Flechas para conquistar Troia

Flechas para conquistar Troia

Sigmund Freud (Foto: Reprodução)

Léa Silveira
Colaboração para a CULT

Em um texto de 1923, Freud cita um verso de Sófocles, o dramaturgo que lhe foi tão visceralmente caro, para fornecer uma imagem que de certo modo condensa diversas dimensões de sentido da tarefa clínica da psicanálise. A presença é fascinante e convida mesmo imediatamente à leitura da tragédia. Trata-se do Filocteto, mais exatamente do momento em que Odisseu, para persuadir Neoptólemo a executar um ardil destinado a roubar as armas do personagem-título, enuncia o fundamento de sua justificativa: “Só estas flechas conquistarão Tróia, só elas!” Na peça de Sófocles, Filocteto foi abandonado por Odisseu na ilha de Lemnos em virtude de ter desenvolvido uma ferida supurante no pé, resultado de uma picada de víbora. Sofre sem o ter merecido. Ou assim o crê. Neoptólemo deve roubar os dardos de Filocteto, já que eles seriam invencíveis e então inestimáveis para o combate. A primeira coisa que Filocteto, já há tanto tempo sozinho, privado de companhia humana, diz a Neoptólemo e seu companheiro quando estes o encontram é que deseja ouvir deles a língua. Esta língua fará com que o interlocutor deixe de se referir ao filho de Aquiles como “estrangeiro” e passe a tratá-lo como “menino” ou “rapaz”. Mas o feito da língua é alcançado à custa da mentira. Neoptólemo não deve usar nem de força nem de persuasão para tomar posse das armas. Tais meios fracassariam inevitavelmente. Sua estratégia será, em obediência a Odisseu, mentir, colocar-se como amigo de Filocteto, para então traí-lo e roubar-lhe as flechas tão decisivas para o destino dos helenos.

O texto em que Freud faz essa citação também é bastante envolvente. Trata-se de Uma neurose demoníaca no século 17, ensaio em que ele empreende uma leitura psicanalítica de um caso que diagnostica como melancolia. Ao luto do pintor Christoph Haitzmann por seu pai seguem-se pactos com o diabo. Não bastasse estar em jogo uma psiconeurose cujo elemento central é o pacto diabólico, Freud nota que esse pacto traz duas peculiaridades um tanto quanto espantosas e não imediatamente inteligíveis, do ponto de vista da psicanálise, é claro: 1) não se trata de apenas um pacto, mas de dois, um escrito com tinta e outro com sangue; 2) são pactos sem barganha, pactos nos quais Christoph se declara servo do diabo sem que se registre qualquer contrapartida, sem que o contrato informe o que o diabo deveria oferecer-lhe em troca.

A conversa deste ensaio com o texto grego se expressa intensamente nas linhas e entrelinhas.Muitos dos assuntos da tragédia marcam presença aqui: o peso da relação com um pai, o sentido do ato de apropriação de uma herança real ou simbólica, a transferência de um sofrimento para a linguagem, a dor aparentemente descolada do sentido, o recurso a ardis em nome de um objetivo, o caráter intersubjetivo do modo pelo qual alguém se posiciona para dizer o que lhe cabe, o conflito moral, a tragicidade mesma. Mas, sobretudo, está lá a acrasia. Ou, para usar uma expressão contemporânea que tomo emprestada do título de um brilhante ensaio sobre Freud, de autoria de Donald Davidson, está lá o paradoxo da irracionalidade.Em nome de que lemos essas palavras do coro na peça de Sófocles: “Foste tu, tu quem decidiste, ó desafortunado; de mão mais forte não advém a tua fatalidade, pois, quando houve ocasião para seres sensato, ao destino melhor preferiste o pior.” (p.154) Somente que todas essas coisas são em Freud outras,por óbvio. E isso não apenas em função da distância temporal e cultural, mas em decorrência do alcance filosófico do conceito freudiano de inconsciente.

Isso ainda não explica, no entanto, por que Freud se refere a flechas e a Troia. É irônico, hiperbólico e polissêmico o paralelo que ele estabelece com vistas ao efeito retórico. Num deslocamento breathtaking do psíquico para a epopeia, o trecho que antecede a citação de Sófocles é o seguinte: “Com toda a modéstia, podemos sustentar que hoje até os mais obtusos entre os nossos contemporâneos e colegas começam a entender que sem a ajuda da Psicanálise não é possível chegar a uma compreensão dos estados neuróticos.” (p. 230)

Que os recursos da psicanálise tenham se tornado as flechas com as quais se pode, senão vencer, ao menos enfrentar Troia, isso teve, é claro, uma gênese. E é ela, na medida de sua vinculação mais direta com as hoje chamadas estruturas clínicas, o que se pode acompanhar, em diversos sentidos, no volume Neurose, psicose, perversão, publicado em julho pela editora Autêntica para a coleção Obras incompletas de Sigmund Freud.

Freud não foi apenas um pensador que propôs novos conceitos e movimentos de pensamento que forçaram a razão ocidental, oriunda da cultura grega, a enfrentar os seus próprios limites. Não foi apenas um pensador que escreveu obras a serviço da defesa de teses extremamente ousadas para o seu tempo e contexto, tais como, para mencionar exemplos bem heterogêneos entre si, a da existência de um sentido de desejo nos sonhos; a da especificidade da sexualidade infantil; a da vinculação entre assassinato, culpa e origem da cultura; ou ainda a tese de que Moisés era egípcio. Freud não foi apenas, ainda, um pensador que exigiu da humanidade que repensasse a si mesma. Foi um pensador que instituiu uma nova prática. E a esta nova prática, criada por ele, ele atribuiu, na ocasião de discorrer sobre uma “neurose demoníaca”, a imagem de flechas que conquistam Troia.

Ponderemos o alcance do gesto e lembremos rapidamente o que era a psicologia antes de Freud. Impedida, desde Kant, de continuar a ser psicologia racional (derivação a priori das características da alma), ela só se constitui como disciplina acadêmica independente da filosofia tardiamente, se temos em vista a história da física. Seu campo então passa a ser, por excelência, o laboratório, e seu método privilegiado, a introspecção. O acontecimento que vem a ter lugar com Freud distancia-se radicalmente desse território, tanto no sentido de colocar a introspecção sob suspeita quanto no sentido de transferir a investigação sobre o psíquico para outro lugar, que é o da escuta.A partir da escuta, passa-se a operar com uma potência própria às palavras, lição aprendida da hipnose. Pede-se ao “estrangeiro” que fale a língua que é a sua e aposta-se na possibilidade de que um procedimento restrito à linguagem alcance um resultado relativo ao sintoma.

A nova prática então criada exigiu, bem entendido, sua fundamentação teórica. Aos olhos de Freud, isso significava, antes de mais nada, que a investigação não podia se deter no nível da descrição e, então, que era preciso construir uma teoria do aparelho psíquico.Desde o início, impõe-se para ele um vínculo essencial entre clínica e metapsicologia. Assim é que, já em 1895, no manuscrito alcunhado de “Projeto”, rascunhava uma teoria que se esforçava responder à seguinte questão: tendo a neurose tais e tais características, o que devem ser os processos psíquicos de modo tal que esse seja um resultado possível? Pergunta logo formulada de modo mais amplo: que tipo de processo tem lugar na constituição de um adoecimento psíquico? Trata-se, nesse processo, de rejeitar alguma coisa, de se posicionar psiquicamente como não querendo saber algo; trata-se de uma defesa. Esse entendimento inaugural convoca automaticamente duas novas questões: o que é isso de que não se quer saber? Seria possível diferenciar formas específicas de não se querer saber disso?

A meu ver, o novo volume da editora Autêntica pode ser lido tendo-se essas questões em mente e buscando-se entender quais foram as respostas que Freud elaborou para elas.

É curioso, nesse mesmo sentido, que, no centro do problema do inconsciente, Freud venha a situar uma forma de negação. É igualmente curioso que essa negação não possa, para ele, ser uma negação proposicional, exatamente na medida em que lhe é prévia. Assim é que, nesse volume das obras incompletas, nessa antologia não toda de textos fundamentais da psicopatologia freudiana, temos o ensaio em que Freud se posiciona metapsicologicamente com relação à forma da negação e o ensaio em que ele tenta defender, a partir de observações sobre características de palavras de diversas línguas, a ausência da negação proposicional no inconsciente.

Acompanhamos, ainda pelo motivo da negação, nos textos de Freud ali coligidos que neurose, psicose e perversão não são apenas formas de constituir sintomas, mas de configurar modos de desejar. Isso é evidente em textos como “Bate-se numa criança”, “Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina”, “Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade” e “Fetichismo”.Obviamente é já amplo o debate sobre o tema das estruturas clínicas que se segue a Freud. Suas questões são, no entanto, inauguradas ali.

O percurso tem início com uma seleção da correspondência dirigida por Freud a Fliess. Há uma beleza nessaestratégia editorial de usar cartas de uma amizade duramente interrompida como convite para a leitura. Obviamente as ideias que impulsionaram a nosografia freudiana estão lá e isso bastaria para justificar a escolha. Mas quero crer que há mais nisso. Iniciar o volume com documentos enviados por Freud a Fliess é um gesto que não deixa de apontar simbolicamente para um dos grandes motores filosóficos da psicanálise justamente em sua dimensão evidenciada na clínica: o ponto cego da pulsão como porta de entrada tanto da prática clínica quanto do próprio pensamento. As cartas estão lá como que a advertir que a transferência diz respeito à própria razão; que não lhe é algo externo.

As notas do editor de fato ajudam no trânsito. Após cada um dos textos que compõem o volume, o leitor conta com anotações que tratam de situá-los em seu contexto e num debate mais amplo e ainda de apontar brevemente elementos da gênese daquela argumentação específica. Naturalmente, muito material da escrita de Freud diretamente relacionado às estruturas clínicas teve que ficar para outros volumes. Mas é preciso reconhecer os méritos de se conseguir unificar numa proposta coerente, sob um veio específico de reflexão, textos espalhados por algo em torno de 30 anos.

Textos-flechas, necessários para uma conquista.

Mas por que elas, as flechas de Filocteto, eram especiais? O que tornava únicas aquelas flechas de uma das imagens escolhidas por Freud para se referir à clínica que ele fez existir? Essa informação, sendo corrente na mitologia grega, não é mencionada nesta tragédia de Sófocles. Ocorre que tais flechas foram legadas a Filocteto por Hércules. Elas se tornaram investidas de um poder fatal ao serem embebidas com o veneno da Hidra de Lerna quando da morte do monstro perpetrada pelo herói. O que nos permite talvez adivinhar que a metáfora eleita não é desprovida da ambiguidade do phármakon (ou da droga), que as armas empregadas na conquista agônica trazem consigo ambas as potências, a de ferir e a de curar. De ferir para curar? Ambiguidade insistente, apesar de por vezes apenas se insinuar. Uma aventura sempre exige coragem.

Léa Silveira é professora de Filosofia da Universidade Federal de Lavras

1378-20160713171214Neurose, psicose, perversão
Sigmund Freud
Autêntica
Trad.: Maria Rita Salzano Moraes
368 págs. – R$ 57

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