“Se eu não aprender algo todo dia, é como se estivesse passando fome”

“Se eu não aprender algo todo dia, é como se estivesse passando fome”

Conhecido por biografias de grandes personalidades (Nelson Rodrigues, Garrincha, Carmen Miranda), o jornalista e escritor Ruy Castro, de 77 anos, também retratou momentos decisivos da bossa nova, do samba-canção e do Rio de Janeiro dos anos 1920. Seu mais recente projeto, Trincheira tropical, é provavelmente o mais ambicioso, ao narrar uma história que nunca tinha sido contada: a dos espiões, refugiados, quintas-colunas, diplomatas e artistas na capital federal do Brasil durante a Segunda Guerra. “É sobre como o conflito modificou profundamente a cidade”, explica ele, que se debruçou sobre inúmeros documentos, confirmando sua obsessão pelo trabalho minucioso. Fixação que o ajudou a combater as adversidades na saúde, relatadas pela sua mulher, a escritora Heloisa Seixas, em O oitavo selo, uma epopeia contra drogas, alcoolismo e doenças gravíssimas. Castro recebeu a Cult em seu apartamento na Gávea, no Rio, onde guarda um fabuloso acervo de livros, discos, DVDs e documentos, a base primordial de suas pesquisas.

Trincheira tropical amplia uma visão histórica do Rio de Janeiro iniciada com Ela é carioca e Metrópole à beira-mar?

Há uma continuidade, ainda que meio descontínua. Faz parte da minha curiosidade constante sobre o que aconteceu nessa cidade no século 20. Não faço nada programado, as ideias surgem sem motivo algum. Tenho um estalo, começo a pensar no assunto e vejo possibilidades: sobre o que vou falar? Com quem vou falar? De quem vou falar? Procuro argumentos que possam derrubar o projeto até perceber que há uma real possibilidade. Examino minha coleção até ter certeza de que tenho material suficiente.

Ou seja, saberei mais ou menos onde os cadáveres estão enterrados (risos). Aí é como se aquele assunto, ou aquele personagem, já estivesse me pedindo há muito tempo para que eu o biografasse. Isso aconteceu com a bossa nova, Nelson Rodrigues [O anjo pornográfico], Garrincha [Estrela solitária], Carmen Miranda [Carmen], Ipanema [Ela é carioca], o próprio Metrópole à beira-mar.

Como é seu acervo?

Tenho jornais, cartas, documentos originais ou em cópia de várias décadas. E, nos últimos dez anos, comprei em leilões uma grande quantidade de livros dos anos 1920. Hoje tenho a coleção completa de todos os autores e jornalistas daquela época, primeira edição e edições completas. É como se eu estivesse, sem saber, me preparando durante anos para escrever sobre eles.

Foi assim com Trincheira tropical?

Nesse caso, não. Eu tinha uma certa memória da guerra porque meu pai falava muito sobre o assunto. Por ter nascido em 1948, fui criança nos anos 1950, quando ainda peguei os ecos da guerra e os adultos falavam sobre ela. Então refleti: houve uma guerra mundial e o Brasil ficou completamente alheio a ela? Também me chamava a atenção o fato de os americanos terem feito dezenas de filmes passados nos Estados Unidos durante a guerra, com personagens sendo afetados pelo conflito.

Eu me lembro de Houve uma vez um verão, de Robert Mulligan. Eu me perguntava como era a vida das famílias brasileiras, cujos filhos tinham sido mandados para a guerra. Por que nunca contaram essa história? E, principalmente, por que até hoje nunca li um livro sobre a campanha da FEB na Itália que não fosse chato? Eu não queria fazer um livro militar, mas um livro civil, uma história da vida privada daquela época. Há uma grande diferença em se escrever um livro sobre o Rio na Segunda Guerra, que qualquer estagiário faz, ou sobre a Segunda Guerra no Rio. Era uma história que nunca tinha sido contada.

Quando você começou a pesquisar?

Um pouco antes da publicação de Metrópole à beira-mar, em 2019, eu já estava lendo sobre a guerra. A imprensa da época foi uma fonte óbvia de pesquisa, mas, como não havia livros específicos, consultei obras de história, biografias, memórias de soldados, de diplomatas, de jornalistas, de artistas, de pessoas comuns que viveram naquela época.

Foi um mergulho no desconhecido, na história não contada que se construía à minha frente. Ao escrever uma biografia – isto vale também para a reposição histórica –, você abre a porta do passado, entra por ela, e o passado acontece de novo.

Trincheira tropical se classifica, desde já, como seu trabalho mais ambicioso?

Talvez não. Sem dúvida, o mais trabalhoso. Foram seis anos de pesquisas e, diferentemente de uma biografia, não é uma investigação, mas um mergulho no passado e no desconhecido. Fui conseguindo informações não só aleatoriamente, mas na medida em que meus esforços eram recompensados pelo aparecimento dos assuntos. É quase uma arqueologia.

E o processo de escrita?

Muito mais complicado. Em uma biografia, o cara nasce aqui, morre ali, e o meio você divide em ordem cronológica. Com fatos históricos, os acontecimentos são muitos e simultâneos, e não há apenas um, mas 100 personagens principais. Gente entrando e saindo de cena o tempo todo. Como não é possível descrever tudo ao mesmo tempo, é preciso priorizar. E como engatar um assunto com outro é a grande dificuldade.

Veja só, para a escrita das biografias de Nelson Rodrigues e Garrincha, precisei de quatro meses para cada uma. Isso porque a apuração estava tão detalhada que facilitou. Para a biografia de Carmen Miranda, foram oito meses, pois escrevi boa parte no hospital, onde me tratava de milhões de doenças. Já para Trincheira tropical foi preciso um ano e dois meses para costurar todos os assuntos. O importante é ter o leitor em mente, buscar a palavra mais curta, mais direta, mais objetiva, assim como parágrafos não muito longos e uma gradual mudança de assunto – se for muito rápido, o leitor se perde.

Como organizou as entrevistas?

Decidi que não entrevistaria ninguém. Primeiro porque os sobreviventes daquela época, os soldados, os pracinhas, seriam pessoas de quase 100 anos. Mesmo que estivessem relativamente lúcidos, falariam pouco porque descobri que preferem esquecer a rememorar aqueles fatos. Eles passaram por horrores que ainda lhes fazem mal.

Quase no final do livro, falo sobre os boatos que as famílias de soldados ouviam aqui sobre os maridos farreando na Europa, quando, na verdade, eles sofriam na neve. Há também histórias de pracinhas que presenciaram amigos sendo subitamente divididos ao meio por uma rajada de metralhadora ou tendo a cabeça estourada por uma bala, com os miolos voando pelos ares. Essas descrições mais violentas só fui encontrar depois de ler 30 ou 40 livros, que também evitavam o assunto. A guerra é muito bonita, mas no cinema.

O que te motiva a escrever uma biografia ou uma reconstituição histórica? Ter alguma relação próxima com o assunto também te incentiva?

Em quase todos os casos, foi uma pessoa que me interessava, que eu admirava, e cuja obra eu consumia e estudava havia muitos anos. A pessoa deve ter uma vida pela qual vou ter a curiosidade de descobrir. Nunca aconteceu de eu começar e desistir porque, antes do início, submeto o assunto a várias dúvidas e testes. Não é só a biografia de uma pessoa, mas também do mundo que a rodeia, dessas pessoas periféricas, precisa ser interessante.

Dou um exemplo: Leila Diniz foi uma figura extraordinária, altamente biografável, mas cercada de pessoas que conheço bem e pelas quais não tenho a menor admiração nem interesse. Então, ela não passou no crivo.

Como foi, por exemplo, com Garrincha?

Foi diferente porque não pensei no Garrincha inicialmente, mas no alcoolismo como tema. Eu queria escrever sobre esse assunto e precisava de um personagem central. Aí, pimba, surgiu Garrincha. Naquela época, há 30 anos, era óbvio associá-lo ao alcoolismo. Mas Garrincha se revelou mais do que isso porque, embora tenha morrido nas piores condições possíveis, ele não era um coitadinho. Ao contrário, era um homem que foi brutalmente amado por uma nação inteira, e por uma mulher, Elza Soares. Ele não bebia porque não era amado. Ele deixou de ser amado porque bebia. Foi um livro que partiu não de um personagem, mas de um assunto.

E qual verdade você buscava ao biografar Carmen Miranda?

Existiam vários livros sobre Carmen Miranda, uns cinco ou seis, tranquilamente. E nenhum deles me satisfazia. Porque os livros eram, basicamente, sobre a carreira americana dela, o que é muito fácil de se pesquisar, como logo descobri em cinco minutos. Mas quase nada sobre a fase brasileira.

Meus pais gostavam de Carmen, tinham discos dela que eu ouvia. Eu também frequentava a casa do [poeta e tradutor] José Lino Grünewald, que tinha uma ótima coleção de discos. Então, a carreira de Carmen no Brasil, que começou em 1929 e acabou em 1939, quando ela foi embora, foi importantíssima. Ela excursionava para dentro e para fora do país. Era essa história que eu queria contar.

Pouco se sabia sobre a infância e a juventude dela.

Exatamente, eu queria saber, por exemplo, por que aquela menina que gravou a canção “Taí”, em 1930, aos 20 anos de idade, já era Carmen Miranda. Isso me empolgou muito. Fui à casa da família dela e, assim como na residência dos parentes de Nelson Rodrigues e Garrincha, não encontrei nada, haviam dado tudo. Não sobrou um sapato, um turbante, uma frasqueira, uma bolsa, nada.

Só encontrei alguma coisa na casa da sobrinha dela porque ninguém quis. E eram documentos valiosos: as certidões de nascimento, de residência, as carteiras profissionais, o passaporte. Isso é ouro, pois descobri que Carmen tinha morado na Lapa, de 1915 a 1925, dos seis aos 16 anos de vida. Era um bairro absolutamente conservador, católico, com igreja, seminário, convento, colégio de freiras.

E o lado boêmio da Lapa, ainda não existia?

Existia, sim. Aquele catolicismo imperava de dia. À noite, a Lapa já havia se tornado o centro boêmio do Brasil. Havia restaurantes, hotéis, cabarés, bordéis, táxis à vontade, homens de negócio do país inteiro circulando por ali. Às três horas da manhã, você podia comprar flores e até enviar telegramas. A dualidade catolicismo e boemia acompanhou Carmen durante toda sua vida. Isso me empolgou muito.

Foi a experiência com Chega de saudade (1990) que te convenceu a não biografar pessoas vivas?

Sim, principalmente por causa de pessoas complicadas como João Gilberto, que não só era difícil como fazia com que todos ao seu redor o blindassem. Não era fácil romper essa barreira e estabelecer uma grande amizade, uma intimidade com aquelas pessoas para que me contassem histórias. Eu precisava desse repertório para que, quando chegasse a João, pudesse conversar de maneira que ele me respondesse as coisas sem perceber que eu já sabia as respostas. Dependendo da maneira como se apresenta a pergunta, o cara já imagina que você sabe ou não, mas, dependendo da resposta, você vai saber se ele está mentindo ou não.

E João Gilberto era particularmente difícil…

Era uma pessoa tão delicada, tão complicada que me obrigava a fazer as perguntas de maneira muito repetitiva. Fazer ele falar bastante dele mesmo, coisas que interessavam a ele, até que de repente deixasse escapar uma coisa que não queria falar. Foram sete ou oito conversas longas por telefone. Eu em São Paulo e ele no Rio. Era sempre a partir das 23 horas, quando ele estava acordado. Mas João foi extremamente simpático.

Ele próprio me ligou duas vezes. Nesses momentos, a conversa durava uma hora e meia, duas horas. Quando eu telefonava, ou seja, quando eu pagava a ligação, eram quatro horas (risos). Mas não me interessava vê-lo pessoalmente, eu não tinha o menor interesse em saber se tinha vazamento no teto do seu apartamento ou se a faxineira tinha passado naquele dia. Eu não precisava ter esse tipo de informação. João era extremamente minucioso nas respostas, a cabeça dele parecia um rádio, uma discoteca ambulante, ele sabia tudo de cor. E, como era cantor, em algumas respostas, começava a cantar.

Em O oitavo selo, Heloisa Seixas detalha as sete vezes que você esteve diante da morte. Mostra também como o trabalho foi essencial na sua recuperação a ponto de a biografia de Carmen Miranda, da qual boa parte você escreveu em um hospital, ser o livro mais marcante de sua carreira.

Ingressamos agora no terreno pantanoso da psicologia. Todos temos obsessões, e a minha é o trabalho. Se eu não aprender algo todo dia, é como se estivesse passando fome. Tenho obsessão por descobrir, por aprender, talvez pelo fato de eu me considerar um cara completamente sem imaginação para inventar tramas e histórias.

Quando me convenço de que quero mergulhar na história de uma pessoa ou de uma época, não consigo pensar em mais nada. Fico até insuportável. Nos cinco anos em que trabalhei na biografia de Carmen, não ouvi um disco de bossa nova, nem de música americana tradicional. Só o que era referente a Carmen Miranda. Agora, o ponto-final de um processo intenso como esse é duríssimo. Liguei chorando para Heloisa, senti um vazio enorme.

Por que você sempre se posicionou criticamente em relação à importância da Semana de Arte Moderna de 1922?

Como todo mundo da minha geração nos anos 1960, também me fascinei com a ideia de um grupo de jovens escritores que se rebelaram contra o status quo e sofreram a incompreensão dos caretas. Foi essa a Semana de Arte Moderna que nos venderam naquela época.

Mas era uma Semana reescrita pelos concretistas, que elegeram Oswald de Andrade como modelo. Dali, li tudo o que saiu dele, assisti à montagem original de O rei da vela, de José Celso Martinez Correa, e fui dos primeiros, no Correio da Manhã, em 1968, a apoiar o Tropicalismo como herdeiro de 1922. Mas, se você começa a ir aos documentos originais, o negócio despenca.

Como assim?

A turma de 1922, que envolvia umas 15 figuras, todas importantes na época, foi reduzida a Oswald, Mário de Andrade, Tarsila (que, em 1922, estudava pintura acadêmica em Paris e nem estava aqui) e Anita Malfatti. Que fim levaram Menotti del Picchia e Candido Motta Filho, futuros integralistas e simpáticos ao fascismo? E Plínio Salgado, que também participou? Nunca houve história mais copidescada que a da Semana.

Além disso, a Semana, financiada pelos barões do café, tinha um pé na direita. Os 18 do Forte marcharam contra aqueles barões, e, na Revolução de 1924, Oswald, Tarsila, Paulo Prado foram se refugiar nas suas fazendas – claro, o movimento era contra eles… Mas as piores descobertas foram sobre Oswald.

Conte mais.

Ele vendeu a ideia de que sempre foi revolucionário, mas, em 1918, ainda vinha ao Rio para beijar as mãos dos parnasianos Olavo Bilac e Emilio de Meneses, este um poeta piadista e gozador, sua grande influência na vida real. Em 1919, Oswald fazia discursos em homenagem a Rui Barbosa na Faculdade de Direito. Ou seja, quem precisava se modernizar era ele. Em 1922, o romancista que leu trechos do penumbrista Os condenados na Semana nem sonhava em ser poeta e, aliás, não era muito culto.

Mas aí, em 1923, descobriu Blaise Cendrars em Paris e chupou dele a prosa telegráfica do João Miramar e a poesia-piada do Pau-Brasil. Cendrars não reclamou, estava habituado – muitos o copiavam também em Paris. Quanto à antropofagia, que começou como piada e só depois se tornou ideologia, qual país não é “antropofágico”? Os Estados Unidos “deglutem” invenções do mundo todo, se apossam delas e as transformam à sua maneira. Os japoneses, a mesma coisa. Qual país não faz isso?

Se Oswald é cada vez mais adorado é porque seus adoradores não o leem direito – leem o que os concretistas, a USP e os exegetas posteriores escreveram sobre ele, além dos livros de “memórias” em que ele reescreveu tudo. Se lessem o que ele publicou antes de 1924 e o seu Diário confessional, teriam uma visão mais realista do homem. E não vamos nem falar do racismo, da homofobia e da pedofilia, que Lira Neto apontou na biografia dele que acaba de publicar.

É importante você admirar seu biografado?

No início do trabalho, é preciso ter uma relação inicialmente positiva em relação ao seu biografado, uma grande curiosidade sobre a vida dele. Se você tiver uma aversão pela obra da pessoa, aquilo que seria um exercício de amor, que é investigar a vida de alguém, vai se tornar um exercício de ódio. E, mesmo assim, é preciso encontrar as qualidades da pessoa. Por exemplo, Jair Bolsonaro. Não há ninguém mais odiável no mundo, cujos defeitos são conhecidos. Uma biografia de verdade também tem que trazer as qualidades dele ou não faria sentido.

Ubiratan Brasil é jornalista especializado em cultura, editor de conteúdo do Canal MF

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