Entrevista – Beatriz Bracher

Entrevista – Beatriz Bracher

A escritora Beatriz Bracher aposta na banalidade surpreendente do clichê para a reinvenção da linguagem e da literatura

Moacir Amâncio
Fotos: Alessandra Perrechil

Uma das ciclistas que passam de manhã pela Pedroso de Morais, região do Alto de Pinheiros – São Paulo (SP), é a escritora Beatriz Bracher rumo ao escritório onde trabalha, nas imediações. Lá, concebe suas histórias, lê Kafka, Beckett, Nuno Ramos, Coetzee, Rubens Figueiredo, João Gilberto Noll, Flannery O’Connor, Faulkner, Graciliano Ramos (o grande, entre os brasileiros). Depois de ter sido editora (foi uma das fundadoras da bem-sucedida Editora 34, com um catálogo em que figuram, por exemplo, cânones da literatura russa em novas traduções), ela tem ministrado cursos diversos e feito palestras, sem nunca perder de vista a atividade literária. Nisso, é uma profissional, capaz de manter uma espécie de contabilidade criativa, anotando em uma caderneta os projetos, andamentos, ideias que serão desenvolvidos em suas histórias, como um modo de controlar a tarefa e avançar nela.

Bracher recebeu elogios de críticos literários de peso, como Alcir Pecora e Roberto Schwarz. E também prêmios que a colocam no time que se firma como um novo capítulo da literatura brasileira, ao lado de Luiz Ruffato, Marcia Tiburi, Wilson Bueno. Questões éticas, implicações políticas, preocupação estética e experimentação formal são características destacadas em seus livros: Azul e Dura, romance, 2002 (7Letras); Não Falei, 2004; Antonio, 2007; e Meu Amor, 2009 (esses três pela Editora 34), mais o conto “João”, numa edição limitada, de 2008. Com Antonio, ficou com o 3º lugar no Prêmio Jabuti e o 2º no Portugal Telecom. Meu Amor levou o Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, como o melhor livro de contos em 2009. Seu roteiro, escrito com o cineasta Sérgio Bianchi, recebeu o prêmio de Melhor Roteiro do Festival de Cinema do Rio, também no ano passado. O filme tem estreia prevista para este mês.

Paulistana, viveu no Rio, mas voltou à capital paulista, onde vive. Nesta entrevista, conta como se tornou escritora e fala sobre o último livro e a criação literária, a linguagem em confronto com a mídia das telenovelas, o cotidiano e o mítico, a crítica e a atividade literária no Brasil. No momento, escreve um romance sobre um apaixonado leitor de Paraíso Perdido, de John Milton, que luta para concluir um trabalho acadêmico sobre aquele poema.

CULT – Podemos dizer que o cotidiano é o grande motor do romance, do conto. Nada mais banal, mais cotidiano, do que uma expressão como “meu amor”, título de seu último livro. Como você detona o lugar-comum, ou o recria, ou o redescobre de certo modo?

Beatriz Bracher – Escolhi esse título porque acho que as duas principais coisas do livro são o clichê e a linguagem. O lugar-comum é o quê? É um carimbo, pode servir para diferentes tipos de situação. Seria como tornar carne e osso a palavra, a expressão “meu amor”, mas sabendo que talvez seja uma luta inglória, sem a certeza de que vou conseguir.

Em alguns outros contos isso também acontece, como em “João”, por exemplo, em que a mãe vê o filho preso e diz “nunca imaginei isso para o meu filho”. O que ela fala é um clichê, mas por outro lado eu não duvido nem um pouco de que o coração dela está cheio de sofrimento.

Então, como o clichê consegue transmitir coisas importantes, intensas e originais? O clichê não impede que a expressão seja sincera. É quase como ouvir alguém falando português errado: você associa isso com burrice, e não com ignorância da língua. E o clichê também tem isso: a pessoa pode usá-lo de maneira que revele algo original e não escamoteie um senso comum, uma ausência de sentimento sincero.

CULT – Você escreveria uma novela para a televisão?

Beatriz – Vamos dizer que, se eu conseguisse escrever uma novela para a televisão – não sei se eu conseguiria no sentido técnico, porque é uma complicação –, mas, se eu conseguisse, eu não sei se gostaria…

CULT – É uma forma privilegiada de trabalhar o clichê também.

Beatriz – Mas talvez na novela o clichê seja só clichê, quer dizer, não seja cheio de vida.

CULT – Mas há bons exemplos, como o Dias Gomes; o Aguinaldo Silva, que também é romancista e começou muito jovem e com grande talento; o Carlos Lombardi, com ideias mirabolantes e inovadoras; o Walcyr Carrasco, com um transcendentalismo sutil. Eles usam o clichê como clichê e ao mesmo tempo como uma forma de retrabalhar a linguagem.

Beatriz – É verdade. Na novela, a frase pode ser clichê, mas o ator tem um olhar, tem a voz, e nisso aí não há clichê que derrube um corpo humano. Agora, se o ator for ruim, você pode pôr o melhor texto que o clichê é ele, é o corpo dele.

CULT – Falei em novela porque também pode ser um modo muito presente de discutir o cotidiano e a linguagem. Meu Amor é muito isso…

Beatriz – Pois é, tem um aspecto de Meu Amor que é o clichê, isso que eu falei, e também o derramamento, que pode ser um pouco brega, às vezes um pouco excessivo. Há um outro aspecto que é quase o oposto – e que me dei conta que os meus contos possuem –: amor tem a ver com intensidade. A ideia de violência, de se sentir abandonado, ou de se sentir muito apaixonado, tudo isso está relacionado com amor. Amor no sentido de tudo: erótico, amor ao próximo, como se tudo de bom e de ruim que unisse dois seres humanos se pudesse chamar de amor.

CULT – No conto em que descreve assassinatos de crianças, “Cloc, Clac”, você monta uma narrativa que utiliza o tom radiofônico, para ser mais exato um tom que há anos ficou muito conhecido como o estilo próprio do Gil Gomes, com aquela técnica enfática: “E o assassino estava lá, e o assassino estava à espreita, e o assassino estava preparado para matar e o assassino matou, matou e matou…”, dramaticidade destinada a expressar a alta tensão das histórias e cenas.

Beatriz – O Gil Gomes eu ouvia todo dia de manhã quando a gente ia para o colégio, e até no meu livro Azul e Dura eu menciono isso, o personagem ouve. Dava medo. E, por outro lado, tinha essa coisa apaziguadora, porque você sabia que ia acabar bem. Quer dizer, ia acabar bem no sentido de que tinha um final, o bandido estava preso ou morto.

CULT – Você e o Wilson Bueno são dois escritores que incorporam, não em todos os textos, claro, o que se poderia chamar de espírito da crônica. Você, quando acompanha aqueles crimes contra crianças e em outros momentos também, não esconde que a cena foi ou está sendo observada.

Beatriz – Sim, dependendo do conto, é tratado de uma maneira. Nesse das crianças, o “Cloc, Clac”, há uma série de narradores diferentes e, assim, estratégias narrativas diferentes. Eu na verdade tenho muito medo da crônica, porque acho que ela acaba sendo um tema, quer dizer, a realidade é tão forte que, quando você a traz para dentro do conto, ela pode tomar conta de tudo e daí parece que você está falando sobre e não criando algo novo. Acho que a literatura é diferente da crônica.

CULT – Será possível fugir de algo que se impõe naturalmente – refiro-me aos fatos da crônica cotidiana – a fim de criar, digamos, um plano de realidade virtual, livre no tempo e no espaço?

Beatriz – Eu admiro muito os autores que não fazem isso. Eu queria ser, falando dos enormes, como Kafka, que não faz isso. O leitor não sabe se ele está em Praga. Ele podia estar em 1920 ou em 1980. Claro que, quando você sabe o lugar de onde ele é, o tempo em que viveu, vai ter chaves para a leitura. O Processo pode ser explicado hoje e agora. Ou, outro exemplo, Esperando Godot também não tem nada de crônica. O Nuno Ramos, no Ó, consegue uma coisa que não tem nada de crônica.

CULT – O Processo, Esperando Godot são uma espécie de fábulas atemporais. O José J. Veiga seria um exemplo brasileiro, não?

Beatriz – É verdade, também o Bernardo Carvalho, às vezes; o Rubens Figueiredo mistura, às vezes tem um pouco de crônica. O João Gilberto Noll, por exemplo, faz algo que eu acho que não é crônica, é totalmente solto. Um livro dele poderia ser de qualquer tempo. E eu gosto muito dele. Penso que, quando você não está preso a nenhum elemento da realidade, do tempo e do espaço em que vive, tem uma liberdade enorme; na hora em que entra a realidade, a questão da verossimilhança, fica difícil, será preciso respeitar algumas coisas.

CULT – Você poderia falar sobre a mulher e a escritora?

Beatriz – Eu estudei literatura brasileira e portuguesa nas PUCs do Rio e de São Paulo, tenho três filhos, sou casada pela segunda vez. Fui editora até 2000, depois saí para um ano sabático e disse para mim mesma: “Vou escrever”. Aí escrevi o livro Azul e Dura e vi que o que eu queria era ficar escrevendo, então saí da editora e me dediquei a escrever.

Bom, como é muito solitária a coisa de escrever, por quatro anos eu dei aulas numa escola de jovens e adultos, ajudei a formar uma biblioteca… Então faço algumas outras coisas, mas minha rotina é: acordo, venho para o escritório de bicicleta, escrevo de 9h até 13h – escrevo ou tento escrever –, leio – ou me atormento porque não consigo escrever –, à tarde às vezes volto e continuo escrevendo.

CULT – Você demonstra uma consciência profissional muito clara. Mas profissão tem um complemento para essa consciência, que é a remuneração. Nesse sentido, como você vê a atividade literária no Brasil, com base em sua experiência?

Beatriz – A minha experiência, depois de publicar quatro livros, é a de que não dá para viver da escrita de literatura no Brasil, porque a venda de livros é pequena. Meus livros custam menos de 30 reais. Se custassem 30, para facilitar as contas, e eu vendesse 100 exemplares ao mês (somando os quatro títulos), ganharia 300 reais por mês, mas a soma da venda deles é menor do que 100 exemplares ao mês. O que acontece é que, com o reconhecimento como escritora, tenho recebido convites para escrever o texto de uma orelha, participar de um evento em que me pagam, escrever um conto para tal revista e receber por isso. Além dos prêmios. Juntando tudo (sem os prêmios, porque é algo muito aleatório), e se me esforçasse para receber mais encomendas e convites, talvez conseguisse ganhar 3 mil reais por mês.

Isso seria viver não da minha escrita, que são os livros de literatura, mas de trabalhos que correm ao lado e competem com a minha arte, no final. Por isso, acho que alguns escritores preferem ter outra profissão completamente afastada da escrita para ganhar dinheiro e reservar a escrita só para os livros de literatura, por um receio, talvez, de contaminação, de exaustão.

CULT – Uma condição econômica confortável ajuda ou prejudica o escritor?

Beatriz – Objetivamente e subjetivamente ajuda. Objetivamente, por motivos evidentes. Subjetivamente porque você não pode dizer a si mesmo que não vai escrever literatura porque precisa ganhar dinheiro. Ninguém pode te acusar de ser irresponsável gastando anos da sua vida em algo que não compra o leite e não paga a escola dos filhos.

CULT – Como foi sua passagem pelo mundo editorial?

Beatriz – Em 1992, fundamos a Editora 34. Era um grupo grande de sócios, oito pessoas. Trabalhei lá, como editora, até agosto de 2000, quando saí para o ano sabático. Consegui, nesse ano, escrever um livro, ou parte dele, e vi que era isso o que eu queria fazer, escrever. Na editora, como uma das donas, cuidava também da supervisão da relação com a imprensa, vendas, notas fiscais, direitos autorais, relações com outros editores. Foi um período de muito trabalho, e acho que consegui contribuir para a construção de uma editora bem legal.

A parte de selecionar e editar um livro sempre foi a que mais me interessou. Lembro-me bem de alguns livros que não pudemos editar. Tinha um com um cena do Garrincha já mais velho, indo jogar com um time do interior do Paraná. O zagueiro do time adversário facilita a vida dele, por respeito, e também por pena, porque ele já está acabado, e Garrincha percebe. É uma cena muito bonita. O livro era meio de fantasia, com uma história muito intrincada de posse de terras, muitos cenários na beira de rio. Escrevi uma carta longa ao autor explicando por que não poderíamos editá-lo, fazendo comentários sobre partes que eu achava que poderiam ser alteradas, sobre coisas de que eu tinha gostado. Não me lembro mais o nome do autor. Hoje acho que foi um erro não tê-lo publicado, porque o livro não me sai da cabeça.

Wilson Bueno me contou que, antes de publicarmos seu romance Meu Tio Roseno, a Cavalo, ele recebeu uma carta minha comentando animada e detalhadamente o livro e lamentando que não poderíamos publicá-lo porque já estávamos com a programação fechada, ou algo assim. E que um dia depois eu telefonei dizendo que iríamos publicá-lo.

Não me lembro da história, mas deve ter acontecido mesmo. É muito difícil resolver o que se vai editar ou não. Sempre há mais livros bons do que dinheiro e estrutura suficiente para fazê-los. A quantidade de livros bons que não vende nada é enorme. Editar um livro com seu autor é um trabalho íntimo e bonito, quando o autor te vê como um ajudante envolvido, interessado.

CULT – Para terminar, como você tem reagido às opiniões dos críticos?

Beatriz – O Alcir Pecora escreveu uma crítica muito bonita sobre meu último livro, Meu Amor. Eu fiquei comovida. Havia no texto dele coisas que eu não conhecia da minha obra. Eu revisei por muitos meses esse livro, reescrevi vários trechos, e depois de cada dia de trabalho me vinha a sensação de que havia me deixado levar novamente, que havia um arrebatamento na fluência da escrita, na escolha de certas palavras, que não era correto e, ao mesmo tempo, era exatamente o que deveria ser, o que precisava ser para que aqueles contos tivessem algum poder, no sentido de um tecido novo para o mundo.

Na crítica do Alcir Pecora, ele entendeu essa desmesura dramática como a principal riqueza do livro, e como algo fúnebre também. Fiquei impressionada e agradecida, foi como se ele tivesse me dado um presente, que não tem a ver com elogio, como se ele tivesse me tornado uma escritora melhor, aos meus olhos mesmo.

O Roberto Schwarz me enviou uma mensagem, em 2003, dizendo que havia terminado de ler pela segunda vez meu primeiro livro, Azul e Dura, que o achava muito bom e fazia uma pequena análise elogiosa. Esse comentário pessoal, junto com as críticas que foram escritas por Marcelo Penn, na Folha de S.Paulo, e Luciene Azevedo, no Jornal do Brasil, foram totalmente fundamentais para que eu seguisse escrevendo.

Depois publiquei Não Falei, e o Antonio Gonçalves Filho fez uma entrevista comigo e publicou um artigo n’O Estado de S. Paulo. Na entrevista, eu via que o Antonio estava como que incomodado por ter gostado do meu livro, com o fato de alguém da classe alta ter sido capaz de escrever sobre um universo da classe média. Esse sentimento era muito forte nele e mexeu comigo. O artigo dele é sobre isso, de certa forma. O que me tocou foi ter sido capaz de criar um sentimento de identidade forte o suficiente para ser vivido por alguém de sensibilidade apurada como ele, quer dizer, havia algo de fraterno na constatação dele.

Acho que o lado mais acadêmico e institucional, como o convite para a Flip e as indicações para prêmios do livro Antonio, junto com as críticas, tem uma importância de reconhecimento. Quer dizer, ser publicamente reconhecida como escritora me dá oxigênio para continuar a escrever. Como se me desse o direito de continuar a escrever. Isso é muito importante, porque são inúmeros os momentos em que me sinto uma vadia presunçosa.

(2) Comentários

  1. Cara Beatriz,
    Só agora a estou lendo… E comecei com seu `Azul e Dura `, porque queria ler seus escritos, começando pelo primeiro romance. Como nosso tempo de profs. universitários é escasso para o tanto que a Universidade nos cobra, acabamos por ter um`montão` de livros comprados à espera da leitura…
    Mas estou encantado com sua prosa… Li algumas críticas sobre sua produção, e é claro que isso aguçou meu interesse em conhecê-la. O que já li corresponde exatamente ao que eu esperava encontrar e àquilo que escreveram a seu respeito!
    Espero que continuidade da leitura só aumente meu respeito e admiração por você e sua obra!!
    Um abração do,
    Ivo C. Lopes

  2. Acabei de ler “Azul e dura”. Ótima experiência. Mas hoje em dia, agosto de 2012, os livros da Beatriz custam mais de 30 reais…

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