Dossiê | Nietzsche revelador

Dossiê | Nietzsche revelador
Neste dossiê, o leitor confere como Nietzsche pode prestar um serviço involuntário à crítica da democracia liberal (Arte Andreia Freire)

 

Este dossiê convida o leitor a bem distinguir o ponto de vista das opiniões e o dos pensamentos. Ensina pois que, em se tratando de Friedrich Nietzsche (1844-1900), o melhor mesmo é nos voltarmos para o pensador da transvaloração de todos os valores, do além-do-homem, da vontade de potência, do eterno retorno do mesmo e do amor-fati, buscando conhecer como é que afinal essas noções-chave operam no interior de temas e problemas contemporâneos, a despeito e para muito além do que tais noções teriam de “chocantes”, “preconceituosas” ou, simplesmente, “indefensáveis”.

Ao nos tornarmos cientes dos parâmetros com que Nietzsche avalia e critica movimentos como os da emancipação feminina, da moderna abolição dos escravos, da dominação política ou da erradicação dos “fracos”, “incapazes”, “doentes” – estamos em melhores condições não apenas para perceber o teor fortemente dissonante dessa avaliação e dessa crítica perante a sensibilidade moderna, mas ainda para atinarmos com o seu alcance revelador: elas desmascaram, por exemplo, o caráter contraditório dos fundamentos morais que sustentam os “desejos igualitários”, as “políticas democráticas”, os “projetos eugenistas”.

Assim, bem longe de contornar dificuldades, esconder evidências ou edulcorar ambiguidades, Scarlett Marton, Ivo da Silva Jr., André Itaparica e Wilson Antonio Frezzatti Jr., não se furtaram à tarefa de expor os nódulos de sentido e os fundamentos filosóficos do polêmico conservadorismo de Nietzsche. Das “mulheres bem-amadas”, passando pela escravidão como “cruel condição de toda cultura” e chegando à distinção entre seleção natural e “seleção cultural”, veremos, nesse claro e minucioso trabalho de especialistas, que eles não deixam de tomar suas próprias e respectivas posições.

Em boa companhia, portanto, o leitor da CULT poderá conferir como o autor de Assim falava Zaratustra pode prestar, ademais, um serviço involuntário à crítica da democracia liberal: em nome da proliferação da dissidência, valorizando a luta, o combate, o conflito e a disputa, Nietzsche dá mesmo a pensar no sentido e no valor de uma democracia efetivamente radical.


Silvio Rosa Filho é professor do departamento de Filosia da Unifesp


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