo isso. Mulheres (que se tornam feministas), negros, índios, trans, lésbicas e todos aqueles que usam conscientemente as marcações como identidades afirmativas, se tornam ativistas com consciência política, é verdade, mas apenas porque operam o dispositivo do poder em uma direção diferente da habitual. Eles sabem que o poder não tem relação direta com o corromper como a teoria popular do poder quer fazer ver. Eles sabem que o poder é um movimento, uma operação que implica um modo de ver o mundo e uma ação no mundo.

O momento positivo do poder nada mais é do que movimento, enquanto que o negativo remete à estagnação. O dispositivo não é, portanto, algo que opera sem esforço. Como algo positivo, o dispositivo que é o poder guarda a potência que é comum a própria ideia de movimento: desde o simples movimento para limpar a mesa até a a operação de virar a mesa.
Usei essa metáfora da mesa porque ela é diz exatamente do que se trata.
Portanto, em termos de política, não é o caso apenas de combater o poder, me parece que o dispositivo implica quem vai tomá-lo nas próprias mãos.
Se a política é luta por hegemonia, o dispositivo é apenas a organização das armas. Quem está a organizá-las, quem irá organizá-las, eis a questão. E essa é uma questão conceitual, de design.

(3) Comentários

  1. Não vim falar sobre seu texto. Vim dizer que eu sou a prova de que é possível conversar com o facista. Eu tenho assistido compulsivamente seus vídeos que trazem visões incômodas sobre a vida que causam estranheza e fazem pensar. Estou desconstruindo muitos dos meus preconceitos graças a você, quais sejam: machismo, homofobia, transfobia, fobia política. Enfim, ouvir você amplia meus horizontes e ajuda a me repensar, a me conhecer, a ser devolvida para mim mesma, a deixar as fórmulas prontas da auto-ajuda para atrás e me reinventar. Por tudo eu lhe agradeço muito. E por que eu nunca te pedi nada. Fale sobre gordofobia e me dê essa última ajuda. Estou tentando sozinha, mas gostaria de ouvir sua opinião nunca óbvia sobre esse tema, já que você é professora de estética da filosofia. Muito obrigada por tudo! Por suas palavras e reflexões!

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