‘Achavam que a gente era louco com aquele tipo de poesia’, diz Jards Macalé sobre Luiz Melodia

‘Achavam que a gente era louco com aquele tipo de poesia’, diz Jards Macalé sobre Luiz Melodia
O músico Luiz Melodia (Foto: Daryan Dornelles)

 

Ele veio do morro e nasceu do samba, mas não se considerava um sambista. Teve músicas gravadas por Gal Costa, Caetano Veloso e Maria Bethânia, mas não fazia parte do movimento tropicalista. Depois de gravar seu primeiro disco, quis um tempo para se recompor artisticamente e, quando pediu um respiro à gravadora, foi taxado como “difícil”.

Luiz Melodia transitou pelo samba, pelo rock, pelo blues e pela soul music, pertencendo a todos os gêneros e ao mesmo tempo a nenhum. O cantor e compositor morreu na madrugada desta sexta (4), após complicações no tratamento de um câncer na medula.

“A gente era de outra estirpe, tínhamos a nossa própria turma. Admirávamos uns aos outros”, diz Jards Macalé, um dos “ídolos” de Melodia que, como o próprio cantor, carregou o rótulo de “maldito” por se mover pelas bordas da indústria fonográfica e do mainstream. “Achavam que a gente era louco com aquele tipo de poesia. Um cara que diz uma coisa como ‘Se quer matar-me de amor que me mate no Estácio’. Quer mais o que?”

Filho de Osvaldo Melodia, mestre compositor da escola de samba Estácio de Sá, Luiz Melodia herdou do pai o bom ouvido para o samba, mas descobriu sozinho o gosto e o talento para outros ritmos ouvindo Roberto Carlos, Beatles e The Foundations.  

“A gente era mais ou menos da mesma turma, porque o Melodia também pisava no terreno da soul music“, diz Hyldon, que tocou guitarra na faixa “Pra aquietar”, do disco Pérola negra, de 1973. “Ele circulava bem em todas as áreas, era muito querido desde pessoal do samba até rock’n’roll”

Alçado à fama pelo poeta baiano Waly Salomão – que subiu o morro de São Carlos, na zona norte do Rio de Janeiro, em busca de composições para Gal Costa – Melodia teve a carreira impulsionada principalmente por Gal e Maria Bethânia, que gravaram as canções “Pérola negra” e “Estácio holly Estácio”, respectivamente.

O primeiro disco, Pérola negra, veio em 1973, quando o músico tinha apenas 22 anos. “Para a surpresa de todo mundo, ele não pegou o violão, não tocou nenhum instrumento [no disco], disse que havia gente lá que poderia tocar muito melhor que ele”, conta Renato Piau, um dos principais parceiros musicais de Melodia. Durante um mês, eles moraram juntos na casa do compositor Tibério Gaspar para gravar o disco – hoje um clássico da música popular brasileira – “com tudo pago pela gravadora”.

Depois do Pérola negra, “um disco que não vendeu muito bem”, como disse Roberto Menescal à Folha de S.Paulo, Melodia contrariou o desejo de sua gravadora, a Philips/Phonogram, e se recusou a lançar um disco só de sambas – justamente porque não se considerava um sambista e não queria ficar conhecido apenas como um.

“Luiz Melodia não era um cara comercial. As músicas dele não têm refrão, ele não gostava disso (e se uma ou outra tem é porque eu coloquei). Nas criações dele não existia o lugar comum, sua própria linguagem como poeta era uma coisa pouco ortodoxa”, lembra Piau. “A poesia dele me encantava muito. O Manoel de Barros sempre gostou também, eles trocavam muitas ideias sobre poesia.”

Com treze discos de estúdio, Melodia venceu o Prêmio da Música Brasileira em 2015 por Zerima (2014), primeiro disco de inéditas lançado após um hiato de treze anos. Para Macalé, o músico deixa “uma riqueza absoluta e uma poesia maravilhosa”. “Ele era adorado. Quem é que ia resistir àquela voz lancinante, maravilhosa?”, diz.

“Luiz Melodia mostrou que vale a pena investir na sua alma e fazer música com sentimento sem abrir concessões”, afirma Hyldon. “Ele fazia o que sentia no coração e por isso era tão respeitado”

Colaborou Amanda Massuela

(2) Comentários

  1. O adorava ,meu pai ,que foi meu introdutor ao gosto pela música Brasileira sentiu muito sua morte

  2. Morreu fisicamente um grande artista mas não sua obra. Restaram poucos dito “maldito” Jardans mesmo é um desses que tem uma importância vital para nossa cultura musical.

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