Ideologia da maternidade

Ideologia da maternidade
Escultura do artista Keith Edmier, 'Beverly Edmier, 1967', de 1998 (Reprodução)

 

Quando ouço pessoas enaltecendo a maternidade, um aviso de alerta começa a piscar no meu espírito. Elogios sobre a maternidade em geral são abstratos. Ocultam a complexidade da condição materna. Ora, existe uma ideologia da maternidade que se sustenta justamente porque não se fala do que de fato significa ser mãe.

Parabenizamos uma mulher grávida sabendo que ela pode estar sofrendo, que ela passou, passa ou passará por dificuldades. Ninguém tem coragem de falar a verdade por diversos motivos. Creio que o principal deles é a ideologia da maternidade. Protegemos a consciência das mulheres sobre a gravidez e o que está em jogo a partir daí.

Quando vejo uma mulher grávida tenho dois sentimentos: o do respeito pela experiência vivida por aquela pessoa. Respeito que deve valer universalmente. O outro é o sentimento da compaixão. Tento me colocar no lugar daquela pessoa na situação complexa que ela vive e não julgá-la. Sempre tenho vontade de perguntar por que ela engravidou. É uma curiosidade que evito por em cena, ela poderia mobilizar motivos que é melhor manter não revelados evitando, assim, sofrimentos relativos à exposição de uma intimidade. Em certos casos, quando vejo meninas muito jovens, desamparadas em contextos familiares e de classe social, eu gostaria de perguntar “por que você fez isso com você mesma?”. Evito essa pergunta porque sou barrada por outra pergunta que dirijo a mim mesma: me questiono se tenho o direito de confrontar a pessoa com ela mesma e com o mundo onde ela vive.

Podemos, hoje em dia, não questionar a ideologia da maternidade? Talvez quem a questione não se torne mãe. Essa ideologia é como outra qualquer, ela oculta relações de poder. Raça, classe, sexualidade, projeto de vida, sustento, trabalho. Ela evita que as condições sociais e biopolíticas nas quais mulheres se tornam mães se tornem uma questão. Sabemos que ser mãe não é fácil, mas a ideologia da maternidade tem que fazer parecer que é algo bem fácil e fácil porque “natural”. Contra isso, a construção social da maternidade precisa ser pensada.

O perigo da ideologia da maternidade sempre cai sobre o mais fraco. Meninas adolescentes que engravidam e que se tornam mães antes mesmo de terem tido  a chance de pensarem em um projeto de vida que envolvesse estudos e trabalho. Desamparadas, muitas jovens acabam também condenadas aos piores empregos e ao cancelamento de qualquer outra chance de realização pessoal. Em países em que a ideologia da maternidade já foi desconstruída as mulheres falam mais abertamente sobre não querer ter filhos. No Brasil isso ainda é tabu.

Ser mãe não é algo bom ou mau em si. Há muito sofrimento em ser mãe, como é inevitável em relações hiperafetivas. Mas a afetividade também é produzida socialmente e mães são formadas para considerarem seus filhos melhores ou mais especiais do que outras pessoas. Ora, sabemos que esse caráter especial tem uma função: a condição de filho implica a entrada no mundo como entrada em um lugar. É preciso sentir-se bem recebido no mundo. A função do amor materno é essa. O amor é necessário, mas não é obrigação de uma pessoa. O amor materno pode ser praticado por um homem, por qualquer pessoa em relação àquele que vem ao mundo. O efeito colateral dessa condição especial é que precisa ser avaliado: ninguém é melhor do que ninguém.

Maternidade e trabalho

Ninguém em nossa época pode desconsiderar a relação que existe entre maternidade e trabalho. Ser mãe não é fácil. Não apenas por questões afetivas, mas porque dá muito trabalho e todas as que foram ou serão mães precisam de ajuda, seja remunerada ou não. Mulheres de classes sociais mais favorecidas pagam para mulheres de classes sociais desfavorecidas para que cuidem de seus filhos. Os filhos dessas mulheres são cuidados por quem? Por mulheres que trabalham em creches. Isso quando se tem a sorte de ter uma creche. Mães trabalham. Mães que recebem salários diferentes em contextos de classes diferentes. Bom não esquecer.

Minha filha nasceu quando eu fazia doutorado, em 1997. Hoje ela tem 21 anos. Nesses anos todos, eu e ela fomos nos tornando feministas. Ela sabe que fomos muito ajudadas, sobretudo por minhas irmãs e amigos, em nossa vida de mãe e filha. A minha maternidade é real, nunca foi idealizada. Acho que uma maternidade real concerne a todos. Eu me sinto mãe de muita gente. E me sinto filha de muita gente. Tiro assim, da minha própria mãe, o peso de sua história. Sobretudo nós, que somos mulheres e feministas, acho que vivemos inconscientemente do desejo de salvar nossa mães. Eu quero salvar também as nossas filhas.

No dia das mães minha filha não me dá presentes. Sempre conversamos criticamente sobre essa solução da felicidade pelo consumo. Ontem ela me convidou para tomar café hoje de manhã. Estou com dó de acordá-la enquanto escrevo esse post. Vamos comemorar o dia das mães e a minha aprovação no concurso da UNICAMP que fiz esta semana. Ela sabe que isso foi importante para mim.

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