Ensaios inéditos de Octavio Paz desdobram ideia de ‘dialética da solidão’

Ensaios inéditos de Octavio Paz desdobram ideia de ‘dialética da solidão’
O poeta Octavio Paz (Divulgação)

Reunidos no livro A busca do presente e outros ensaios, textos mostram um poeta que sempre refletiu sobre a solidão e os problemas do presente

 

Dois anos sem novas edições brasileiras, o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz, morto em 1998, tem três ensaios inéditos publicados no Brasil. Poesia de solidão e poesia de comunhão (1943), Estrela de três pontas: o surrealismo (1957) e A busca do presente (1990) foram reunidos no volume A busca do presente e outros ensaios (2017), que inaugura o selo Ensaio Contemporâneo da editora Bazar do Tempo. O lançamento em São Paulo acontece nesta quarta (5), às 19h30, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi.

Para Eduardo Jardim, estudioso de Paz, organizador e tradutor do volume, os três ensaios estão relacionados a algo que o poeta denomina “dialética da solidão”, ou seja, o diálogo que o homem empreende com o mundo para tentar sair de seu isolamento interior.

“Pode-se tomar duas experiências fundamentais para Paz: o amor e a poesia. Quando amamos buscamos nos fundir com a pessoa amada, mas será isso realmente possível? A poesia quer expressar o âmago da realidade. Mas há sempre algo que não pode ser dito. Os três textos do livro tratam dessas tensões e da tentativa nunca completamente sucedida de resolvê-las”, explica Jardim.

O primeiro texto, Poesia de solidão e poesia de comunhão, que Paz escreveu aos 29 anos, é considerado pelo organizador como o ponto de partida de sua obra ensaística. Ao apresentar as obras dos escritores espanhóis Francisco de Quevedo e São João da Cruz, Octavio “observa que o homem é dividido entre duas forças opostas e a vida é, na verdade, uma disputa entre elas”, de acordo com Jardim. “Um jogo que nunca é decidido.”

Octavio Paz recebe o prêmio Nobel de Literatura, em 1990 (Divulgação)

O segundo ensaio, Estrela de três pontas: o surrealismo, é uma apresentação da vanguarda artística feita na Universidade Nacional Autônoma do México em 1957. As três pontas do título são uma referência aos princípios surrealistas: liberdade, poesia e amor. Paz, que foi embaixador em Paris, tornou-se amigo de personalidades do movimento, como André Breton, o que o aproximou das ideias vanguardistas.

O último texto, que revela um homem mais maduro, aos 76 anos, é o discurso de Paz ao receber o Nobel de Literatura, em 1990. Nele, recupera um dos temas marcantes de toda sua obra: as tensões que existem entre o ser humano e o mundo, além de suas formas nunca completamente resolvidas de tentar superá-las. O mergulho no tempo presente, nessa perspectiva, seria uma forma de lidar com o desamparo e a desorientação da solidão humana.

Para Jardim, Octavio Paz percebe o esgotamento do século 20, com o fim da confiança no progresso, na ciência, na técnica, e até no futuro de dois modos distintos. De uma perspectiva negativa, ele teme que o ocaso do futuro traga de volta fundamentalismo e fúrias religiosas. Positivamente, no entanto, percebe uma brecha para intensificar o contato com o presente, sendo a poesia uma das principais maneiras de fazê-lo.

“Em um mundo em que retornam os fundamentalismos, em que muros são construídos entre os países, em que os imigrantes são rechaçados, é urgente sublinhar a importância do autor”, diz Jardim. “Ele quis construir pontes entre as culturas, falou de uma comunidade mundial de homens solitários, foi ao mesmo tempo mexicano e cidadão do mundo. Paz pode ser uma luz que nos oriente nesses tempos sombrios”.

 

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