Quem mais usa jargão

Edição do mês
Quem mais usa jargão (Arte: Andreia Freire)
Por que corrigir provas é o martírio dos professores? Porque o que foi escrito sem desejo só pode ser lido sem desejo. Um pensador é alguém que nos oferece um modo de ver a realidade, de alguma maneira, como um todo. Suas ideias são uma mediação que nos adentra o espírito, confundindo-o com ela, transformando-o nela. Um ensaísta ou um escritor é alguém que nos apresenta o mundo na sua multiplicidade; mas um pensador é alguém que nos apresenta a origem do mundo. O pensamento é sempre a origem do mundo. Todo verdadeiro pensador – são raros – recomeça o mundo. “Estudo mostra que ”, “Pesquisa demonstra que ” etc.: quando o objeto em questão não é o genoma dos ratos, e sim qualquer tema que envolva uma dimensão simbólica, a isso devemos chamar carteirada científica. Esses termos, ao invocarem para si a perspectiva neutra, objetiva da ciência (e logo sua suposta autoridade), estão, no fundo, realizando a menos neutra das operações: aquela, interessada, que embute no uso das palavras determinados significados e valores, de forma a que não se dê conta dessa construção – em outras palavras, ideologia. Com efeito, o discurso científico é o álibi perfeito para a ideologia, pois é o último lugar onde se esperaria encontrá-la. Geralmente quem tem medo de assumir que gosta de baixa cultura é quem no fundo não sabe por que é boa a alta cultura. É falsa a polêmica em que os termos opostos são igualmente senso comum. “Você costuma tratar filosoficamente de problemas triviais. Sofre algum patrulhamento do universo a

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