HQ publicada em 1883 ganha primeira edição brasileira

HQ publicada em 1883 ganha primeira edição brasileira Ilustração da capa do livro Monsieur Jabot, de Rodolphe Töpffer (Divulgação)

Monsieur Jabot será o primeiro livro a inaugurar uma série da Sesi-SP com obras de Rodolphe Töpffer, precursor do quadrinho moderno

 

Senhor Jabot, um homem da classe média, procura de todas as formas obter um lugar na aristocracia francesa: exibe-se nos passeios públicos, frequenta bailes, discute questões políticas da Bélgica. Suas tentativas, no entanto, são sempre fracassadas: cai durante a dança, fica preso por pregos na parede, bebe óleo de vela no lugar de água.

O enredo – que à primeira vista pode parecer de um romance de Bálzac, na observação dos costumes aristocráticos, ou de Laurence Sterne, pelas situações irônicas beirando o surrealismo – é do álbum de desenhos Histoire de monsieur Jabot (1833), do pintor e escritor suíço Rodolphe Töpffer. Considerada a primeira HQ publicada no mundo, ela acaba de ganhar tradução em português pela Editora Sesi-SP. Sob o título Monsieur Jabot (2017), será lançado nesta quinta (30), na Livraria da Vila, em São Paulo.

Trecho do livro ‘Monsieur Jabot’, considerada a primeira HQ publicada no mundo, de Rodolphe Töpffer (Divulgação)

“Quando você olha as páginas, percebe a essência do que são as HQs de hoje: a estrutura de storyboard – em que uma sequência de quadrinhos instaura movimento – e uma integração completa entre texto e imagem”, afirma André Caramuru Aubert, organizador da obra.

Ele afirma que não se deve confundir a criação de Töpffer com a de seus precursores distantes, como a escrita egípcia ou o mangá – que mesmo publicado pela primeira vez 19 anos antes de Jabot, não exerceu influência sobre o Ocidente naquele momento. Por isso o organizador acredita que o álbum publicado em 1833 de fato inaugurou uma nova linguagem.

“Já existia charge, cartoon, o que não tinha era essa história em que texto e imagem estão totalmente integrados”, afirma Aubert. “O texto não é apenas uma legenda para explicar uma imagem, e nem a imagem é uma ilustração para um texto qualquer. Por isso ele fez tanto sucesso e foi tão pirateado.”

Uma edição original do livro chegou até ele há dez anos, dentro de uma caixa de papelão comum, por meio de seu pai. Aubert explica a história no prefácio: “Ele explicou que eram álbuns de Rodolphe Töpffer, um antepassado nosso, a quem se atribuía ter sido o precursor das histórias em quadrinho. Eu me lembro de ter perguntado, ‘como assim nosso antepassado?’, ao que ele respondeu algo como: “Eu não sei a relação exata de parentesco, seu avô é quem sabia, o que posso dizer é que ele era da família.” Descobriu que o pai de Töpffer havia sido sogro de seu tataravô.

Autorretrato de Rodolphe Töpffer de 1840 (Reprodução)

Na edição brasileira de Monsieur Jabot, há cartas que Goethe enviou a Töpffer para elogiar seu trabalho e sua criatividade. Deprimido após a morte do filho, o autor alemão se divertia com os quadrinhos de Töpffer que um amigo o enviava, e por meio das cartas incentivava o autor a continuar o trabalho. “Foi isso o que, digamos, tirou a dúvida de Töpffer em publicar suas histórias”, conta Aubert.

Para o organizador, essa relutância em publicar seus próprios álbuns deve-se ao ambiente conservador suíço.”Ele fazia parte de uma família conservadora, ficava com medo de ser visto como autor de bobagens, era professor da Universidade de Genebra, tinha formação de teor clássico, seu pai, que ainda estava vivo, também era um bom pintor. Então não queria se expor dessa forma.”

Monsieur Jabot será o primeiro livro a inaugurar uma série da Sesi-SP com obras do desenhista nascido em 1799, em Genebra. Serão oito volumes: Histoire de monsieur Crepin (1837), Les Amours de monsieur Vieux Bois (1837), Docteur Festus (1840), Histoire de monsieur Cryptogame (1846) e Monsieur Trictrac (1937), publicado cem anos após a morte do autor. Dois álbuns de desenhos de Töpffer também virão a público: Essais d’autobiographie (1842), com estudos de paisagens, e Essai de physiognomonie (1845), com suas técnicas para desenhar caricaturas.

 

(1) Comentário

  1. Infelizmente não pude ir ao lançamento. Ainda assim, comprarei essa edição, tão logo o site do Sesi a ponha à venda. Trata-se de um material de importância histórica indiscutível.

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