André Viana: “A capacidade de sonhar continua sendo nossa”
(Divulgação)
Mais de dez anos após sua estreia com O doente (Cosac Naify, 2014), o carioca André Viana, que cresceu em Aracajú e hoje vive em São Paulo, acaba de lançar seu segundo romance. Apesar dos meus ossos roídos, publicado pela Todavia, é um trabalho que parte de um material real: os diários de seu pai – ninguém menos do que o contista sergipano Antonio Carlos Viana, que morreu em 2016 e deixou uma obra aclamada pela crítica e pelos pares.
André, em conversa com a Cult, deixa claro que em sua nova proposta ficcional, o personagem Seu Carlos é inspirado no autor de livros como Cine privê (2009, Companhia das Letras) e Jeito de matar lagartas (Companhia das Letras, 2015), mas que esse personagem não é Antonio Carlos Viana.
O autor de Apesar dos meus ossos roídos comenta sobre o processo criativo para a elaboração do romance, passando pela presença do pai nesse processo, e do contexto cultural e político da época representada na narrativa.
Quais as dificuldades – e quais as vantagens – de trabalhar ficcionalmente sobre um material preconcebido? E: quais as dificuldades – e vantagens – que se acumulam no processo pelo fato de esse material ter sido preconcebido por um grande autor (e, ainda por cima, tão próximo de você)?
Meu primeiro livro, O doente, também partiu de um material preconcebido; no caso, entrevistas gravadas com um amigo meu, cuja história eu achava literariamente interessante. Acontece que a realidade pura não me interessa enquanto autor. Ela funciona mais como uma base para a invenção. Tampouco me interessa falar de mim, embora eu goste muito do recurso da primeira pessoa. O que eu gosto, onde me divirto e, principalmente, onde me sinto realmente livre, é fazendo autoficção alheia, inventando histórias na primeira pessoa do outro, Um resquício talvez da minha formação como ator, que é anterior à de jornalista.
Dito isso, e finalmente respondendo à sua pergunta, só vejo vantagens em trabalhar com um material preconcebido. O fato desse material ter sido preconcebido por meu pai gerou um processo interessante. Comecei escrevendo com cores diferentes – preto e vermelho – para distinguir o que era dele e o que era meu. O texto, a certa altura, parecia uma ode flamenguista, todo rubro-negro. Mas ainda era ele e ainda era eu. Foi somente quando resolvi colocar uma cor única no texto que a fusão aconteceu. Saíam de cena pai e filho e surgia o personagem Carlos, com sua voz e histórias próprias.
“Ainda era ele e ainda era eu” lembra a frase de Montaigne: “Porque era ele, porque era eu”, no ensaio Da amizade. Por que você decidiu contar essa história? Como você definiu a estrutura do livro?
Esse livro tem sua gênese em 1998, por obra de um acaso. Eu havia pedido uma licença da revista Veja para estudar inglês em Londres e lá caí numa república com outros estrangeiros. Uma manhã, encontrei no lixo do banheiro uma carta amassada. Minha curiosidade foi maior que meus princípios e não apenas li a carta como a copiei antes de devolvê-la ao lixo. Era um pai contando à filha, entre outras coisas, sobre os problemas psíquicos da mãe e a doença terminal da tia. Fiquei intrigado com o fato de minha colega de república – Carole era o nome dela, francesa – ter jogado a carta do pai no lixo. Que relação era aquela? Como as aulas tomavam só o período da manhã, eu passei a usar o resto dos meus dias solitários escrevendo no caderno uma sequência para aquela carta.
Voltei para o Brasil, vida seguiu e esse suposto romance epistolar ficou adormecido. Um dia, entre uma e outra tradução que fazíamos juntos, meu pai revelou que gostaria de escrever um romance comigo. “Tenho um já em andamento”, eu disse. “Quer ler?” Meu pai leu, gostou e topou seguir de onde eu tinha parado. Na paralela, ele sempre me falava que tinha um diário, e que eu poderia usá-lo depois que morresse.
Então, em 2016, ele morreu – vitimado por um mieloma múltiplo. Juntar a história das cartas com os diários do meu pai foi um movimento muito natural. Por questões estilísticas, a estrutura de diário prevaleceu sobre a estrutura epistolar, fundi a história daquela família francesa com a inusitada transformação de personalidade que meu pai teve nos últimos anos de vida, motivado pela doença, e aí está Apesar dos meus ossos roídos.
O que aconteceu com a personalidade de seu pai?
Durante a maior parte da vida, meu pai foi uma pessoa fechada, circunspecta, sorumbática, pessimista, trancafiado em si mesmo. Depois do mieloma e de uma experiência de quase-morte, ele floresceu, quis viver novas experiências, começou a abraçar e a beijar as pessoas. Muita gente comentava comigo: “Seu pai agora sorri mostrando os dentes”. Foi essa virada que me interessou literariamente e que pontua o romance.
Além de ser bastante focado em experiências físicas, Apesar dos meus ossos roídos é um livro vinculado a ações cotidianas – e ao cenário cultural brasileiro de uma época específica. Você poderia comentar um pouco sobre esses aspectos do livro?
Cenário, vale lembrar, não só cultural, mas político também, mencionado em registros esparsos: manifestações contra a Copa de 2014, o maluco protestando vestido de Batman, Olavo de Carvalho, Michel Temer traindo Dilma… Afinal, os últimos anos de Carlos coincidem com o processo que culminou no impeachment de Dilma e na consequente ascensão do bolsonarismo. Sobre o tipo de registro presente no diário, gosto de pensar que uma ação pode dizer mais sobre um personagem do que um pensamento ou uma reflexão. Logo, me pareceu razoável fazer esse personagem transitar por ações banais e cotidianas, incluindo seu registro obsessivo com gastos, que, no meu entender, ganham força literária a partir da repetição.
Ainda sobre o cenário cultural, há menções a, por exemplo, Nossos ossos, de Marcelino Freire, a O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson; e, também, há o seguinte trecho: “Seu Carlos me mostrou um livro de um colega professor que comprou no shopping. Chama Jeito de matar lagartas. Paciente leu algumas histórias para mim. Comentei que pelas histórias esse colega parece ser uma pessoa triste e o mesmo disse que é mesmo, que nunca conheceu uma pessoa mais triste no mundo.” Você poderia comentar um pouco, também, sobre esse trecho específico?
Com poucas exceções, deixei no diário do personagem tudo o que meu pai registrou que estava lendo. Carlos, assim como Antonio Carlos Viana, também é um professor de literatura aposentado, de modo que fazia sentido manter o mesmo histórico de leitura. Em relação aos filmes, inseri alguns sobre os quais eu lembro de ter conversado com ele e outros a que assistimos juntos – como é o caso de O Grande Hotel Budapeste, que vimos em Curitiba, antes de pegar o resultado do PET Scan que revelou a volta do câncer. Um dia pesado e inesquecível. Em relação ao trecho que você menciona, registrado pela enfermeira Elaine, “Seu Carlos” é inspirado em Antonio Carlos Viana, mas não é Antonio Carlos Viana. Tentei deixar isso evidente nessas passagens em que Carlos faz comentários sobre seu “colega de faculdade” famoso. Meu filho Joaquim é obcecado pela ideia do duplo, e talvez isso tenha me inspirado a fazer esse jogo com o avô dele.
Aproveitando um gancho do romance: se na era do Tinder a pistola de Tchékhov perdeu o sentido, qual é o sentido de se escrever ficção, agora, na era da inteligência artificial?
Porque a capacidade de sonhar – inclusive com ovelhas elétricas – continua sendo nossa.






