Três judeus entre jogos e traumas

Três judeus entre jogos e traumas
O escritor Jacques Fux, autor de 'Georges Perec: a psicanálise nos jogos e traumas de uma criança de guerra' (Foto: Divulgação)

 

“Uma vez mais, fui como uma criança que brinca de esconde-esconde e não sabe o que mais teme ou deseja: permanecer escondida, ser descoberta.” Assim se define Georges Perec, escritor francês membro da OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), em seu romance W ou a memória da infância, que traz um bocado de ficção emaranhado a outro bocado de relatos autobiográficos. E é nesse jogo de esconde-esconde que foi o encontrar, ou descobrir, outro escritor também de histórias um tanto ficticiosas, outro tanto autobiográficas, o brasileiro Jacques Fux, em seu livro Georges Perec: a psicanálise nos jogos e traumas de uma criança de guerra, lançado recentemente pela editora Relicário. Uma descoberta que não frustra a posição em que se coloca Perec, pois se algo na pena de Fux o revela para o leitor brasileiro, ainda assim muito permanece por desvendar nas artimanhas do romancista francês.

O livro de Fux, que reúne estudos, ensaios, artigos e reflexões sobre a obra de Georges Perec, seus jogos literários e seus arranjos para os traumas vividos durante a guerra, não apenas convida o leitor a participar do jogo de esconde-esconde proposto por Perec, como também revela, à luz da tradição psicanalítica, os efeitos traumáticos de não saber lidar com seu passado sombrio. Assim, o “esconder” e o “descobrir” da frase de Perec também pode ser lido como o “recalcar” e o “elaborar” do pensamento freudiano. Georges Perec, que viveu a 2ª Guerra Mundial como uma criança judia na Europa, com todo o horror que isso pode significar, parece fazer de seus jogos literários uma denúncia ao recalque com que franceses e outros europeus tratam seu apoio ao nazismo. Assim, na obra de Perec, esconder torna-se também uma forma de revelar, de fazer não apenas com que o que foi recalcado retorne, mas principalmente com que o próprio mecanismo do recalcamento seja evidenciado.

A forma de Perec assumir esse jogo de esconder e revelar é bem apresentada por Fux: escrever um pequeno texto excluindo uma determinada letra, homenagear alguém utilizando seu nome para iniciar cada um dos parágrafos de um documento qualquer, descobrir palavras e frases que podem ser lidas da direita para esquerda e da esquerda para direita, privar-se de uma letra fundamental na escrita de um livro, são algumas das formas que Perec encontra para segredar no íntimo de seu texto certas regras e restrições a serem descobertas pelos seus leitores e amigos. Regras e restrições que parecem, como lembra Fux, destinadas a nunca serem descobertas por inteiro, mesmo por dedicados leitores como Italo Calvino que, por fim, confessa: “embora tenha frequentado Perec durante os nove anos que dedicou à elaboração do romance, só conheço algumas de suas regras secretas”.

A hipótese de Fux é que Georges Perec, através desses jogos literários que Calvino chama de “regras secretas”, se coloca na mesma posição da criança que brinca de se esconder, prática muito comum desde a mais tenra infância. Para articular melhor essa hipótese, Fux recorre aos comentários de Freud (1920/1996) para brincadeiras como a do seu neto que lançando e puxando um carretel fazia esconder e reaparecer seu brinquedo, ou ainda a brincadeira infantil de esconder e revelar o rosto, citada por Freud (1926/1996) em seu estudo sobre a angústia e tão comum entre pais e filhos do mundo inteiro. Sendo Fux também descendente de judeus, fato que serve constantemente de tema de suas obras, é inevitável notar em seu estudo esse encontro entre três gerações de judeus que em Viena, França e Brasil, sofreram, cada um a seu modo, a violência do antissemitismo. Cada um também respondeu a essa violência ao seu modo e o trabalho de Fux nos estudos reunidos em seu novo livro foi justamente o de unir a teoria de Freud sobre o brincar ao seu olhar contemporâneo para, então, tentar desvendar como a obra literária de Perec é, ela mesma, uma resposta a essa violência.

Já na introdução do livro, Fux revela como seu encontro com a obra de Perec foi marcado, desde o início, por um estranhamento, seguido por um desejo de desvendar os segredos do romancista. No entanto, ao convocar a psicanálise de Freud, assim como o olhar de Agamben (2008) sobre Auschwitz, ou a teoria de Benveniste (1968/1989) sobre a estrutura da língua, entre tantos outros temas e autores pesquisados, Fux vai muito além do exercício de elucidar as tais “regras secretas” da literatura de Perec e nos oferece certa elucidação da própria vida e infância do escritor francês atravessada por um dos maiores horrores da história da humanidade. Assim, Fux não apenas nos diverte com as demonstrações dos artifícios de Perec, que vão desde o uso de palíndromos, lipogramas, go, jogos de lógica e anagramas, como também nos revela a forma como Perec buscou, por meio da sua literatura traumática, dar conta do absurdo que marcou a história mundial e o século 20.

Aqui ganha valor a censura que Zizek faz à famosa frase de Adorno sobre a dificuldade de se fazer poesia após os absurdos da guerra. Se para Adorno “escrever poesia depois de Auschwitz é um ato de barbárie”, de forma que seria impossível fazer poesia depois do absurdo histórico e violento do nazismo, para Zizek o que ocorre é exatamente o contrário, pois a poesia, assim define o autor, “é sempre, por definição, sobre alguma coisa que não pode ser nomeada diretamente”.

Na ótica de Fux, os jogos literários de Perec cumprem exatamente essa função de aludir ao que não pode ser nomeado diretamente, a saber, a violência da guerra, o massacre ao povo judeu, o apoio dos franceses ao nazismo ou a própria infância e orfandade do escritor. Para ficar em um único exemplo, Fux sugere que o “desaparecimento” de seus pais (ou seja, sua orfandade) talvez seja o que subjaz ao jogo literário do romance La disparition (1969), em que Perec escreve toda uma obra prescindindo da letra e, a mais frequente no francês, o que, evidentemente, coloca o autor em grande estado de privação e dificuldades e que levou os leitores e críticos ao deslumbramento quando o artifício foi descoberto. Insistindo na definição poética de Zizek, o que não pôde ser nomeado diretamente, foi feito por alusão, através de jogos e brincadeiras literárias de um escritor (ou seria de uma criança de guerra?) que buscou, através de sua escrita, elaborar algo de seus traumas.

Com isso, Fux consegue nos fazer um convite a explorar a obra de Perec ao mesmo tempo em que nos alerta para a necessidade de encararmos os horrores e traumas da nossa história – pessoal e coletiva. Mesmo nossas maiores violências, como o apoio dos franceses a Hitler, ou, no Brasil, nossa cruel ditadura que o atual governo, e parte cada vez mais crescente da população insiste em negar, precisam sempre ser relembradas e ensinadas, ainda que seja difícil nomeá-las diretamente. Pois, se podemos tirar um ensinamento fundamental da obra que floresceu na pena do judeu Sigmund Freud no início do século 20, é que o que é recalcado insiste em retornar e repetir. Perec parece também nos revelar algo semelhante, denunciando não apenas o que queremos esquecer, mas, denunciando, principalmente, nosso próprio esforço de fazer desaparecer o que nos é traumático e hostil. A análise de Fux sobre a obra de Perec parece nos dizer algo como: continuem procurando e nunca deixem de se recordar.

Humberto Moacir de Oliveira é psicólogo e psicanalista, autor de O dia em que conheci Sohia e As cornucópias da fortuna. Professor da Faculdade Pitágoras de Ipatinga (FAP), mestre em Psicologia pela UFMG e coordenador do CEPP (Centro de Estudo e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço)

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