Filme ‘Escolas em luta’ narra ocupações da perspectiva dos estudantes

Filme ‘Escolas em luta’ narra ocupações da perspectiva dos estudantes Estudantes em manifestação contra a reorganização das escolas estaduais de São Paulo, em 2015 (Divulgação)

Em outubro de 2015, o Governo do Estado de São Paulo determinou o fechamento de 94 escolas estaduais e a realocação de mais de 300 mil estudantes. Os alunos, porém, declararam guerra à gestão. Em protesto contra a reorganização, ocuparam mais de 200 escolas, realizaram manifestações e divulgaram cada passo nas redes sociais. Atraíram a atenção da mídia, conquistaram a opinião pública e venceram: em dezembro, o Governo Estadual anunciou o cancelamento da reorganização.

É do inesperado movimento de estudantes de 2015 que trata o documentário Escolas em luta, que estreia no próximo sábado (2), no Cine Sesc, em São Paulo. No evento de lançamento, gratuito, haverá um debate com os diretores do filme, Eduardo Consonni, Rodrigo Marques e Tiago Tambelli, e alguns dos secundaristas que aparecem no longa: Lilith Cristina, Marcela Reis, Sophia Chablau, Cauê Albuquerque e Marcela Jesus. A mediação é do psicanalista Tales Ab’Saber.

“Quando os secundaristas começaram a ocupar as escolas aqui em São Paulo, vimos um momento único que precisava ser acompanhado de perto. Como somos documentaristas, a realização de um filme se fez urgente naquele momento”, conta o diretor Rodrigo Marques.

O longa acompanha a trajetória de cinco escolas estaduais (EE) ocupadas em São Paulo, de novembro de 2015 até o início de 2016: as EEs Maria José, na Bela Vista; João Kopke, no Centro; Virgília, no Butantã; Alves Cruz, em Perdizes, e João Fonseca, na Zona Sul. “Além disso, uma das secundaristas circulava com uma câmera por outras escolas, como a Fernão Dias, em Pinheiros”, conta o diretor Eduardo Consonni.

Com o objetivo de dar voz aos estudantes e preservar seu lugar de fala, o documentário não tem nenhum tipo de narração ou textos de apoio, contando apenas com entrevistas dos “secundas” como uma espécie de fio condutor. Além disso, tudo foi filmado em conjunto com os alunos, misturando imagens amadoras de seus próprios celulares aos registros de câmeras profissionais emprestadas pelos diretores.

“Em tempos de efervescência política onde a voz dos oprimidos estava ecoando com toda a sua força pela cidade, era primordial assegurá-la de forma incontestável. O lugar de fala dos estudantes é a própria possibilidade deles de ter uma câmera a sua disposição e filmar a própria experiência revolucionária que estavam construindo”, completa Marques.

Com a câmera quase sempre em primeira pessoa, o documentário mostra como as ocupações floresceram, se fortaleceram e se espalharam em poucos dias. Apresenta, também, cenas de alguns dos protestos mais violentos e até alguns confrontos com a Polícia Militar.

Mas o foco do filme é mesmo o cotidiano dentro das escolas tomadas pelos estudantes. Autogeridas pelos alunos, as ocupações passaram a ser palco de aulas colaborativas, oficinas, exercícios de compartilhamento e rodas de debate sobre racismo, feminismo e luta de classes. Em um dos trechos mais interessantes de Escolas em luta, por exemplo, um grupo de jovens conversa sobre racismo: “Se você tem a pele mais clara que eu, terá mais facilidades, mais privilégios”, diz uma estudante, explicando o conceito de colorismo.

No calor do momento

Escolas em luta foi filmado na mesma velocidade e nos mesmos moldes do movimento que ficou conhecido como a “primavera secundarista”: do início ao fim, a produção levou apenas 4 meses – e foi feita com o auxílio das redes sociais, importantes meios de comunicação das ocupações.

A equipe começou a produção do filme através de um post no Facebook, que convidava estudantes a enviar imagens aos diretores. O diretor Tiago Tambelli conta que, inicialmente, a ideia era fazer um filme inteiro apenas com imagens captadas pelos secundaristas, que ele afirmou serem de uma “riqueza incrível”: “Havia desde vídeos denunciando violência policial até vídeo blogs de estudantes falando do dia a dia”, lembra.

Ao mesmo tempo, os diretores começaram a ir às escolas para conhecer um pouco da rotina dos estudantes, e acabaram entrando em contato com suas opiniões. “A ideia era aproveitar o calor do momento e a partir dali saber como aqueles estudantes pensavam as ocupações, como se davam as relações entre as escolas, o afeto, os medos e a força de luta deles”, afirma Tambelli.

Foi a partir das trocas com os alunos que os diretores perceberam o potencial de os próprios estudantes narrarem sua história. E daí surgiram as ideias de emprestar as câmeras profissionais e de entrevistar a “molecada” para que eles mesmos narrassem o que estava acontecendo. As potentes entrevistas acabaram servindo como uma forma de ligar as imagens descontextualizadas. “É o governo que tem que ter medo da gente, não o contrário”, pontua, em determinado momento, uma garota, em uma das ocupações.

Para Consonni, o filme é sobre um “momento único da nossa história”, no qual uma “utopia” da escola gerida pelos próprios alunos, com ensino público de qualidade, se tornou um horizonte possível. “Ver isso acontecer de perto nas ocupações e poder criar esse filme é inspirador e enche nosso coração de coragem”.

Os diretores lembram que, depois do evento de lançamento neste sábado, qualquer pessoa ou instituição poderá organizar uma sessão de Escolas em luta através da Taturana – plataforma online que tem como objetivo democratizar obras cinematográficas brasileiras.

Pré-estreia do documentário Escolas em luta
Dia 2/12, às 17h, no Cine Sesc; Rua Augusta, 2075,  Cerqueira César, São Paulo – SP
Grátis, com distribuição de ingressos uma hora antes da sessão.

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Dezembro

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